Há pastas na governação que são destruidoras de carreiras, purgatórios para deserdados, verdadeiras armadilhas políticas para incautos ou jogadores com fé, independentemente de quem para lá vá.
Agora, é a Saúde a fava do bolo-rei governamental. Já foi a Administração Interna, em que quem a tutelava era consumido pelas épocas de fogos ou pelas crispações e polémicas com as forças de segurança. Em 25 governos constitucionais, foram 30 titulares empossados, contando com a atual, Maria Lúcia Amaral. Mais do que um por governo. Luís Montenegro vai no segundo governo e na segunda ministra.
Por vezes até corre bem, como bem sabe José Luís Carneiro, que ocupou a pasta sucedendo ao caos de Eduardo Cabrita e ao breve desenrascanço com Francisca Van Dunem. Dois anos de fogos menores, com áreas ardidas abaixo da média, e só foi atingido pela controvérsia quando já estava de saída. Resultou a aposta. Tão bem que Carneiro é hoje secretário-geral do PS.
A Saúde é a trituradora de ministros mais recente, mas poderosa, inescapável. Desde a pandemia que é uma máquina infernal. Foi assim com António Costa e continua a ser assim com Luís Montenegro, e continuará a ser assim seja qual for a solução que se conseguir encontrar para a pasta. O problema é estrutural, leva tempo a resolver. Está muito longe das soluções conjunturais que nos venderam em período eleitoral. Mesmo imaginando que há uma solução no horizonte – que não é de todo visível –, é quase impossível escapar à erosão do descalabro nas urgências, aos nascimentos em autoestradas ou às querelas corporativas.
A missão do primeiro-ministro traduz-se em aguentar a vítima até ser impossível continuar a fazê-lo. E segue-se outra vítima, assim se consiga encontrar uma.



