Teletrabalho e benefícios não financeiros vão acelerar a médio prazo

Crise do coronavírus impôs disrupção nos benefícios extrassalariais este ano. Mas o futuro passa por aí, nomeadamente por um aumento da flexibilidade nas formas de trabalhar e nas compensações.

A componente não financeira do salário, usada por muitas empresas para captar e reter talento, deixa de ser uma prioridade num presente suspenso pela crise provocada pela pandemia do novo coronavírus. Falar hoje em benefícios para os colaboradores pode parecer um tema distante. As preocupações das empresas portuguesas na generalidade dos setores de atividade, à semelhança do que se passa em muitos países, estão centradas na manutenção dos empregos e no pagamento dos salários. Porém, o mundo não para. Assim, e numa perspetiva de médio prazo, a tendência de crescimento que se tem vindo a acentuar nos últimos anos no país, deverá manter-se. Ou até acelerar, em consequência da crise da Covid-19.

O futuro passa por aí, nomeadamente por um aumento da flexibilidade na forma de trabalhar e nas compensações. “Esta crise vai fazer acelerar o teletrabalho e os benefícios não financeiros que, no futuro, se tornarão cada vez mais relevantes”, afirma Carlos Sezões, partner da empresa especializada em executive search Stanton Chase Portugal, ao Jornal Económico.

A análise de Paulo Fradinho, partner e Country Business Leader da Mercer Marsh Benefits, segue a mesma linha. Ao Jornal Económico, este especialista em benefits aponta o lado positivo da crise: “A Covid-19 vai deixar marcas e acreditamos que, numa perspetiva positiva, vai aproximar mais as empresas das pessoas e os benefícios extrassalariais vão ter um papel determinante” nessa relação.

Tudo começou na crise de 2010
O salário é a retribuição financeira do trabalho, os benefícios extrassalariais são a vertente não financeira, mas que, em alguns casos, têm uma retribuição financeira. Um seguro de saúde ou a atribuição para uso de uma viatura com o respetivo combustível são dois exemplos. Em ambos os casos trata-se de um valor significativo que acresce à remuneração mensal. A lista de benefícios oferecidos pelas empresas em Portugal inclui também complementos de subsídio de doença, planos médicos, planos de pensões e dias de férias, entre outros.

Relativamente tímidos até 2010, os benefícios extrassalariais emergem com a crise económico-financeira que assolou o país até 2014, continuando a crescer até agora. No início tinham uma grande importância na negociação de uma proposta de emprego, mas à medida que o mercado ficou cada vez mais carente de profissionais qualificados, tornaram-se fundamentais para atrair e reter talento nas empresas. Como recentemente lembrava Carlos Maia, diretor regional da Hays Portugal, ao Jornal Económico, “tornaram-se, além de uma mais-valia, uma enorme necessidade para a retenção e atração de talento”.

Uma semana antes do início da crise Covid-19, o especialista da Hays Portugal salientava o crescimento dos benefícios extrassalariais em Portugal e no mundo como a grande tendência do futuro. Neste âmbito, destacava a flexibilidade de horário, que começa a existir, e a possibilidade de trabalhar em regime de “home office”, tal como de todos os benefícios relacionados com a possibilidade de o trabalhador adaptar q.b. a agenda de trabalho à vida pessoal, sempre que a atividade o permita. “Cada vez mais os candidatos a um emprego valorizam a possibilidade dada pela empresa de trabalhar a partir de casa”, sublinhava, acrescentando que o setor das tecnologias de informação é onde essa tendência mais se faz sentir.

Em síntese, e ainda segundo Maia, “o salário continua a ser o aspeto central, mas estes benefícios paralelos têm vindo a ter um acréscimo importante quer do lado dos candidatos, quer do lado das empresas, que os disponibilizam cada vez mais”.

Mudança de paradigma
A crise da Covid-19 apanha o mercado de trabalho numa mudança de paradigma profunda, em resultado da introdução massiva da tecnologia nas atividades económicas e da necessidade de especialização profissional do capital humano para operar numa economia baseada no conhecimento. “Os modelos organizacionais que estavam em mudança, vão sofrer uma aceleração rapidíssima na sua transformação. ‘Flexibilidade’ vai tornar-se uma das palavras de ordem”, considera Carlos Sezões, adiantando que a tendência é no sentido de “cada vez mais as empresas darem aos colaboradores a possibilidade de trabalharem “anytime, anywhere”.

António Nunes, CEO & founder do grupo Nucase, considera, por seu turno, que as empresas vão ter de se reinventar seja qual for o setor de atividade – primário, industrial, comercial ou prestação de serviços. Num contexto em que as novas tecnologias, a robotização e a inteligência artificial permitem simplificar e automatizar processos, o “teletrabalho terá uma primordial importância”. Na leitura do gestor, todas estas alterações, que, em parte, já estão a ser utilizadas, “vão ter uma evolução muito mais rápida e sustentável nos próximos tempos, no que diz respeito à definição de novos quadros salariais e extrassalariais mais flexíveis e mais ajustados a uma nova realidade”.

Trabalho remoto, trabalho a tempo parcial e todo o tipo de soluções flexíveis e autónomas, assentes na conectividade constante e no contacto permanente das equipas é o cenário do futuro. E as pessoas? “As pessoas vão querer empresas que lhes deem um conjunto de benefícios flexíveis complementares nas áreas da saúde, da educação, de tudo o que se relaciona com o ‘work-life balance’ e flexibilidade no trabalho. É para aí que caminhamos, e a crise provocada pela Covid-19 só virá acelerar esta tendência”, conclui Carlos Sezões.

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