Três mil

A grande diferença na próxima crise são os inúmeros avisos que os clientes têm agora de assinar e que isentam de qualquer culpa as instituições financeiras, garantindo que nenhum “contribuinte” pagará a crise.

O título deste artigo é sugestivo para os mais atentos ao mercado. O índice SP500 ultrapassou pela primeira vez os 3.000 pontos, na sequência da mais longa subida do mercado alguma vez registada.

O ano de 2019 tem-se revelado uma caixa de surpresas, marcado pela recuperação total das perdas verificadas em 2018, principalmente se pensarmos que, por ora, nada mudou relativamente ao posicionamento dos EUA e China. As negociações continuam a arrastar-se com cada uma das partes a tentar comprar tempo e a ganhar poder negocial.

Mas o motor da recuperação das bolsas tem sido as recompras recorde de acções por parte das empresas americanas, o investimento em fundos globais passivos por parte dos investidores e a intervenção dos bancos centrais. Estes três factores sobrepõem-se à incerteza relacionada com uma recessão económica ou um eventual acordo comercial.

Tendo em conta que o mercado americano representa 40% da capitalização dos mercados mundiais, qualquer fluxo para os fundos globais irá manter a supremacia deste mercado intacta. Os investidores foram viciados em estímulos e, nesse campo, os bancos centrais continuam a não desiludir. A fonte de estímulos proporcionada pelo BCE e pela Fed, tem-se mostrado fundamental para a queda dos juros dos países, ao mesmo tempo que alimentam uma bolha que apenas eles poderão pagar.

A descrença no actual modelo está a aumentar, nomeadamente com a percepção que se o dinheiro pode “aparecer”, então estamos perante um sistema que a prazo está falido, que não protege quem poupou e que existe apenas para cobrar e destruir poupança.

A nomeação de Christine Lagarde surpreendeu os investidores que esperavam alguém alinhado com a Alemanha – leia-se, que impusesse uma política monetária mais restritiva. Os investidores prevêem assim a manutenção das taxas de juro negativas até 2024 e a possibilidade de estímulos adicionais, quer através de recompra de títulos, quer baixando as taxas de juro já de si negativas.

Esta política nega qualquer aumento ou manutenção do poder de compra a quem poupou, obrigando o aforrador comum a expor-se a activos de risco, para compensar a inflação. A grande diferença na próxima crise são os inúmeros avisos que os clientes têm agora de assinar e que isentam de qualquer culpa as instituições financeiras, garantindo que nenhum “contribuinte” pagará a crise.

O mundo está cheio de desafios e o maior talvez seja convencer as gerações mais novas de que o mercado financeiro desempenha um papel fundamental na economia. Apesar do descrédito nos bancos centrais, o facto é que são estes que ainda estão ao leme dos destinos das bolsas que não dão sinal de abrandar.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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