Turismo aos tropeções

Se o consumo de bens duradouros recuperou para os valores pré-pandémicos no segundo trimestre de 2021, o mesmo não aconteceu com as exportações de turismo e de serviços com ele relacionados.

Não obstante os dados do primeiro trimestre de 2021, revelados no Boletim Económico do Banco de Portugal do mês de junho, evidenciarem o efeito negativo da crise de Covid-19, nomeadamente, sobre o consumo privado e sobre as exportações de serviços, em particular do turismo, para o segundo trimestre, o mesmo Boletim alvitra um crescimento significativo da procura interna, com ênfase para o consumo privado, na componente de serviços, e um início da recuperação das exportações de serviços, onde se inclui, naturalmente, o turismo proveniente dos nossos mercados emissores.

Essa recuperação, prevê-se, deverá ser acentuada durante o segundo semestre de 2021 e em 2022. Estas estimativas são tão mais relevantes, quanto mais importante é o peso do turismo na economia portuguesa, seja ele com origem interna ou externa.

O consumo de serviços tem duas características que determinam uma recuperação mais lenta. A primeira é que, ao envolver uma forte componente de socialização, está condicionado pelo progresso do desconfinamento e da vacinação em massa. A segunda é que, em geral, é mais difícil recuperar o consumo de serviços não realizados, quando comparado com o consumo de bens.

A corroborar isto está o facto de as exportações de turismo e de serviços com ele relacionados, de que são exemplos os sectores do alojamento, da restauração e dos transportes se situarem, no segundo trimestre de 2021, cerca de 50% abaixo do valor observado para o mesmo agregado antes da pandemia, enquanto o consumo de bens duradouros evidenciou a sua recuperação, para os valores pré-pandémicos, já no segundo trimestre de 2021.

Mas, sobre estas previsões positivas, muitas dúvidas subsistem quando observamos a realidade quotidiana. Vários são os factos que fundamentam os nossos receios. Senão vejamos:

(i) depois de, num primeiro momento, se ter verificado a abertura aos ingleses do destino Portugal, menos de duas semanas depois, o susto da variante Delta levou a um novo fechar das portas de saída por parte do governo inglês, atitude recentemente seguida pela Alemanha e pelos Países Baixos;

(ii) o recrudescimento do número de infetados, ainda que menorizado por um aumento mais moderado dos internamentos hospitalares, penaliza seriamente a imagem de Portugal enquanto destino turístico;

(iii) as medidas titubeantes dos nossos governantes, que isolaram a região de Lisboa, em dois fins de semana consecutivos, com o objetivo, dificilmente alcançável, de conter a variante Delta, altamente contagiante, veio adicionar mais uma restrição ao fluir do turismo interno;

(iv) finalmente, a obrigação de apresentação de um teste negativo, ou de um certificado digital Covid- 19 para aceder aos serviços de alojamento e da restauração, sendo uma medida meritória, coloca muitas dúvidas sobre a capacidade logística das empresas na sua implementação, no curto espaço de tempo exigido.

O sector do turismo que se acautele, o verão vai ser de tropeções e quedas, seguidas de tentativas de reerguer constantes. Esperemos que a necessidade de usar mais letras do alfabeto grego para identificar as previsíveis novas variantes do vírus se venha a revelar moderada, com tudo o que isso pode implicar para a recuperação de um sector já tão fustigado pela pandemia.

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