‘Street smartness’: uma reflexão sobre processos criativos

A importância das competências e práticas de estruturação e resolução de problemas no contexto atual das organizações é cada vez maior. Urge ir além do léxico e dos conceitos.

No documentário “The Black Godfather”, que retrata a vida de Clarence Avant, Barack Obama é convidado a elencar algumas características do empresário. Entre as muitas respostas, há uma expressão que me capta a atenção: o 44º Presidente dos EUA afirma que o empresário é street smart.

Para quem, tal como eu, não conhecia a expressão, ela caracteriza a inteligência que é ganha fora das escolas, num contexto de vida urbana. Entre as características que esse tipo de intelecto apresenta está uma espécie de radar de bullshit.

Neste momento, o leitor, prestes a abandonar este artigo de opinião, pergunta-se: “para onde é que isto vai?”.

Há todo um léxico associado aos processos criativos de resolução de problemas que, não obstante a sua valência conceptual, foram apropriados pelo mundo da gestão e são gritados em toda e qualquer conferência, publicação em redes sociais ou reunião.

Quem nunca ouviu que é preciso “mudar o mindset para design thinking e garantir soluções cocriativas que recorram à auscultação do cliente para que depois se executem protótipos geridos em formato agile” que atire a primeira pedra.

Ora, a meu ver, este processo apresenta dois problemas: um primeiro de inconsequência e um segundo de descredibilização progressiva da necessidade de aplicar processos criativos à resolução de problemas empresariais.

É adequado utilizar ferramentas criativas e colaborativas na resolução de problemas? Sim! Essas ferramentas aplicam-se a todo e qualquer problema? Não!

Utilizemos, ilustrativamente, o conceito de design thinking, que não é, nada mais nada menos, que o recurso às ferramentas e aos modelos de pensamento aplicados por designers para resolução de problemas.

Este tipo de raciocínios é bastante útil quando estamos perante um problema onde precisamos de garantir um entendimento partilhado sobre o mesmo e divergir na procura de soluções no sentido de chegar a um resultado mais inovador do que seria conseguido, em teoria, por um indivíduo através do seu processo intelectual solitário.

Não obstante, este tipo de estruturação para a resolução de um problema simples e de solução evidente, seria até contraproducente, levando ao consumo de tempo e recursos desnecessários a um processo que só beneficiaria de ser pragmático.

Por mais bonito que seja o martelo, ele não serve para apertar um parafuso. Até para saber quando se deve aplicar design é preciso algum thinking.

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