O Ano de 2026 começou com a operação militar especial (desculpem o paralelismo, mas parece-me apropriado) ordenada por Donald Trump na Venezuela, que vai provocar uma aceleração da História.

Não tenho nenhuma simpatia pelo regime venezuelano. Nicolás Maduro tinha há muito perdido a legitimidade, e só se conseguia manter como Chefe de Estado porque ainda conservava o controlo do aparelho de Estado através da máquina do seu Partido, não era activamente contestado por pelo menos algumas das mais importantes chefias militares, e era apoiado por alguns países que se assumem estrategicamente como adversários dos EUA.

Isso não me impede de considerar que a intervenção militar americana viola grosseiramente os princípios fundamentais do Direito Internacional, e é ilegítima e condenável, até porque os fins não justificam os meios.

Mas há considerações de facto que não devem ser desprezadas. A Venezuela ganhou uma excelente oportunidade para começar um processo de reforma do seu Estado e construir uma sociedade livre, democrática e desenvolvida. Deve ser apoiada neste esforço, mas deve ser a própria sociedade venezuelana a definir livremente o seu destino, sem a tutela de uma administração ou protectorado estrangeiro.

Mas a intervenção americana também chama a atenção para outros factos.

Em primeiro lugar, os EUA, interpretando de forma construtiva a Doutrina Monroe, assumem (embora não o digam claramente) que a América Latina (ou mesmo todo o continente americano, e será interessante seguir o que se vai passar com a Gronelândia) constitui uma “esfera de influência” em que se sentem livres de intervir, até militarmente, nos assuntos internos de outras nações, se tal for conveniente para a defesa dos seus próprios interesses. O ponto diferente é que esses interesses são agora assumidos como económicos, não apenas geoestratégicos.

Este posicionamento põe em crise existencial todo o sistema de regulação pacífica de conflitos internacionais construído após o final da Segunda Guerra Mundial, assente no respeito pela soberania das nações. E leva à formação de grandes blocos – certamente Putin irá aproveitar e definir uma “esfera de influência” para a Rússia na Europa e na Ásia Central, e Xi Jinping outra para a China no Leste e Sudeste Asiático.

Por outro lado, as próprias “esferas de influência” não serão nunca perfeitamente estáveis. É da natureza das coisas que haverá sempre focos de conflito local, sobretudo em zonas como o Japão, Taiwan, África ou o Médio Oriente, incluindo Israel, onde os interesses (incluindo económicos) dos maiores estejam em contradição. A tendência será para a procura permanente de ajustes ou realinhamentos pontuais. É daí que se poderá esperar o desenvolvimento de conflitos armados.

Outros países com pretensões a um papel relevante na cena internacional poderão tentar criar, isoladamente ou por via colaborativa, outras formas de afirmação neste teatro, mesmo que ao nível regional, pelo menos por enquanto. É aí que vejo a Índia, ou alguns países islâmicos (embora as rivalidades históricas entre ramos do islão, ou entre árabes, turcos e iranianos, por exemplo, possam dificultar as opções), ou a Europa, que terá rapidamente de definir o que quer ser neste Mundo Novo e ou assume uma entidade colectiva independente, federal ou de outra natureza, para criar o seu próprio espaço e se afirmar, ou cada um dos seus membros terá isoladamente de escolher a esfera de influência em que se integrará – se lho deixarem.