Tarantini: “O fim da carreira no futebol pode deixar marcas negativas e traumáticas”

O Jornal Económico entrevistou o capitão do Rio Ave, que está a desenvolver desde 2016 “a minha causa”, um projeto que pretende sensibilizar os jogadores de futebol para a necessidade de antecipar e prevenir o fim da carreira dentro das quatro linhas.

Foto cedida

Nasceu Ricardo Monteiro, mas o mundo, principalmente o do futebol, conhece-o pelo nome de Tarantini. O jogador e capitão de equipa do Rio Ave FC divide, atualmente, a sua vida profissional entre os relvados e os auditórios de escolas e universidades, para a espalhar a mensagem de “a minha causa”.

Aos 34 anos, o atleta que também é um académico, tendo iniciado em 2017 o doutoramento focado nas transições de carreira no futebol, tem em mãos uma ideia, que desenvolve desde 2016, para alertar os futebolistas, principalmente os mais novos, para a necessidade de investir na formação académica e em projetos parelos à alta competição. O objetivo: prevenir eventuais problemas com o “pendurar das chuteiras”.

Com uma carreira de quase duas décadas, Tarantini já lançou um livro sobre a sua causa, apresenta atualmente as suas ideias em palestras e divulga os testemunhos de antigos futebolistas sobre eventuais problemas que o fim da carreira suscita. Pelo caminho há espaço para recolher alguns dados estatísticos.

Após a publicação dos artigos que revelam “a minha causa”, testemunhos de ex-atletas e a posição do Sindicato dos Jogadores, o Jornal Económico entrevistou o jogador-estudante, como apelidou-o o professor catedrático Manuel Sérgio.  A pensar nas questões que envolvem o presente e o futuro do jogador de futebol, Tarantini quer despertar mentalidades: “Se não se conseguir antecipar e prevenir, vamos andar sempre em cima das consequências”.

Em 2016 lançou “a minha causa”, um projeto que alerta os jogadores para que se preparem para uma vida depois do futebol. Como e quando surgiu a ideia para esse projeto?
Efetivamente a ideia acumulou-se na minha vida enquanto jogador. Avançar com a ideia surge no momento em que estava a ler o livro Faz Acontecer do meu amigo André Leonardo, na parte que retrata a história de Bel Pesce, uma empreendedora brasileira que estudou no MIT. Apesar das diferenças óbvias a história dela inspirou-me para acreditar que poderia tocar vidas com a minha história. No fundo esta ideia é resultado dos meus 16 anos de futebolista profissional em que vejo balneários pouco interessados na vida pós-futebol. Vejo colegas meus viverem num mundo que não é real. 

O Tarantini já conta com uma carreira desportiva de duas décadas. Houve algum caso que o tivesse motivado a criar este projecto?
O caso do Fábio Faria serviu para mostrar que afinal o fim de carreira não acontece só depois dos 30. Há imprevistos na vida que podem acontecer a qualquer momento.

Como desenvolve a iniciativa e quais são os objectivos?
Como haveria de chegar uma mensagem a todos aqueles que são, que querem ser jogadores de futebol e a todos os que os rodeiam e influenciam? Esta era a questão que me colocava quando iniciei o projeto. A minha causa funciona comunicando com as pessoas, inicialmente pensei em três formas, palestras, investigação e documentários. Desde Setembro de 2016, fiz 32 palestras, impactando mais de 6000 pessoas, em universidades, associações, clubes, escolas, empresas. Em Janeiro deste ano, com o apoio da plataforma digital zerozero, lancei os primeiros dados acerca das carreiras dos jogadores de futebol em Portugal. Em Março, com o apoio da BranditNext lancei o documentário que serviria como projeto-piloto de outros já pensados. Recentemente outro pilar de comunicação foi lançado, a minha causa em livro. Estes 4 eixos, são as formas que atualmente tenho para chegar às pessoas, com o objetivo de as alertar e sensibilizar para os desafios de uma carreira desportiva.

Este projeto pode ir além do jogador de futebol, sendo um alerta para todos os atletas de alta competição?
Mais do que isso, acredito que neste projeto há mensagens transversais a toda a sociedade. Naturalmente que este projeto adequa-se a todos os desportistas, mas não podemos esquecer que há um fator que separa as restantes modalidades do futebol, o dinheiro que gera. A ilusão que todos vão ganhar rios de dinheiro no futebol gera comportamentos completamente diferentes daqueles que sabem que podem ser desportistas de alta competição mas que não vão ver o dinheiro como um recurso vitalício. E mesmo para aqueles que conseguem, ganhar rios de dinheiro, os dados das grandes competições internacionais são chocantes quanto ao resultados financeiros na vida pós-desporto. Portanto o problema pode não ser apenas ter dinheiro, é muito mais do que isso. É por isso que eu acredito que construir uma vida faz parte do sonho.

Consegue identificar quais os principais problemas que um atleta enfrenta, e o que daí pode resultar, no final de uma carreira desportiva?
A maior parte dos desportistas salienta o vazio que fica quando deixam a competição, isto associado a uma transição que não é voluntária, o fim de carreira pode deixar marcas negativas e traumáticas. As dificuldades na integração no mercado de trabalho, a falta de carreira ocupacional, escolha de carreira profissional menos adequadas, a falta de qualificação profissional, a diminuição da receita financeira são problemas que os desportistas enfrentam. Apesar de pertencermos ao top 5 dos mais bem pagos em Portugal, os recursos financeiros gerados, são concentrados num curto espaço de tempo. Isto pode ser visto como uma oportunidade mas também como uma ameaça. Acredito que mais de 90% dos futebolistas que fazem carreira em Portugal não garantem um pé de meia vitalício, dai a dificuldade em manter os mesmo padrões de vida. A vida enquanto profissionais de elite promove escolhas extremamente difíceis. É a consequência dessas que dita os desportistas terem maior ou menor qualidade na transição para fim de carreira. 

O Tarantini diz no seu livro [publicado em outubro de 2017] que é possível investir numa carreira de futebolista sem abdicar dos estudos como “factor de sustentabilidade de futuro”. Como se compreende que a maioria dos atletas larguem os estudos assim que se tornam profissionais
Imagine-se a jogar futebol em estádios cheios, sempre rodeados de mulheres, carros topo de gama, milhares de seguidores nas redes sociais, ordenado ao nível de gestores de grandes empresas. Agora pergunto, para que é que eu preciso de estudar? Ou então, imagine-se pai de um filho com 17 anos e que chega um empresário e diz ‘tome lá este carro, esta casa ou este dinheiro’ para assinar por mim ou um clube qualquer. E tente colocar na cabeça do seu filho (ou na dos próprios pais) que precisa de estudar.

Recorrendo ao seu livro, faço a pergunta que o Tarantini se propõe a responder: Estarão os desportistas verdadeiramente preparados para terminar uma carreira?
Na realidade que vivo diariamente, os jogadores de futebol não estão preparados para terminar uma carreira.

Pela sua experiência, o que leva os jogadores de futebol a não estarem preparados para o fim da carreira?
De um modo normal, os jogadores nunca estarão preparados para terminar uma carreira porque temos a melhor profissão do mundo. Porém, existem factores aceites na comunidade científica que traduzem qualidade na transição para fim de carreira. A inexistência desses nos meus balneários faz-me responder que não. Estes factores não podem ser generalizados a todos os contextos sociais, mas existem alguns que são transversais nas investigações.

Um deles é a voluntariedade na decisão para terminar a carreira. É importante que seja o próprio jogador a ter esse poder. Esta questão é quase sempre desvalorizada e até mesmo incomoda para a maioria dos desportistas que está a terminar.

A vida pós-futebol requer uma adaptação sob um grande vazio instalado. Por vezes esta transição pode ser mais difícil e até traumática caso o desportista não consiga desligar-se de uma forte identidade atlética (e o que isso influencia a todos os níveis na vida do desportista) criada ao longo da sua carreira. Impreparação para ter outro tipo de rotinas do dia a dia, comparativamente normais a qualquer pessoa.

Outro fator prende-se com os objetivos alcançados na carreira, ou seja, se aquilo que os desportistas projetaram foi o que realmente aconteceu. Difícil medir isso, mas a um nível como o meu (intermédio) há intenções que ficam pelo caminho, e estar tão perto delas pode provocar frustração.

Por último aquela que é transversal a todo o tipo de desportistas, tenha amealhado muito ou pouco, que é a falta de preparação para uma segunda carreira. Quando transitamos para o fim de carreira desportiva ainda somos uns jovens e teremos de fazer qualquer coisa, mesmo que seja para ocupar o tempo. Não vejo grande preocupação dos meus colegas sobre essa questão – têm uma vida exclusivamente orientada para a profissão.

Há uma ilusão muito grande que as oportunidades, seja qual for o nível competitivo, serão e chegarão para todos. E mesmo que cheguem acreditam que ter dinheiro irá resolver todos os problemas da sua vida.

Conhecedor da realidade do futebol português, não fica mal-impressionado com os valores astronómicos de alguns salários e de transferências como a de Neymar?
Não fico mal-impressionado e até acho bem. Se esses valores são praticados é porque são gerados, e, se assim é, os jogadores como são os artistas em campo deverão ser os mais bem pagos.

Comparativamente às grandes ligas europeias a distribuição do dinheiro pelos clubes em Portugal é que está mal feita, daí a diferença significativa entre os rendimentos dos jogadores das equipas ditas grandes e as restantes do nosso campeonato. Não é de admirar que os melhores jogadores em Portugal queiram ir para o estrangeiro. E mesmo fazendo grandes negócios, os clubes em Portugal/entidades responsáveis – ou o que seja – ainda não descobriram que não sabem vender o produto futebol.

No caso dos jovens atletas, nem todos serão um Cristiano Ronaldo nem terão salários semelhantes. Será que os valores exorbitantes das transferências e a publicidade ao estilo de vida de um Neymar, Messi ou Ronaldo, não influenciará de forma negativa jovens jogadores, principalmente em Portugal, a tomar decisões importantes nas suas carreiras de futebolistas?
Claro que sim. Enquanto role models os jogadores são os principais influenciadores dos mais novos. O que eles mostram das suas vidas, por exemplo nas redes sociais, é um rastilho para algo a atingir. As motivações já não é só ser jogador de futebol, há muito mais do ter do que do ser.

Quão importante é mostrar aos jovens que iniciam agora uma carreira no futebol, que nem todos vão alcançar o estrelato? Deve haver a preocupação de mostrar que a vida continua depois do futebol terminar?
Esse é o grande propósito. Fazer de tudo para conseguir lá chegar mas construir uma vida conjuntamente que os ajude depois do futebol terminar. Eu acredito que essa construção possa ajudar a chegar ao estrelato, até porque o futebol moderno é cada vez mais pensado. Não existe espaço apenas para os talentosos – longe disso.

E há também o caso dos agentes de futebol que podem influenciar grandemente a carreira de um jogador. O Tarantini tem agente?
Já tive. No meu caso foi importante, mas apenas no inicio da minha carreira. A um certo nível decidi deixar de ter porque não encontrei nenhum que acreditasse tanto ou mais do que eu que pudesse jogar a outro nível, e quando assim é estávamos a enganar um ao outro.

Quando falamos de insucesso no futebol, muitas vezes os empresários/agentes, que representam os jogadores, fazem parte do problema. Será que os jogadores de futebol acreditam demasiado nos seus empresários?
Não tenho a menor dúvida que sim. Hoje os empresários têm uma influência muito grande em todas as decisões da vida do jogador. Acredito que não deveria ser assim.

Dados recolhidos por si demonstram que, em Portugal, apenas 4% dos jogadores de futebol chegam aos três grandes e que a percentagem dos atletas com salários elevados é ainda mais reduzida. Que conclusões retira o Tarantini desse retrato do futebol português?
Mostra as dificuldades que o jogador tem para chegar ao patamar máximo do futebol português e levanta a questão: será valerá a pena apostar exclusivamente a nossa vida sobre uma percentagem tão pequena?

 O Tarantini é embaixador UAARE (Unidades de Apoio ao Alto Rendimento na Escola) – um projeto que coloca escolas, pais, clubes, entre outros, a trabalhar para orientação de jovens atletas. No que respeita ao futebol, não deveriam todos os clubes profissionais ter a preocupação de garantir que os seus jovens atletas não fiquem desamparados caso não consigam fazer uma transição entre os escalões de formação e os plantéis seniores?
Não diria apenas profissionais, mas todos. O problema é que hoje ainda se fala em abandono escolar, num Portugal em que a escolaridade mínima obrigatória é o 12º ano há uns longos tempos para cá. Pode-se dizer que desde cedo os jovens conciliam carreiras, daí que não deveria haver predominâncias, mas sim complementaridade de esforços para atingir o sucesso nas duas vertentes. Portanto se não se conseguir antecipar, prevenir, vamos andar sempre em cima das consequências.

Diz no seu livro que está preparado para terminar a sua carreira em campo e fazer uma “transição tranquila”. Como se faz, ou como é que um atleta pode conseguir uma transição tranquila depois de carreira na no desporto de alta competição?
Essencialmente porque acredito que posso fazer uma transição com alguma qualidade, já que procurei ter algumas ferramentas que me ajudem a transitar para outra carreira. Existem outros fatores para assegurar essa qualidade, como por exemplo os objetivos alcançados na carreira. Apesar de hoje querer mais sei que aquilo que sonhava em menino alcancei. Talvez o mais de hoje tenha que ser realizado de outra forma.

O Tarantini tem 34 anos, provavelmente está a entrar na reta final da sua carreira. Já sabe o que vai fazer depois de pendurar as chuteiras?
Não tenho certezas. Sei que tudo o que tenho feito é a pensar nesse dia e que me possibilite poder fazer escolhas, não estar dependente de nada, nem de ninguém. 

Este foi o último artigo publicado, de uma série de quatro, sobre o fim da carreira do jogador de futebol, tendo por base o projeto “a minha causa”. Relei-a os três primeiros:

E depois do adeus? Tarantini quer mudar mentalidades

Hugo Leal: “Deixar o futebol não é uma iniciativa do jogador”

Joaquim Evangelista: “Futebolistas não estão conscientes das dificuldades após o fim da carreira”

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