“Temos um terço da vida depois da reforma e isso não foi preparado”

A demografia tornou diferente o equilíbrio entre as gerações que contribuem e as que beneficiam, afirma Maria João Valente Rosa, demógrafa e professora universitária na Nova de Lisboa.

O modelo que servia a demografia no passado está desajustado para o que teremos no futuro, e terão de ser mexidos os três pontos da equação que são as contribuições, as pensões e a idade com que a pessoa passa a contribuir. O tema do momento a nível económico e social é o terço da vida após a reforma e que não foi preparado. A professora Maria Valente Rosa tem-se debruçado sobre o efeito da demografia nos comportamentos e o impacto na economia.

Diz que com apenas o aumento da idade da reforma via fator de sustentabilidade “não se vai ao cerne do problema”. Acrescenta que tudo “está mais pesado, quer para quem contribui, quer para quem recebe, estamos a usar paliativos, pensando nós que no futuro e de uma forma miraculosa, tudo passará a ser diferente”.

A docente sublinha que “o envelhecimento está cá e está para ficar e o número de pessoas idosas por pessoas ativas inverteu-se”. Acrescenta que salvar o Estado Social não passa por manter o que herdámos do passado, mas passa por fazer adaptações aos novos tempos e aos novos desafios. “Há uma mudança de princípios e é isso que deveríamos estar a discutir, estamos a meter pensos sobre o assunto e não a ir à razão da ferida”.

O problema não está no envelhecimento, mas na incapacidade de nos adaptarmos a um novo figurino. “As mudanças têm de ser feitas no ponto de vista público e no individual”. Acrescenta que o envelhecimento vai mexer com tudo e com todos, com as famílias, as organizações, os poderes públicos e as comunidades”, explica.

Idosos nos 75 anos
“Apercebemo-nos que os idosos do futuro, que estão na categoria dos 75 anos, serão os que estarão próximos da reforma. Esta está a aumentar com o fator de sustentabilidade, e hoje está nos 66 anos e cinco meses, mas estranhamente e segundo dados da Pordata, a idade dos novos aposentados da Segurança Social situou-se nos 63,8 anos”, refere.

“Isto significa que as pessoas têm, um bónus de vida grande, apesar da idade estatutária estar a aumentar, as pessoas estão a sair do mercado antes do tempo. Isto tem de alguma forma a ver com o facto de olharmos para as pessoas mais velhas como pessoas menos capazes”, acrescenta.

A questão que se coloca hoje é perceber se a reforma “faz bem à saúde, se as pessoas ambicionam mesmo a reforma mas apenas se querem libertar-se do que estavam a fazer. A população está a envelhecer e as pessoas mais velhas são dispensadas com base em ideias falsas, nomeadamente a necessidade de empregos para os jovens. Existe um desperdício enorme de capital humano”.

Acrescenta que “o modelo arquitetado em que temos uma fase da vida em que fazemos formação, depois trabalhamos e nada mais, e depois no final da vida temos descanso, é algo que é contranatura. Precisamos de formação ao longo da vida, precisamos de trabalhar porque fazemos parte de uma sociedade e não precisamos de trabalhar tão intensamente, precisamos de descansar”.

Idade não é atributo de valor
“As pessoas aos 60 anos acordam para uma realidade em que não tiveram tempo para se preparar para ela, e aos 40 anos as pessoas vão a meio da vida”, diz a demógrafa. E a pergunta que deve ser feita “é o que esperar fazer nos próximos 40 anos, tal como se pergunta às crianças sobre o que querem fazer quando forem grandes”.

Acrescenta a professora universitária que “em Portugal se olha muito para o valor das pessoas em função da idade das pessoas, quando a idade não é atributo de valor de alguém”.

E sobre o futuro? No futuro “teremos pessoas que sabem que vão viver mais tempo, depois de os atuais mais velhos terem sido apanhados de surpresa”. São pessoas que não estavam a contar com este bónus, e são pessoas mais qualificadas que os seus pais e do que os seus avós, mais próximas das tecnologias e contam com uma descendência mais reduzida que no passado. Sabem ainda que provavelmente vão conviver com múltiplas doenças, mas não irão morrer por causa de uma infeção e, logo, os cuidados de saúde têm de ser centrados nas pessoas e não na doença.

Maria Valente Rosa acrescenta que isto não significa que o envelhecer seja uma doença, mas um terço da população irá ter um cancro ao longo da vida e quando olhamos para as sociedades envelhecidas concluímos que não são sociedades doentes. “O envelhecimento tem a ver com o desenvolvimento. E o principal problema das sociedades modernas não é o futuro, é o passado. Frisa que “queremos uma sociedade completamente diferente do passado, mas esta está muito tecnológica, e continuamos a perpetuar os modelos iniciais como se tivessem congelado. Não é por uma questão de equilíbrio financeiro, mas porque a sociedade atual não tem nada a ver com a anterior”.

Conclui ainda que para além da discussão de políticas públicas, há que discutir o que podemos nós fazer perante as novas situações.

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