[weglot_switcher]

Turismo rural e sustentabilidade em áreas de montanha

António Monteiro, conservacionista e empreendedor, explica como é que o turismo rural pode potenciar fileiras locais, como a produção agroalimentar, o artesanato ou as atividades tradicionais.
7 Março 2026, 10h11

O turismo rural continua a ser um complemento de rendimento para a maioria dos investidores. Mas há uma mudança promissora recente: um aumento da procura por territórios remotos, autênticos, com espaços abertos e valores naturais.

 Num contexto de desertificação humana e fragilidade económica nas zonas de montanha, que papel pode o turismo rural desempenhar como motor de revitalização territorial? Estamos a falar de um complemento de rendimento ou de uma verdadeira âncora de desenvolvimento?

Começo por me apresentar, porque acho que é relevante para perceber a minha abordagem sobre estes temas da socio-economia e da socio-ecologia. Tenho 56 anos, nasci em Lisboa. Mas estas terras da Raia – entre Figueira de Castelo Rodrigo e Almeida – com algumas raízes do lado espanhol, são a minha terra no sentido mais profundo: todos os meus antepassados são daqui, há mais de três gerações. Vim para cá em 1993 fazer o estágio de licenciatura em biologia, dois anos mais tarde conheci a Ana, também ela a estudar aves e com ligação familiar à Beira, e decidimos ficar e constituir família. Mais de trinta anos depois, tenho o privilégio de ter observado e participado na dinâmica deste território com uma proximidade que o percurso profissional, familiar e de vida tornou possível.

Confesso que não gosto muito de termos como “baixa densidade”, “desertificação”, “esvaziamento” ou “periferia”. Em Espanha há um livro muito conhecido chamado La España Vaciada que usa precisamente essa linguagem. Não é que seja erro ou tabu, mas carrega uma conotação depreciativa que passa para a sociedade e que, a meu ver, não é útil. Em contraponto, prefiro trazer termos como interior rural, planalto raiano, Beira Transmontana, Meseta, como disse e bem: montanha. A abordagem pela orografia e pela geografia parece-me mais assertiva.

Mas, para não fugir ao tema, é importante lembrar que Figueira de Castelo Rodrigo está a 230 quilómetros do aeroporto do Porto, a mais de 400 de Lisboa e quase a 500 de Madrid. Isto não é um pormenor. Este contexto, que também é uma identidade, e uma condição estrutural que condiciona o mercado, as acessibilidades e as estratégias de desenvolvimento. Será também uma das razões porque o turismo rural chegou a este território de forma muito gradual. Em 1993 já havia uma ou duas unidades. Em 2004 abrimos a Casa da Cisterna, éramos talvez os terceiros. Nunca houve um boom. Houve um processo lento, feito de pequenas iniciativas, algumas que resistiram e outras que não. A partir de meados da década de 2010 notou-se um aumento no número de unidades e um crescimento que felizmente se tem mantido.

Na minha leitura, o turismo rural continua a ser sobretudo um complemento de rendimento para a maioria dos investidores. Mas há uma mudança promissora recente e que me parece decisiva, especialmente da parte do mercado: um aumento da procura por territórios remotos, autênticos, com espaços abertos e valores naturais que não existem noutros sítios. Quando essa procura se liga à paisagem, ao património natural e aos produtos locais, o turismo pode tornar-se âncora de desenvolvimento. Não será ainda a regra, mas há de facto uma tendência de crescente importância e isso expressa-se numa esperança de que continue a crescer.

De que forma projetos como a Casa da Cisterna demonstram que é possível criar valor económico em territórios de baixa densidade? Que indicadores considera mais relevantes para medir esse impacto?

A nossa história é simples e pessoal. Viemos para cá na década de noventa (1990s) para trabalhar num território que, para nós, era um santuário de aves rupícolas e de paisagens do Douro Internacional. Eu entrei para o Estado, via criação do Parque Natural do Douro Internacional (1998) e estou nos quadros do ICN/ICNF desde então.

Isso foi fundamental para ter uma estabilidade económica, numa fase em que o emprego era escasso e a tendência demográfica já era claramente negativa. Esses anos foram especiais em termos de acontecimentos no território: o Parque Arqueológico do Vale do Côa, a classificação UNESCO do próprio Côa e do Douro Vinhateiro, a afirmação da navegabilidade e dos cruzeiros turísticos do Douro. Assisti na primeira pessoa a esse momento que, a esta distância, posso dizer que foi único e histórico para esta região.

Quando decidimos avançar com turismo rural, não o fizemos com um plano de negócio convencional. De facto, começamos pela aquisição e recuperação de uma casa, com a dúvida real de saber se seria apenas habitação ou também alojamento. Sendo aldeia histórica e porque o momento era promissor, os cofinanciamento da CEE/União Europeia foram decisivos. Na prática andavam na casa dos 60-65% por cento de apoio efetivo, ainda que com uma carga burocrática forte. A escolha de Castelo Rodrigo foi exclusivamente emocional: entre algumas casas e quintas à venda, escolhemos a povoação que mais nos tocava, pela paisagem, pelo ambiente medieval das ruínas e por uma sensação que ainda hoje tenho, a estes 820 metros de altitude, de viver num condomínio privado com séculos de história.

Sobre indicadores socioeconómicos, diria que o emprego e a microeconomia gerada pelo negócio são os mais relevantes. No nosso caso, com a recuperação da casa, a Ana criou o seu próprio emprego e progressivamente chegámos às sete pessoas que atualmente trabalham no projeto.

A casa teve sempre uma gestão estável e duradoura no tempo, destacando-se a nível nacional na liga das casas de campo com este perfil, o que contribui de forma relevante para a economia circular local. As centenas, ou mesmo milhares de pessoas que nos visitaram ao longo dos anos representam, numa economia frágil e dispersa, um contributo difícil de medir com precisão – mas que considero real e importante.

Com os anos foi-se construindo uma rede informal, mas concreta, de interação entre o turismo rural, os fornecedores agrícolas, a restauração e outros serviços locais, criando rotinas económicas com impacto real no território. Nesse aspeto, as entidades estatais contribuíram para a divulgação do território, mas falharam, a meu ver, no contacto direto com os operadores económicos, o que continua a ser um mal transversal ao nosso interior e que continua por resolver.

Como é que o turismo rural pode potenciar fileiras locais, como a produção agroalimentar, o artesanato ou as atividades tradicionais? Existe um efeito multiplicador real na economia local?

Nunca vi o turismo rural como substituto da agricultura ou como motor único. O que vi foi uma teia a formar-se lentamente. Quando cheguei à região, a população ativa no sector primário já estava a reduzir e isso acelerou com o tempo. Mas ao mesmo tempo houve especialização e modernização em produtos-chave: vinho, azeite, amêndoa, queijo, fumeiro. No caso do vinho estamos a falar de uma verdadeira revolução. No concelho e Fig. Castelo Rodrigo de apenas uma adega (a cooperativa) em finais dos anos 1980 passámos a quase uma dezena de marcas e empresários agrícolas na atualidade – o que está sem dúvida associado à qualidade e especificidade do terroir. O mesmo aconteceu com o azeite, a menor escala. Esta transformação produtiva veio sobretudo dos apoios europeus e da PAC.

O turismo entra aqui como mercado de proximidade qualificado. Não resolve os problemas estruturais da produção, mas cria escoamento, visibilidade e narrativa. Quando um visitante prova um queijo, compra um vinho ou leva um produto local, está a transformar um bem agrícola em experiência cultural.

Existe um efeito multiplicador, sim, mas é lento e depende de escala pequena e de continuidade. A restauração compra local, os alojamentos recomendam produtores, os produtores ajustam a oferta. Isto cria ligações que podem parecer fracas, mas que são persistentes. Em territórios frágeis, a sustentabilidade genuína desta economia circular vale mais do que grandes números que, por defeito, nos chamam mais à atenção.

A sustentabilidade ambiental é um entrave ou um fator diferenciador competitivo? O mercado valoriza práticas sustentáveis?

Depende do que se entende por sustentabilidade. Se for vista como obrigação externa, pode ser sentida como custo. Mas, na prática, no turismo de montanha, a sustentabilidade coincide quase sempre com boa gestão: poupança de água, eficiência energética, manutenção do património construído, integração na paisagem. Tudo isso reduz despesas e aumenta qualidade.

No nosso caso, nunca foi uma opção ideológica desligada da realidade económica. Foi uma consequência lógica de estarmos num território com poucos recursos e grande valor natural. Quem vem para aqui procura precisamente isso: silêncio, céu escuro, paisagem intacta, contacto com a natureza. Se nós destruirmos isso, destruímos o próprio produto.

O mercado não paga mais por um rótulo verde abstrato, mas valoriza muito a experiência concreta: a casa bem integrada, o lixo bem separado, os percursos bem cuidados, a sensação de autenticidade e qualidade nos produtos que se consomem. Portanto, eu diria que a sustentabilidade, aqui, é menos um custo e mais uma condição de competitividade a médio prazo.

Que modelo de turismo faz sentido para territórios frágeis? Crescimento em escala ou valorização da qualidade?

Pode ajudar, mas não sozinho. O turismo contribui para mudar a perceção externa e também a autoestima interna. Quando alguém escolhe vir para aqui passar férias, comer e dormir neste território, isso tem um efeito simbólico forte num lugar que passou décadas a perder gente e funções.

É a cara visível de uma economia circular que se foi construindo com os produtos locais, a restauração, os fornecedores e a conservação da natureza. Tudo isso chegando ao visitante e, através dele, ao mundo. Começámos esta conversa a falar no efeito âncora do turismo no interior. A palavra que me parece agora mais precisa é alavanca. Não resolve os problemas estruturais, mas pode ser o primeiro elo que traz pessoas de fora, gera iniciativa e atrai investimento para um território que carece de ideias e de projeto.

O que vi ao longo de trinta anos é que a mudança começa sempre com pessoas concretas que ficam ou que vêm. O Estado foi decisivo quando fixou técnicos, criou áreas protegidas e investiu em infraestruturas. A iniciativa privada veio a seguir. E o efeito bola de neve é real: um projeto chama outro, uma associação atrai investigadores, o turismo traz visitantes de todo o mundo.

O fator transfronteiriço é aqui fundamental e muitas vezes subestimado. Considero-me raiano. Acompanhei de perto as duas realidades, portuguesa e espanhola, e o que se passou dos dois lados da fronteira foi, em grande medida, convergente. Estamos ao lado de uma das mais antigas universidades da Península Ibérica, junto de um dos maiores parques transfronteiriços da Europa, com um santuário mundial de arte rupestre a poucos quilómetros, na tranquilidade de uma vista sobre a Meseta que se perde de vista. A re-naturalização, a biodiversidade e os serviços de ecossistema são o futuro desta região. E o turismo é a alavanca que torna tudo isso visível. Venham ver.

 

 

 

 


Copyright © Jornal Económico. Todos os direitos reservados.