Todos por todos: a educação só pode ser assim

Durante a pandemia, um quarto dos alunos portugueses não tinha acesso a um computador quando as escolas fecharam. A educação, em si, não muda o mundo, mas é a ferramenta mais eficaz para o fazer.

Em 2003, aquando do lançamento de uma organização sem fins lucrativos cujo objetivo passava por dotar professores e alunos de material escolar, Nelson Mandela proferiu uma das suas mais famosas frases, que perdura na minha cabeça até hoje: “A educação é a arma mais poderosa que podes utilizar para mudar o mundo”. E, por isso, não só pode como deve ser uma responsabilidade de todos. A maior garantia de que estamos no caminho certo, acrescento eu.

Não é por acaso que a educação de qualidade, nomeadamente, assegurar, até 2030, “a igualdade de acesso para todos os homens e mulheres à educação técnica, profissional e superior de qualidade, a preços acessíveis, incluindo à universidade”, é um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável definido pelas Nações Unidas.

Vejamos: o que é que contribuiu para o desenvolvimento do pensamento crítico e para a formação de pessoas informadas, capazes de separar o trigo do joio, social ou politicamente falando? O que nos faz saber quais são efetivamente os nossos deveres e os nossos direitos enquanto pessoas? Por outro lado, o que nos faz crescer desenvolvendo a empatia? O que nos faz respeitar os outros? O que nos faz evoluir enquanto sociedade, privilegiando a liberdade e a igualdade, promovendo a cooperação e a solidariedade, e garantido a dignidade humana? A resposta é só uma: educação.

Segundo os dados mais recentes, menos de 20% da população residente em Portugal tem nível de escolaridade mais elevado. Em 2018, Portugal era o quatro país da OCDE com níveis de escolaridade mais baixos entre os jovens adultos e, este ano, a pandemia evidenciou a falta de recursos de alguns alunos – um quarto dos estudantes portugueses não tinha acesso a um computador quando o vírus obrigou as escolas a fecharem e o modelo de ensino a transitar das salas de aula para os ecrãs. Contudo, neste quadro complexo, também há sinais positivos: os manuais escolares gratuitos para todos os alunos do ensino público e o mínimo histórico que o abandono escolar atingiu em 2018 são apenas dois exemplos.

Bem vistas as coisas, a educação, em si, não muda o mundo, mas é a ferramenta mais eficaz – arrisco dizer – para o fazer. É o caminho mais assertivo e um pilar inigualável para transformação e evolução da sociedade. Porque cidadãos mais críticos, mais conscientes e mais capazes são o motor para a criação de um mundo mais certo, igualitário e justo.

Assim, apostar na educação é sinónimo de apostar no potencial humano. É ter a certeza que todas as pessoas têm a oportunidade de adquirir competências, criar valor e ter um impacto positivo no mundo, independente do contexto económico e social em que nascem. É garantir que não há limites para as boas ideias, ou pelo menos, que essas barreiras não começam logo no receio ou na sensação de impotência dos seus autores. É o início de um círculo vicioso para o bem falar mais alto.

E se assim é, a responsabilidade da educação não deve ser de alguns. É de todos! Dos vizinhos que se juntam para ajudar um jovem do bairro; das instituições que criam bolsas para financiar estudos; das empresas que precisam e vão sempre precisar de trabalhadores qualificados e motivados e que, por isso, também devem criar condições para que a educação de qualidade seja uma realidade.

Não é um por todos e muito menos todos por um. Quando o tema é educação, o lema deve ser: todos por todos.

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