‘To exit or not to exit’

Na UE, os referendos realizam-se sempre em duas voltas, pelo menos. Mas só conta o resultado da segunda, ou seja, aquele que reflete o que pensa o Diretório.

É enternecedor assistir ao desvelo com que federalistas portugueses de todos os matizes acompanham as peripécias do Brexit. Com que soluços de alma assistem ao desenrolar do peripatético drama da Grã-Bretanha na esperança da sua inversão. Consta que fazem figas e que, invocando os “pais fundadores”, dão as mãos convocando todas as forças federais para inspirar e abrir as cabeças duras dos bretões, saxões, normandos e outros que tais para a repetição do referendo…

Invocam em sua ajuda a “falsidade” do primeiro referendo, em que os pobres ingleses foram vítimas da ignóbil manipulação dos hackers de Putin. Mergulham apaixonados nas sondagens que agora dizem, sim, eu quero, eu amo aqueles continentais, aquela UE, os vinhos franceses, as cervejas alemãs, as “terras de Espanha, areias de Portugal”…

Não invocam a regra comunitária da repetição obrigatória de referendos (ainda não inscrita nos Tratados), porque não fica bem invocar tal coisa na democrática UE. O que diz a regra? Que na UE os referendos sempre se realizam em duas voltas (pelo menos): a primeira para que o povo exprima o que pensa e a segunda para que o povo exprima o que pensa o Directório. Mas só conta o resultado da segunda volta!

E eis senão quando, uma nova luz brilhou nos céus da “pérfida Albion”: Corbyn! Quem diria que o sapo trabalhista, que tinha desaparecido há muito das folhas dos jornais (excepto quando perguntou a May pelas provas no caso do espião russo, excepto quando se disse solidário com os palestinos, excepto quando é para o cobrir de cobras e lagartos…) haveria de luzir (não estrela cadente mas estrela luzente) a pedir um novo referendo.

As voltas que o mundo dá… desde Galileu. E como é grande a vontade de recuperar esses ingleses atacados pelo nevoeiro novichok dos russos e fazê-los regressar ao seio bem-aventurado da UE! Vale tudo, até títulos e fotografias de meia página (de Corbyn, naturalmente) na primeira página para insinuar exactamente o contrário do que diz a notícia na página 20. É o roteiro do Brexit no Público entre segunda-feira, 24SET18, e domingo, 30SET18.

Repare-se no título: “Reino Unido – Jeremy Corbyn aceita segundo referendo ao ‘Brexit’, mas prefere eleições já”. Na página 20 cita o jornalista palavras de Corbyn: “Vou aderir à decisão que sair do Congresso. Mas não estou a pedir um segundo referendo. Espero que cheguemos à conclusão de que a melhor forma de resolver isto é com eleições”. Depois refere que Len McCluskey, líder do Unite, um dos principais sindicatos do país, e um dos principais aliados de Corbyn, disse à BBC que apoia um referendo, desde que este não seja sobre a permanência ou não na UE, mas sobre o acordo: “Não deveria ser: ‘Queremos voltar para a União Europeia?’ As pessoas já decidiram sobre isso.” Alguém julga que diz a cara com a careta?

Sendo que na quinta-feira, 27SET, o mesmo jornalista (embora de forma rebuscada) confirma que “na terça-feira, os membros do Partido Trabalhista aprovaram de forma “avassaladora” uma moção que admite a realização de um segundo referendo sobre o Brexit, mas ao acordo final que May alcançar (ou à saída sem acordo)”. Isto é, não se trata de um segundo referendo para decidir novamente da saída ou não do Reino Unido e logo, uma possível reversão do primeiro referendo, mas apenas sobre a forma de que se revestirá a saída! O pano cai com o peso de tanto referendo…

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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