Sustentabilidade: Produtos que foram criados para tirarem o plástico da equação

A luta para substituir um material que não é biodegradável e deixa uma pegada ambiental cada vez mais pesada está a ser travada por muitos consumidores, mas também por algumas empresas criadas para ajudara alterar mentalidades. Começam a aparecer em Portugal alternativas sustentáveis para mudar hábitos de consumo, um produto de cada vez.

Atualmente, mais de 90% dos CEO dizem que a sustentabilidade é fundamental para o sucesso de uma empresa. A informação é de um estudo conduzido pela Universidade de Stanford, que diz também que 88% dos alunos das escolas de empreendedorismo acham que questões ambientais e sociais devem ser uma prioridade nos negócios. E isso tem-se vindo a notar, sendo que cada vez mais empreendedores iniciantes estão a construir as suas empresas em torno da proteção ambiental. Isso levou ao surgimento de startups promissoras que se concentram em produtos duráveis, ecológicos e recicláveis. O JE conversou com três delas. Além de serem portuguesas, partilham a mesma missão: eliminar o plástico, um produto de cada vez.

Catarina Matos é a CEO da primeira loja online desperdício zero em Portugal, a Mind the Trash. A urgência em mudar os hábitos consumistas começou quando ainda vivia em Londres. “Deparei-me lá com uma realidade completamente diferente da nossa, de enorme desperdício diário, que era mesmo assustador”, recorda. “Fiquei horrorizada com a quantidade de plástico, sob a forma de produtos descartáveis, que via ser deitada fora no dia a dia”.

A arquiteta de 31 anos sempre teve atenção à sua pegada ecológica, mas os hábitos dos londrinos exponenciaram as suas preocupações ambientais. “Parecia que andava tudo a dormir’’, afirma. Então, através da sua conta Instagram decidiu partilhar algumas dicas e descobertas de produtos que usava regularmente. “Chamei-lhe Mind the Trash. Começámos a ter muitos seguidores, mas eram todos estrangeiros,” recorda, entre risos. Catarina trouxe a ideia para Portugal há quatro anos, quando se mudou para Lisboa, juntamente com o seu então companheiro dinamarquês, Christian. “Sempre que vinha cá de férias era um sufoco porque queria continuar a usar os produtos alternativos ao plástico, mas cá parecia que ninguém falava disto’’. As quatro mãos uniram-se e desenvolveram a ideia para a primeira loja online “deste género. Entretanto deu-se um boom e começaram a surgir outras. E ainda bem!’’ afirma, convicta.

Os dois, que tinham trabalhos em full time, investiram “todas as poupanças” e abandonaram o emprego para dedicarem 100% do seu tempo ao projeto empresarial. “Fizemos tudo sozinhos: o logótipo, o site, as fotografias, os textos dos produtos, o design. Nenhum de nós trabalhava na área, pelo que tivemos de aprender tudo acerca de margens, IVA e licenciamentos’’, explica, sorridente. “Aprendemos à medida que fomos crescendo’’.

Além de vender os produtos que usava, Catarina quis manter a mesma postura em relação aos seus seguidores na rede social. “Tinha uma base muito pessoal [no Instagram] e quisemos que a nossa empresa fosse assim”, explica. “Os produtos que temos são um reflexo dos produtos que utilizamos. Não vendemos tudo e mais alguma coisa só para fazer dinheiro, são produtos em que acreditamos”, sublinha.

Atualmente, é possível escolher entre 32 produtos orgânicos na Mind the Trash, que oferece uma larga variedade de alternativas amigas do ambiente — de escovas para lavar a louça em madeira e cerdas de tampico às pastas de dentes de carvão ativado, passando  pelas palhinhas de trigo ou de inox.

Utensílio comestível

A substituição das palhinhas de plástico é um dos passos mais urgentes. Na União Europeia são utilizadas cerca de 36,4 mil milhões de palhinhas todos os anos e, apesar de já haver um acordo para, a partir de 2021, as palhinhas, cotonetes e talheres de plástico passarem a ser proibidos, impõe-se ainda a questão levantada por Luís Barroca Monteiro: “Será que o uso da palhinha é mesmo necessário?’”

Luís é o fundador da Palhinhas de Massa, uma startup que arrancou há cinco anos. E como é que surgiu a ideia? “É muito engraçado. A minha mulher, que não tem nada a ver com esta área, mandou para o ar que se devia lançar um produto substituto das palhinhas de plástico”, explica, recordando que “ela até brincou com a quantidade de amostras que recebemos e sugeriu que, se não corresse bem, podíamos fazer macarrão mais tarde para os miúdos”, revela um dos dois fundadores da empresa.

Mas a ideia demorou a descolar, pois depararam-se com dificuldades para encontrar um fornecedor em Portugal. “Há sempre esta dificuldade para quem está a arrancar com ideias: ninguém liga”, aponta Luís Barroca Monteiro. Por isso, decidiu ir até aos especialistas na matéria-prima. “Encontrei um fornecedor em Itália, pedi amostras, testei-as em várias bebidas e refrigerantes, com amigos e em estabelecimentos comerciais. E depois tivemos de as transformar num produto’’, explica, realçando que tudo isto foi um processo moroso.

Os testes foram positivos: além de não deixar sabor na bebida, a palhinha feita de massa dura “à vontade” uma hora . Algo que o empresário considera perfeitamente adequado à finalidade desejada, pois “ninguém demora mais de 15 minutos a beber uma bebida”. E isso prova-se: segundo dados oficiais da União Europeia, uma palhinha de plástico tem um tempo médio de vida, nas mãos de um consumidor, de quatro minutos. “E se demorar mais pode sempre cortar a parte que está mole e usar o resto da palhinha”, exemplifica Luís com duas metades da palha na mão depois de a ter partido ao meio. “Por isso é que é reutilizável”, conclui.

Contudo, a reação do público tem sido a mesma: porquê massa? “A resposta que me vem à cabeça é: porque não? É um produto natural, comestível e tem uma ótima duração. O impacto ambiental não existe”, sublinha o CEO, entre risos. “Se colocarmos a palhinha na terra ou na relva, ao fim de meia dúzia de dias desfaz-se, porque é massa”, explica, encolhendo os ombros, dada a simplicidade do produto. “É um produto descartável. De utilização única, ou não. Pode ser reutilizável, se quisermos. No fundo, dentro de todas as opções que testámos, foi o único produto que apresentou uma relação preço-qualidade agradável para o nosso cliente, e depois com a vertente que nos preocupa, que é o ambiente”, conclui.

A palhinha já está ser comercializada para cafés, hotéis e restaurantes em Portugal e tem sido “muito bem recebida”. Pode ser adquirida no site da marca, em embalagens com um mínimo de 30 unidades (custam seis euros). Falta, apenas, uma solução para as embalar: “Estamos neste momento com uma campanha de crowdfunding, com a PPL. Desde que começámos, temos tido muitos feedbacks de estabelecimentos que nos têm indicado que seria mais benéfico termos a palhinha individualizada em invólucro, à semelhança daquelas que vêm em plástico.” Mas faz questão de sublinhar que “o plástico está fora de questão, portanto a alternativa é o papel”. Para poderem dar esse passo têm de comprar uma máquina que só está disponível na China, e que não só produz este tipo de embalagem como também imprime o rótulo da palhinha, o que seria benéfico para a marca. “Se conseguirmos que esta campanha tenha sucesso, isso vai fazer uma grande diferença. Achamos que o mercado precisa deste tipo de solução. Estamos a falar de uma campanha de 13 mil euros para podermos fazer esse investimento’’, diz.

A gigante das embalagens Tetra Pak também está atenta às novas tendências e já deu os primeiros passos na produção de uma palhinha feita de papel. “Estas palhinhas representam uma importante solução na corrida para alcançar uma economia circular de baixo carbono”, explica ao Jornal Económico Marina Sánchez, da Tetra Pak Iberia. “Os materiais à base de plantas reduzem as emissões de dióxido de carbono no ciclo de vida e são fáceis de reciclar em novos produtos de cartão, evitando assim o lixo”, conclui.

Desperdício zero

A Pegada Verde partilha os mesmos ideais. Nasceu em 2009 e lançou-se no mercado com copos menstruais. “Na altura apostámos em categorias como a cosmética biológica e as fraldas reutilizáveis, e sentimos que esse não era o caminho, pois o mercado não estava recetivo – foi demasiado cedo”, explicaram os fundadores em declarações ao Jornal_Económico.

Sérgio Miranda, formado em Gestão, e Sofia Catarino, licenciada em Psicologia, juntaram-se com o objetivo de “partilhar e dar a conhecer produtos ecológicos e de design”, explicam. “Para nós, o importante é tornar o nosso planeta num sítio melhor através de pequenos gestos, e a reutilização é a nossa bandeira”, sublinham.

A startup usou o apoio do IEFP e de familiares para arrancar há dez anos como plataforma de distribuição e, atualmente, conta com 1.500 referências no portefólio do site, desde talheres, copos e garrafas a marmitas. “Além da loja online, fazemos distribuição de marcas em Portugal e em Espanha”, explicam, reforçando a ideia de que ambicionam expandir e diversificar os produtos tornando-os cada vez mais virados para “o zero waste”.

Segundo as ONG ligadas ao ambiente, a nossa atual cultura de consumo é insustentável. A extração de matérias-primas de espaços naturais requer grandes quantidades de energia e causa poluição. O processo de extração desses materiais requer mais energia e causa mais poluição. Uma vez utilizados, os produtos são simplesmente deitados fora ou destruídos, pondo fim ao seu ciclo de vida.

Em contraste, uma abordagem de desperdício zero conserva os recursos naturais e reduz a poluição da extração, fabricação e descarte. Sobre a temática dos produtos biodegradáveis e mais amigos do ambiente, a Associação Zero afirma que “a mudança necessária deverá passar, do nosso ponto de vista, pelo trabalho a montante”. Isto é, “no próprio desenho das soluções, sejam embalagens, recipientes, utensílios, garantindo a redução da sua utilização (sempre que possível) e a sua reutilização, devendo ainda ser integrado o cuidado de garantir a reciclabilidade do produto no final da sua vida útil”.

Segundo um relatório da Circle Economy, divulgado durante a cimeira de Davos, só 9% dos materiais utilizados para responder às necessidades do mercado mundial são reciclados, percentagem que terá de aumentar drasticamente para evitar alterações climáticas devastadoras. Anualmente, são usadas 92,8 mil milhões de toneladas de minerais, combustíveis fósseis, metais e biomassa para a extração, processamento e fabrico de bens para atender às necessidades de consumo. Ou seja, três vezes mais do que em 1970. E, por mais avassaladores que sejam estes números, o relatório refere que deverão duplicar até 2050.

Artigo publicado na edição nº1976 de 15 de fevereiro, do Jornal Económico

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