Somos tão estúpidos… afinal é fácil!

A única coisa que cresce em Portugal é a carga fiscal. E o Estado. O peso do Estado. O compadrio do Estado. A família que se confunde com o Estado.

Num artigo anterior refreei o meu pessimismo para com o trabalho que António Costa e Silva viria a apresentar – porque não o conhecia o suficiente, porque li algumas críticas dele ao Governo que me pareceram razoáveis e porque até tive um amigo a garantir-me que o Sr. representaria um apport importante.

Bom, e perante isto, eu e todos nós, ficámos expectantes.

Chegados ao fim das 120 páginas – que eu não li senão alguns excertos das mesmas, espero que os mais relevantes – parece que afinal é fácil.

Depois duma chamada de atenção para o buraco em que vamos cair, com uma redução brutal do PIB (a sério, andávamos todos a dormir…?) e um aumento do desemprego (que me parece muito por baixo já que em Janeiro de 2013 atingimos os 17,9% e desta vez será pior), a solução está – segundo Costa e Silva – em reforçar o Estado e investir em ferrovias, portos e aeroportos, uma nova ponte sobre o Douro, novos hospitais, meios complementares de diagnóstico nos centros de saúde, coisas verdes – não interessa o quê, desde que seja verde é bom (até porque normalmente também vêm associados a rendas e subsídios que nos aparecem nas contas da electricidade) – um banco promocional (adoro), criar redes, muitas redes, a começar pelas do metro de Lisboa e Porto e a acabar em redes de laboratórios colaborativos ou mesmo “uma rede ibérica de computação avançada e supercomputação verde”, criar fundos públicos, muitos, um para a criatividade digital, outro para o apoio a empresas e pelo menos mais um ainda, um soberano.

Mas se até fico cansada com tanta obra, ao mesmo tempo derreto-me a ler que Costa e Silva entende que é fundamental produzir engenheiros e que a forma de promover tal é através da “criação de kits pedagógicos ilustrativos das profissões mais necessárias para atrair estudantes do ensino secundário”.

A sério, kits pedagógicos? Se os alunos do secundário, com 15, 16 e 17 anos precisam de kits para decidirem ser engenheiros, é melhor não o serem! É que exercer a profissão de engenheiro não é o mesmo que ser político…  Pode mesmo por a vida dos outros em risco – bom, têm razão, aqui estou a ser redutora… os políticos também podem matar por via da pobreza, é verdade… e bem para lá temos caminhado.

Mas voltando aos kits… (pelo menos) o Instituto Superior Técnico e a Universidade do Porto há anos que têm cursos de verão para os alunos do secundário terem a percepção do que são as diversas áreas de engenharia e experienciar algum tipo de realidade. São acessíveis e muito úteis para os ajudar na construção da sua árvore de decisão.

Ou seja, quem tem curiosidade e quer saber, já existem formas de o fazer. E há muitas outras, acessíveis a todos os estudantes, que passam pela leitura, pela visita a universidades, por conversas com professores, com profissionais das áreas… Kits pedagógicos só se for para promover determinada empresa, que nem precisa de publicidade.

Eu, que deveria ter ido para engenharia e que nunca me passou pela cabeça ir para direito, hoje em dia parece-me que em Portugal, ao invés, direito será mesmo a melhor área para trabalhar. E isto ocorreu-me quando, no meio de tantos casos BES, Panama Papers e coisas do género, não vemos um único escritório de advogados ou um advogado a ser acusado do que quer que seja. Aquele início de frase “salvo melhor opinião” é brutal, eu reconheço e aplaudo. Portugal deve reter os melhores advogados. Já os engenheiros, suspeito, muitos dos melhores se devem ir embora.

Mas voltando ao documento que nos resolve a vida – dinheirinho para isto tudo? Foi só um detalhe que se lhe escapou… é que se já não há dinheiro (e não existe há décadas), menos haverá amanhã.

E os milhões que poderão vir da UE – vamos ver quanto e em que condições porque lamentavelmente eu sou outra repugnante como o holandês, acho que se queremos desbaratar, temos de o fazer por conta própria (e já escrevi sobre isto aqui) – já estão praticamente destinados.

E, por ironia de redacção, (não) devem ir direitinhos para as tais empresas rentáveis que seria imperioso ajudar mas antes para aquelas que se designam sempre de estratégicas em momentos de aperto… que não são rentáveis, nunca o foram, não o serão enquanto se mantiverem na esfera (mais ou menos) pública mas que precisam de ser “alimentadas”…

Costa e Silva acha – como aliás se percebe – que temos de ter mais Estado, que o Estado deve estar mais presente e “não se limitar a despejar dinheiro para cima dos problemas”. Como assim despejar dinheiro para cima dos problemas? Está a falar do BPN? Do Novo Banco? Da TAP? Fizemos isso?

Vale a pena (re)ler este artigo de 2016. Lembra-nos muito do que nos conduziu até aqui. E nada do que Costa e Silva enuncia resolve a evidência do problema e que este artigo tão bem expressa. O problema não é a falta de ferrovias, aeroportos e o diabo a sete. O problema é a falta de investimento nacional e estrangeiro no país. E este problema só se resolve quando os investidores perceberem que finalmente Portugal passou a ter uma legislação e fiscalidade estável e favorável ao investimento, que não muda de acordo com os interesses pessoais duma elite que está ao comando há décadas.

Que o país não cresce porque as empresas dominantes não são as que produzem com mais qualidade e de forma mais eficiente mas antes as que têm boas relações com o Estado. Que a Justiça funciona – e já agora, a tempo e horas – e não permite escândalos vergonhosos como o do BES. Que gestores que ganham prémios de milhões e reconhecimentos pelos Presidentes da República, afinal não passam de fantoches nas mãos duns quantos, e sim, estou a pensar na PT, no Zeinal Bava e no Henrique Granadeiro. Esta classe política que tem os mesmos protagonistas desde que me lembro de existir bloqueou o país.

A única coisa que cresce em Portugal é a carga fiscal. E o Estado. O peso do Estado. O compadrio do Estado. A família que se confunde com o Estado. E não vamos crescer mais por termos ferrovias de alta velocidade ou média e baixa quando nem comboios temos nos grandes centros urbanos para satisfazer a população. Estamos há 10 anos à espera da ala pediátrica do São João e agora vamos construir novos hospitais? Desenvolver os portos de Sines e Leixões?

Claro que todas as medidas enunciadas são importantes, mas já o meu pai as enunciava há anos e nunca foi consultor dum governo. Não temos, nem vamos ter dinheiro para elas! Temos, sim, é de criar condições, políticas e fiscais, que atraiam investimento privado. Temos de mudar a classe política. O mindset dos (nossos) políticos. Temos de mudar a Constituição. Temos é de ser frugais. Temos é de por um ponto final neste socialismo que nos envergonha e empobrece.

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