A maré está a mudar em relação à causa palestiniana. Durante décadas, o silêncio face às injustiças contra o povo palestiniano era ultrajante e poucos se atreviam a criticar o governo de Israel, muitos por temerem acusações de antissemitismo.
Ainda reina imensa indiferença, mas França e outros estados europeus estão prontos para reconhecer a Palestina como estado soberano, e até Portugal sente a pressão internacional para não ficar para trás.
O reconhecimento por parte da França é particularmente relevante por fazer parte do G7 e ser o primeiro membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas a dar esse importante passo. Vai permitir o início de relações diplomáticas entre a França e a Palestina, reconhecendo a sua soberania de acordo com as fronteiras anteriores a 1967.
Mas este anúncio é feito pelos piores motivos. É uma forma de aumentar a pressão sobre o Estado de Israel que continua, de forma impune e deliberada, a assassinar toda uma população, seja usando a fome como arma de guerra, seja por outros atos de guerra que têm sido amplamente testemunhados por organizações humanitárias.
Com manifestações por todo o mundo e boicotes generalizados, o que está a acontecer em Gaza começa a ser denunciado até por pessoas improváveis, como Marjorie Taylor Greene, uma republicana MAGA que criticou publicamente a catástrofe humanitária em Gaza.
Israel está numa posição cada vez mais isolada e indefensável, a acusar o mundo de propaganda islâmica terrorista. Nada, porém, justifica o sofrimento a que sujeita a Faixa de Gaza. A desumanização dos israelitas que apoiam Netanyahu chegou a um ponto extremo intolerável e que já não permite o nosso silêncio. Por isso, as denúncias não podem abrandar, sob pena de abandonarmos os palestinianos à sua sorte.
Não podemos cair no erro de julgar que os nossos protestos veementes não surtem efeito, porque isso está longe de ser verdade. A enorme pressão popular altera o curso das decisões políticas, como se vê pela decisão da França, e até Paulo Rangel já está a ser confrontado com a realidade.
A desgraça do genocídio e a nossa impotência perante a violação de direitos humanos vai assombrar-nos durante décadas. Como poderemos enfrentar o futuro sabendo que deixámos isto acontecer? De certa forma, somos também responsáveis pelos crimes do governo de Israel. E, por isso, importa agora, mais do que nunca, reforçar a solidariedade internacional contra a barbárie.