Claro que o Governo vai ter de voltar ao estirador para reformular as propostas que fez para alterar a legislação laboral, além das questões particulares para resolver problemas que ninguém sabia que existiam, como o grave conflito da aleitação com o trabalho, que os dados não comprovam.

Terá, também, obviamente, de voltar a sentar-se à mesa com patrões e organizações sindicais, para negociar efetiva mente, com abertura suficiente para perceber que entre a ideia no papel e a prática, no terreno, pode ir um abismo. Nas outras barricadas também tem de haver senso, real.

O mundo do trabalho está a mudar a uma velocidade imensa e temos de nos adaptar, todos. Novas formas de trabalho, novas profissões, flexibilidade, tudo isto nos impede de cristalizarmos num quadro económico que já não é este. Perdemos todos. Mais ainda quem quer entrar ou regressar ao mercado de trabalho e é confrontado com o poder de quem está instalado.

Um exemplo: é ridícula a obrigatoriedade de integração de um trabalhador numa empresa que não o quer. Deve ter um custo? Sim, claro. E que seja caro. Mas insistir numa relação em que a confiança se quebrou não faz sentido para nenhum dos lados.

A quem emprega – lembrando-nos nós que o maior patrão nacional é o Estado, ou não consumisse quase metade dos recursos disponíveis –, é forçoso reconhecer que reforçar as ferramentas só de um lado altera demasiado o pêndulo do poder.

Mesmo que seja tudo feito em nome da competitividade. Sabemos que a produtividade do capital, em Portugal, é baixa, inferior às médias da zona euro e da União Europeia, e é assim há décadas. Antes de olhar para o trabalho, os patrões deviam olhar-se ao espelho. Fechado o capítulo da greve geral, o desejo para o novo ano só pode ser de que haja adultos na sala.