Trabalho: Investir na formação dos colaboradores é mais barato do que despedir e contratar outros

Alain Dehaze é o CEO do grupo Adecco, um dos maiores recrutadores do mundo. Em entrevista ao Jornal Económico fala sobre as profissões do futuro, o impacto da Inteligência Artificial no mercado laboral e as skills mais procuradas pelas empresas.

Alain Dehaze, líder do grupo Adecco, um dos maiores recrutadores do mundo, está “muito otimista” sobre o futuro do trabalho. Este belga, de 55 anos, formado em engenharia comercial pela ICHEC Brussels Management School, acredita que a Inteligência Artificial terá mais impacto no mercado laboral do que os robôs. “Por um lado, haverá destruição de empregos, devido aos avanços tecnológicos. Por outro, existirão novos postos. O desafio agora é a sincronização entre os dois. É por isso que ter mais competências ou renová-las é bastante importante”, explica ao Jornal Económico o CEO que desempenha um papel ativo na formação dos mercados de trabalho do futuro, como chair da Global Apprenticeship Network (GAN), membro da International Labour Organization (ILO) Global Commission on the Future of Work ou comissário do World Economic Forum (WEF). Sobre as práticas que podem ajudar a resolver os problemas que surgem, Alain Dehaze refere que “tanto os empregadores como os empregados sabem que é preciso uma atualização constante das competências”. “E se os governos querem que as pessoas se mantenham competitivas, também têm de criar as condições necessárias”, acrescenta.

O CEO acumula uma vasta experiência em cargos de topo. Em 2000 foi nomeado Managing Director da Creyf’s Interim na Bélgica. Mais tarde, o seu percurso levou-o à posição de CEO na Solvus, COO da USG People (quando esta assumiu a Solvus) e CEO da Humares entre 2007 e 2009. Entrou para o Adecco Group em 2009 e assumiu o cargo de CEO em 2015. Entre as áreas profissionais com maior procura pelas companhias estão as científicas, as engenharias e as médicas. “Vai ser cada vez mais importante ter soft skills como a inteligência emocional, a criatividade, o espírito colaborativo e a resolução de problemas, que atualmente não são ensinados nas escolas. À medida que a tecnologia entra no ambiente de trabalho é fundamental ter estas competências”, explica ao Jornal Económico. O grupo Adecco é membro da Fortune Global 500 e ajuda anualmente 350 mil pessoas a fazer a transição para o trabalho, apoiando mais de 100 mil organizações. Com 34 mil membros em 60 países, ficou em segundo lugar na lista de melhores locais para trabalhar de 2017, a única empresa de soluções de recursos humanos no top 25.

“As empresas têm de investir nos colaboradores, caso contrário não serão competitivas. Despedir os colaboradores sem as capacidades necessárias e contratar outros é um custo oneroso e causa disrupção social”, sublinha. Ou seja, o modelo de investir nos colaboradores que já estão na companhia e “conhecem o produto e fazem parte da cultura é financeiramente mais atrativo e mais barato”.

Em relação ao Brexit, o líder da Adecco considera que o Reino Unido permanecerá forte, independentemente do resultado final das negociações. “É uma grande nação em termos de população, serviços financeiros ou indústria. No entanto, para as companhias exportadores será um período difícil”.

Sobre o mercado laboral português, onde o grupo recrutador está presente desde 1989, Alain Dehaze salienta os progressos verificados nos últimos anos. “É impressionante o que Portugal conseguiu fazer. A redução do défice, a diminuição da taxa de desemprego ou o aumento do salário mínimo. Ainda assim, vão ser precisas cada vez mais pessoas qualificadas. Os portugueses são muito competitivos, mas é preciso aumentar o nível de competências dos colaboradores e, claro, investir na educação”.

 

O “robô Manuel”

É o primeiro projeto de Robotic Process Automation da Adecco Portugal, a funcionar em pleno desde setembro, com um registo de 10% de aumento na produtividade da empresa. Integrado na equipa de recrutamento, é o primeiro assistente ao recrutador com o objetivo de otimizar procedimentos, através de tarefas que se espera sejam realizadas com rigor e eficiência, para “libertar” os colaboradores para tarefas que agregam mais valor à empresa.

Neste momento, o “Manuel” está associado a tarefas específicas de análise de bases de dados, interação com os candidatos e verificação e preenchimento automático de anúncios de emprego em websites da marca e externos.

Numa segunda fase de procedimento, e de acordo com essa análise, pode interagir via correio eletrónico com os candidatos, para garantir que a informação relevante é completa. A título exemplificativo, tem a capacidade de enviar 134 emails em sete minutos.

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