Trabalhamos muito e ganhamos pouco

O “segredo” de melhores condições salariais para os trabalhadores portugueses, na sua grande maioria, está nos métodos organizativos, que a grande maioria das empresas não possui. 

“O melhor julgamento que podemos fazer sobre a competência de gestão não depende daquilo que as pessoas dizem, mas simplesmente o que é que os resultados dizem.” – Warren Buffett 

Qualquer aluno do 1º ano de Economia de qualquer universidade sabe que a remuneração recebida pelo trabalho realizado deverá estar directamente relacionada com a produtividade desse mesmo trabalhador. Para o nível da produtividade confluem vários factores – trabalho, capital, eficiência e organização e métodos de trabalho.

Nem sempre a um nível de produção superior corresponde um nível de produtividade na mesma dimensão, uma vez que é possível aumentar a produtividade mantendo a produção constante, mas utilizando menos inputs no processo produtivo.

Em Portugal, a esmagadora maioria dos salários pagos aos trabalhadores é muitíssimo baixa, trabalhando os mesmos muito mais horas. Em 2019, um trabalhador em Portugal trabalhou uma média de 35,9 horas/semana, enquanto na União Europeia a 27 esse valor foi de 31,3 horas/semana – na Alemanha esse valor foi de 25,6 horas/semana.

Em termos de remuneração média dos trabalhadores por conta de outrem em poder de compra padrão (PPS), temos que em 2019 esse valor era de 26.051,80 euros para Portugal e na UE (27) era de 37.090,70 euros, sendo que na Alemanha correspondia a 40.835,70 euros – dados do Eurostat.

Pelo que podemos ver, o trabalhador português trabalha muito mais que a generalidade dos seus congéneres europeus e recebe muito menos. A grande questão é saber o porquê desta discrepância.

Até por exemplos que temos em Portugal (AutoEuropa, Bosch, Siemens, etc.) e por outros de portugueses a trabalharem noutros países da Europa, o problema não parece ser desses trabalhadores, mas sim na falta de organização das empresas.

Não podemos perder de vista que a grande maioria das empresas que compõem o tecido produtivo em Portugal são microentidades e pequenas empresas, cuja gestão tem uma clara marca patriarcal ou matriarcal. Gerentes sem grandes conhecimentos das melhores práticas de gestão, confundindo o que é produção (horas trabalhadas) com produtividade desse mesmo trabalho. E enquanto assim continuarmos, os portugueses irão sempre trabalhar mais e receber pouco, muito pouco.

Muitas vezes, é a pequena dimensão das empresas que não lhes permite dar esse salto qualitativo que as coloque num outro patamar. Consegue-se ultrapassar este problema se as empresas pequenas tenderem para fusões ou aquisições; tomarem uma maior dimensão e, aqui chegadas, através de processos de uma gestão profissional, não só conseguirem ganhos de produtividade, como esses mesmos ganhos as poderem catapultar para uma maior competitividade, quer a nível interno quer a nível exógeno, entrando em mercados nunca imaginados.

Sabe-se que uma microentidade ou uma pequena empresa nos Estados Unidos necessita de cinco anos para se transformar numa média empresa. Na Europa, esse prazo é alargado para o dobro – 10 anos. Entretanto, ao longo de todo esse processo, é natural que muitas não resistam e fiquem pelo caminho.

Portanto, o segredo de melhores condições salariais para os trabalhadores portugueses, na sua grande maioria, está nos métodos organizativos, que a grande maioria das empresas não possui. Chega-se ao ponto de muitas empresas estarem a produzir (muito na sua óptica), mas a registar prejuízos, exactamente por não contarem com a produtividade que deveriam ter, pelo excesso das horas trabalhadas.

O caminho é pois só um – as pequenas organizações capacitarem-se que não estão no melhor caminho do seu processo produtivo; deixarem de lado a atitude tão portuguesa das quintinhas”; encetarem processos de fusão para ganharem dimensão e, por fim, deixarem a gestão das mesmas nas mãos de verdadeiros gestores capacitados para fazerem o ‘turnaround’ da empresa, encontrando novas formas de produção e novos modelos de negócio.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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