Num tempo em que o capital humano é visto (e bem) como o ativo mais valioso das organizações (e das nações), as dimensões geográficas e políticas adquirem hoje uma importância inaudita. Efetivamente, países, regiões e cidades competem para atrair profissionais qualificados, alavancando vantagens competitivas e “incentivos” para atrair os mais talentosos. A mobilidade do talento está, sem dúvida, interligada ao contexto político mais amplo, moldando os padrões de migração e determinando os “vencedores” e os “vencidos” nesta competição global.
A atratividade no mercado de talento é impulsionada por uma combinação de dinamismo económico-empresarial, fatores de qualidade e estilo de vida e estabilidade política/institucional. Países com economias fortes, indústrias orientadas para a inovação e ecossistemas de investigação bem financiados tendem a atrair profissionais de primeira linha.
Os exemplos clássicos são mais do que (re)conhecidos. Os Estados Unidos há muito que beneficiam das suas universidades de classe mundial, da cultura de startup e do ecossistema financeiro em que existe capital para investir e dar escala a projetos embrionários e inovadores. Da mesma forma, o Canadá, a Austrália e a Alemanha posicionaram-se como pólos de talento qualificado através de sistemas de educação estruturada, políticas de imigração favoráveis e de estruturas sociais inclusivas.
Também Singapura é, por excelência, há várias décadas, um hub de talento no sudeste asiático. O estilo de vida e o contexto sociocultural desempenham um papel crucial na atração de talento. As cidades que oferecem elevados padrões de vida, segurança e acesso a oferta cultural – como Londres, Berlim ou Dubai – tornam-se, geralmente, “ímanes” para profissionais globais. Além disso, as políticas que apoiam o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, como acordos de trabalho flexíveis e cuidados de saúde abrangentes, aumentam ainda mais o apelo do talento de uma região ou nação.
Dito isto, a mobilidade global de talento aumentou significativamente devido aos avanços na tecnologia, à educação internacional e ao aumento do trabalho remoto pós-pandemia. Os profissionais têm hoje mais opções do que nunca, com muitos a procurarem ativamente oportunidades em países que estejam alinhados com os seus objetivos de carreira e valores pessoais. Nómadas digitais, e mesmo empregados do tradicional mundo corporate, podem viver num país enquanto trabalham para um empregador noutro.
Hoje, a reputação de uma dada geografia, as políticas de imigração, as regulamentações de vistos e as relações internacionais afetam o fluxo de talentos. Países que adotam políticas de imigração abertas e inclusivas tendem a beneficiar de um brain gain, enquanto aqueles com políticas restritivas ou imprevisíveis correm o risco do muito falado brain drain. Por exemplo, o Brexit levou a um declínio na migração qualificada para o Reino Unido, uma vez que a incerteza sobre os direitos de trabalho tornou-o menos atrativo para os profissionais da União Europeia. No momento em que escrevo, a instabilidade nas políticas de imigração e guerras tarifárias da administração Trump e os custos reputacionais na marca “USA” gerados nos últimos meses, levam muito talento da área da tecnologia (mas não só) a considerar destinos alternativos.
Olhando para o futuro próximo, neste mundo volátil, cada vez mais multipolar, o talento procurará ambientes mais seguros e previsíveis – que sejam simultaneamente inovadores e competitivos. A Europa (e Portugal, em particular), pode afirmar-se aqui como um polo de atração de talento. Com a sua tradição de abertura, tolerância e investimento na educação – e proporcionando estabilidade política e segurança jurídica, nós, europeus, podemos afirmar-nos como líderes na economia global do talento.
Assim tenhamos vontade e façamos algum “trabalho de casa”: eliminemos o excesso de regulação/burocracia, adotemos legislações laborais mais flexíveis e escalemos os investimentos em investigação e inovação. Nesta guerra invisível, a geopolítica do talento é determinante e convém não ficarmos estagnados neste tempo de aceleração da história.



