Tresanda a crise política

Rio tem de jogar com a aprovação do OE, sabendo que o PSD não conta neste campeonato, onde os atores principais são, e vão continuar a ser, PS, PCP e PAN, independentemente de birras de “virgem ofendida” do Bloco.

1. O presidente do PSD pensa que ganhou as eleições autárquicas e desde então que tem agido como tal. Fazendo jogo político a um nível que não se conhecia até aqui. Baixo, mesmo baixo quero eu dizer! Na realidade, Carlos Moedas ganhou espantosamente a Câmara de Lisboa apesar de Rui Rio, e não com o apoio de Rio.

Moedas mostrou ser um candidato honesto, trabalhador e sério, o que contrastou com os últimos anos da era Medina e os vários casos que vieram a público, inclusive na semana das eleições.

Moedas arrumou Medina e, pelo caminho, feriu mortalmente António Costa. Será sempre o agora líder da autarquia da capital o fiel da balança em relação à próxima liderança do PSD, seja ela nesta fase protagonizada por Rui Rio ou por Paulo Rangel, ou Luís Montenegro.

Dito isto, Rio tem de jogar com a aprovação do Orçamento do Estado (OE), sabendo perfeitamente que o PSD não conta para este campeonato, onde os atores principais são, e vão continuar a ser, PS, PCP e PAN, independentemente de birras de “virgem ofendida” do Bloco. Costa sabe que tem uma oportunidade única para deitar abaixo o Governo e provocar eleições, enquanto o líder da oposição se chamar Rio.

Mais tarde o líder da oposição será outro, mais combativo, com outras potencialidades e, sobretudo, com a capacidade de unir o centro-direita e não de o separar, e de evitar com isso o regresso ao poder.

Costa irá dar o que tem de dar à extrema-esquerda para conseguir os apoios indispensáveis, mas também sabe que se não o fizer irá ganhar limpo as próximas eleições legislativas contra um PSD desfeito e dividido que acha que ganhou umas autárquicas – mas que perdeu – só porque teve três ou quatro candidatos que valeram por si (caso de Lisboa e Coimbra) e tem o desplante de continuar a vender o partido como potencial partido do arco da governação.

Com Rio à frente do PSD, os sociais-democratas irão continuar a fazer uma “longa caminhada no deserto”.

2. O OE para 2022 é o centro das notícias e, pelas nossas estimativas, o crescimento da receita volta a ser subestimado. Fazendo contas à inflação, ao crescimento económico previsto e à política das receitas indiretas, a receita global deveria ser maior. Mas o objetivo do ministro Leão é conseguir fazer um exercício a baixar o défice, com uma execução fabulosa.

Na prática não se atualizam escalões, aumentam-se os indiretos; há retoma do consumo e inflação; mas como é que a receita apenas sobe 3,8%…? “Não bate a bota com a perdigota” mas é bem jogado. Enquanto isso, a esquerda está num frenesim, com o PS a tentar encostar a extrema-esquerda às cordas e o Presidente da República a ajudar na dramatização.

3. A proposta de OE para 2022 tem muitas incongruências. Uma delas é nada prever no sentido da descarbonização automóvel, a não ser manter impostos elevados sobre o combustível, sendo que pelas vendas dos eletrificados daqui a uns anos não terá ISP.

Um pormenor que nos fizeram chegar alerta para a incógnita que o Governo cria a nível de Imposto Único de Circulação (IUC) quando escreve sobre a perda fiscal nos veículos anteriores a 2007, que são beneficiados em sede de IUC porque quando foram adquiridos foram beneficiados em sede de Imposto Automóvel.

A AT queixa-se de duas tabelas de IUC e perda de centenas de milhões em impostos. Mas será que esta não é uma forma de aumentar os impostos sobre os ligeiros de passageiros mais antigos?

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