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Tráfico de vida selvagem causa perdas de 64,4 mil milhões de euros por ano

A destruição de habitats e a caça furtiva associada ao comércio ilegal de espécies estão entre as principais causas do declínio de várias populações, algumas em vias de extinção. Agora com a tecnologia avançada e com Inteligência artificial começa a ser mais fácil monitorizar e até apanhar em flagrante quem pratica estes delitos.
@Interpol
6 Fevereiro 2026, 16h47

O declínio das populações de vida selvagem atingiu proporções alarmantes a nível global. De acordo com a Global Environment Facility (GEF), a pressão humana sobre os ecossistemas é hoje tão intensa que a biomassa da humanidade ultrapassa em cerca de dez vezes a de todos os mamíferos selvagens existentes no planeta.

O comércio ilegal de vida selvagem é atualmente um dos negócios ilícitos mais lucrativos do mundo, com um valor anual estimado entre 7 e 23 mil milhões de dólares (cerca de 6,5 a 21 mil milhões de euros), segundo a GEF. Esta atividade é frequentemente controlada por redes criminosas transnacionais bem organizadas, que exploram a elevada procura global e a fraca fiscalização em muitos países. Em contextos locais, a caça furtiva é também impulsionada pela pobreza, corrupção, instabilidade política e aplicação insuficiente da lei.

Uma operação internacional sem precedentes contra o tráfico de fauna e flora selvagem, intitulada Operação Thunder 2025, resultou na apreensão de quase 30 mil animais vivos e na identificação de 1100 suspeitos em todo o mundo. Coordenada pela INTERPOL e pela Organização Mundial das Alfândegas (WCO), a Operação Thunder 2025 mobilizou forças policiais, autoridades aduaneiras, serviços florestais e unidades de proteção ambiental de 134 países, entre 15 de setembro e 15 de outubro.

Durante um mês, foram efetuadas 4640 apreensões, o número mais elevado alguma vez registado no âmbito desta operação anual envolvendo animais, plantas, madeira ilegal e derivados de espécies protegidas sob a Convenção CITES. Só em madeira foram confiscados mais de 32.000 m³, e globalmente recuperaram-se mais de 30 toneladas de produtos de espécies ameaçadas.

A operação revelou a crescente sofisticação das redes criminosas dedicadas ao tráfico ambiental, frequentemente ligadas a outros crimes, incluindo tráfico de droga, exploração humana e lavagem de dinheiro. Estas redes operam em cadeias logísticas internacionais, explorando aeroportos, portos, correios, fronteiras terrestres e plataformas digitais.

Entre as apreensões mais marcantes estiveram aves exóticas, primatas, répteis, tartarugas, pangolins, insetos raros, mas também grandes quantidades de carne de animais selvagens, marfim, cornos de rinoceronte, peles e produtos para medicina tradicional.

O Secretário-Geral da INTERPOL, Valdecy Urquiza, alertou em comunicado para o impacto profundo destas redes: “A Operação Thunder expõe a escala e a sofisticação das redes criminosas que alimentam o comércio ilegal de vida selvagem. São estruturas que se cruzam com todas as áreas do crime, desde o tráfico de droga à exploração humana. Minam o Estado de direito e afetam comunidades inteiras.”

Já o Secretário-Geral da WCO, Ian Saunders, sublinhou o papel crítico das alfândegas: “As alfândegas são a primeira linha de defesa contra o crime transfronteiriço. O êxito da Operação Thunder demonstra a importância da cooperação global para travar o contrabando de espécies vulneráveis.”

A procura por produtos de origem animal é alimentada por crenças no seu suposto valor medicinal, pelo prestígio social associado à sua posse e pelo interesse crescente em animais exóticos como animais de estimação. As consequências são profundas: estima-se que os crimes contra os recursos naturais provoquem perdas globais de cerca de 70 mil milhões de dólares por ano (aproximadamente 64 mil milhões de euros), afetando diretamente os meios de subsistência das comunidades locais e agravando a pobreza, a desigualdade e a instabilidade.

Em muitos países em desenvolvimento, a vida selvagem constitui um recurso essencial para o turismo, a criação de emprego e o desenvolvimento sustentável, além do seu valor ecológico e cultural. A sua degradação representa, por isso, não apenas uma ameaça ambiental, mas também um risco económico e social de longo prazo.

@Interpol

Para enfrentar esta ameaça, as autoridades responsáveis pela fiscalização ambiental recorrem cada vez mais a tecnologias avançadas. Drones e imagens de satélite permitem monitorizar áreas remotas e identificar atividades suspeitas de caça furtiva, enquanto câmeras com sensores de movimento, apoiadas por inteligência artificial, conseguem reconhecer espécies protegidas e detetar intrusos em tempo real.

O uso de blockchain e microchips ajuda a rastrear legalmente produtos de origem animal, garantindo que itens como couro ou madeira não provenham de fontes ilegais. Plataformas digitais são monitoradas por algoritmos capazes de identificar vendas ilícitas online, e sensores acústicos instalados em florestas detectam sons de armas ou movimentações humanas, permitindo respostas imediatas das patrulhas.

O cruzamento de dados provenientes de satélite, câmeras, patrulhas e denúncias possibilita mapear rotas de tráfico e prever áreas de risco, tornando a atuação das autoridades mais preventiva do que apenas reativa. No terreno, testes portáteis de ADN e scanners de madeira permitem identificar rapidamente espécies protegidas sem necessidade de laboratórios, aumentando a eficácia das operações de fiscalização.

No caso dos rinocerontes que são abatidos para lhes retirarem o corno, ultimamente estão a ser protegidos mediante o uso de uma tinta. Se o corno estiver pintado, perde valor comercial.

Segundo o órgão de informação The Conversation, as autoridades responsáveis pela fiscalização ambiental estão a recorrer cada vez mais à inteligência artificial e a ferramentas digitais para combater o tráfico ilegal de vida selvagem e de recursos naturais, um crime difícil de travar devido à complexidade das cadeias logísticas e à dificuldade em identificar espécies protegidas.

Uma das áreas em destaque é a inspeção de cargas. Em portos, aeroportos e centros de correio, sistemas avançados de raios X, apoiados por software inteligente, permitem detetar anomalias no interior de encomendas. Estes sistemas não identificam diretamente animais ou espécies, mas ajudam os inspetores a selecionar quais os envios que justificam uma análise mais aprofundada.

Após a apreensão, a identificação correta das espécies torna-se crucial. Ferramentas baseadas em inteligência artificial, algumas desenvolvidas com apoio científico, permitem aos inspetores descrever o que encontraram e obter apoio na distinção entre espécies semelhantes, cujos níveis de proteção legal podem ser muito diferentes.

Também no terreno surgem novas soluções, como testes portáteis de ADN, capazes de identificar rapidamente determinadas espécies sem necessidade de laboratórios. Estes dispositivos permitem decisões imediatas em operações de fiscalização remotas.

A tecnologia é igualmente aplicada ao combate à exploração ilegal de madeira, através de scanners portáteis que analisam a estrutura interna da madeira para identificar espécies protegidas, sobretudo em regiões onde o abate ilegal continua a ser um problema grave.

Essas tecnologias não substituem o trabalho humano, mas ampliam significativamente a capacidade de monitorização, proteção e intervenção, demonstrando que a luta contra o tráfico de vida selvagem está cada vez mais dependente da inovação e da cooperação global.


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