A Mercedes vai avaliar a produção de mais um modelo nos EUA para contornar os 25% de tarifas impostas por Trump. É a reação economicamente mais adequada face ao risco que a empresa alemã enfrenta e é também o caminho politicamente mais inteligente – não deixa o terreno à disposição do adversário, vai a jogo, não limita a reação à via confrontacional.
Ora bem, a pergunta impõe-se: se a tarifas podem trazer recessão a vários países, será que se justificam do ponto de vista americano? Havia um desequilíbrio assim tão grande nas pautas aduaneiras? A resposta é que europeus e asiáticos têm realmente tirado partido de algum desnível tarifário, embora a anos-luz das teorias conspirativas de Trump. Esta ligeira desvantagem, que encontra no dólar-universal e no secular imperialismo americano parte da sua razão de ser, não fez das empresas da UE entidades mais competitivas; pelo contrário, ficaram mais complacentes.
Para os EUA, o preço a pagar foi outro e calculado: o que ganharam em competitividade, canalizando o investimento para a economia digital de alto valor acrescentado, perderam naquilo que podemos designar de indústria clássica, a que implica fábricas e milhares de operários, como acontecia em Detroit, a antiga capital dos motores. Há, portanto, muito de simbólico em jogo. Trump quer compensar – ou parecer que está a compensar – os deserdados da globalização, os imprestáveis, como lhes chamou Hillary Clinton, os descamisados que não encontram espaço nem rede social na maior economia do mundo.
O que vimos na quarta-feira, quando o presidente norte-americano chamou ao palco o operário Brian Pannebecker, procura simbolizar aquilo que a política perdeu nas últimas décadas – a ligação às pessoas comuns. Acontece que os Brian Pannebecker ressurgiram na Casa Branca como vencedores do dia, embora, a prazo, as contas talvez lhes sejam desfavoráveis: a reindustrialização americana levará anos, trará com ela estagflação e desemprego, será parcial e enfrentará a queda dos mercados e do dólar.
Na verdade, durante décadas os EUA colocaram no altar a superioridade do capital em prejuízo da coesão social, mas agora parecem apontar em sentido inverso. É evidente que se trata de uma ilusão de ótica que serve apenas para dar início à construção de uma nova ordem global, em que abertura e a democracia cedem o lugar ao fechamento, à hostilidade comercial, cultural, sexual e humanitária. O terrível “orgulhosamente sós” salazarista assenta como uma luva ao trumpismo.
Mas o que está mesmo a acontecer ao mundo? A pior hipótese remete-nos para a manipulação dos operários americanos, convertidos em alavanca útil para destruir os alicerces económicos da mais pujante democracia liberal. A classe média fica encurralada entre os ultra-ricos, parceiros silenciosos de Trump, e os eternos pobres, parceiros vocais e acidentais do inquilino da Casa Branca. Como a exportação de ideias sempre foi a maior força dos EUA, elas farão caminho até chegar à UE. A expressão pode até soar a patriótica, mas é tão-só nacionalista: se a UE retaliar sem abrir pontes, o vírus do isolamento vai instalar-se passo a passo. Giorgia Meloni e Viktor Órban cá estarão para espalhar a mensagem e ganhar adeptos. A Europa está em perigo.