Sporting vs. Braga: o desaparecimento ou a emergência de (mais) um grande?

Discute-se hoje o encurtamento das distâncias entre SC Braga e Sporting CP. Será esta uma moda de curta duração ou uma tendência emergente? Estaremos perante um quarto grande ou deveremos deixar de colocar Sporting no lote dos três grandes, dadas as distâncias cada vez mais evidentes para SL Benfica e FC Porto?

Tradicionalmente, no futebol português são identificados três grande clubess: FC Porto, SL Benfica e Sporting CP. Isto deve-se, possivelmente, aos seus números de associados, palmarés ou questões financeiras. Contudo, discute-se hoje o encurtamento das distâncias entre SC Braga e Sporting CP. Será esta uma moda de curta duração ou uma tendência emergente? Estaremos perante um quarto grande ou deveremos deixar de colocar Sporting no lote dos três grandes, dadas as distâncias cada vez mais evidentes para SL Benfica e FC Porto?

Parece-me claro: o Sporting é um clube grande, e por muito que o Braga venha encurtando as diferenças, não é um clube grande. Vamos a números: em termos sociais, o Sporting tem cerca de quatro vezes mais sócios que o Braga (107.000 v 28.000); em termos de palmarés, e considerando apenas quatro maiores troféus nacionais (campeonato, taça, taça da liga e supertaça), o Sporting tem 49 títulos e o Braga apenas 4; e em termos financeiros, o Sporting tem um ativo 4.23 vezes superior (301M€ v 71M€) e receitas operacionais 4.75 vezes superior (76M€ v 16M€) do que o Braga. Isto permite que o valor (contabilístico) dos jogadores do Sporting per si seja reconhecida pelos mercados financeiros como sendo 5.56 vezes superior à do Braga (89M€ v 16M€). Por inerência, a sua folha salarial é também 3.73 vezes superior (69M€ v 18.5M€).

Não obstante, isto vale o que vale, porque nos últimos 10 anos, o Sporting não ganhou nenhum campeonato, e conquistou apenas duas taças de portugal, duas taças da liga e uma supertaça. No mesmo período, o SC Braga ganhou o mesmo número de campeonatos e taças da liga, e menos uma taça de portugal e uma supertaça. Pelo meio, Braga tem ainda uma final europeia e o Sporting não. E na última época Braga terminou o campeonato à frente de Sporting… Parece claro que existem formas de mitigar o impacto desportivo da diferença de dimensão entre clubes, e o Braga aparenta saber como.

Do ponto de vista estratégico, de gestão, financeiro, comunicação e, sobretudo, desportivo, o Braga aparenta ter os seus processos muito mais bem definidos e estáveis. Possui hoje uma cultura organizacional muito mais clara e definida, tendo uma estabilidade diretiva grande que lhe permite ser mais consequente e clarividente na comunicação com os seus stakeholders. Este clima positivo permite o desenvolvimento de talento de forma sustentável. Tem demonstrado outputs dos melhores em Portugal, tanto no seu departamento de scouting (ex., Paulinho) e como no seu departamento de formação (ex., Pedro Neto, Trincão e Bruno Jordão), servidos por instalações de excelência. Até nas transações com Sporting é no sentido Sul-Norte que tem fluído a valorização de ativos (ex., Esgaio, Palhinha e Wilson Eduardo) e o fluxo do dinheiro proveniente de transferencias (ex., Ruben Amorim). Por incrível que possa parecer, o Braga tem hoje uma estrutura financeira muito mais equilibrada que o Sporting. O seu endividamento é de 73%, considerando os capitais próprios positivos de 19M€. Já o Sporting, continua em falência técnica, com um endividamento de 108% e capitas próprios de -24M€. Isto permite que o Braga invista apenas menos 30% em aquisições de jogadores que o Sporting (8.4M€ v 12M€).

Em 2019/20, Portugal recuperou o 6º lugar do ranking de clubes de UEFA, garantido que o 3º classificado da liga portuguesa possa ter acesso à UEFA Champions League (UCL) de 2021/22. Considerando que cada clube ganha (i) por participação na UCL 15.25M€ mais 1.1M€ por cada lugar no ranking dos 32 participantes da UCL, e (ii) por desempenho 2.7M€ por vitória e 0.9M€ por empate, bem como 9.5M€ se passar aos 1/8° final, é possível admitir que em 2021/22 Sporitng ou Braga consigam uma receita de cerca de 40M€ na UCL. Ou seja, para Braga um 3.º lugar na liga portuguesa em 2020/21 pode valer um aumento de 2.5 vezes da sua receita anual operacional ou o pagamento de 77% do seu passivo a pronto. Para o Sporting um 3.º lugar na liga portuguesa em 2020/21 pode significar um aumento de 53% na sua receita anual operacional ou o pagamento no imediato de 58% da sua folha salarial. Mais, o maior mediatismo do Sporting e respetiva instabilidade diretiva pode também ser utilizada em benefício do Braga: a expectativa dos associados leoninos é lutarem lado a lado com Benfica e Porto. Voltando a não cumprir essa expetativa, será muito mais fácil (re)instalar-se uma crise social que prejudique inclusive a manutenção do 3.º lugar. Este ano promete ser de importância extrema para ambos os clubes.

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