Um ano AINDA a dois tempos e a duas vozes

O primeiro semestre irá sofrer da descoordenada estabilização e reativação da vida económica na Europa, mas que eu espero que vá tendo resultados visíveis, e o segundo semestre registará mais vitalidade.

Este texto foi publicado originalmente no suplemento “Boletim Económico da Primavera”, que integrou o Jornal Económico de 9 de abril de 2021.

 

Tentando atualizar a minha resposta à vossa questão sobre como penso que vai decorrer o ano de 2021 feita em janeiro de 2021, diria que continuo a prever um ano a duas velocidades e a duas vozes. E apesar de estar um pouco mais pessimista do que estava, acredito que ainda pode ser um ano de algum crescimento.

Tal como antecipei, o primeiro trimestre começou mal. Não só o confinamento foi mais prolongado do que inicialmente eu previra, como os danos psicológicos na sociedade foram terríveis com a passagem do pico da crise pandémica de finais de janeiro, tudo agravado por um mau início na implementação do plano de vacinação. Em termos simplistas, nós pontuámos negativamente nos três campos que mais poderiam ajudar à recuperação económica.

O terrível descontrolo sanitário do fim de janeiro e início de fevereiro teve consequências graves no plano humano, mas contagiou dois elementos essenciais: assustou o Governo que prolongou e endureceu o confinamento, e ao nível psicológico definhou as expectativas dos agentes, piorando o estímulo essencial para reativar o consumo e o investimento. Por fim, o próprio plano de vacinação demorou mais tempo a implementar e a estabilizar, quer ao nível de Portugal quer da Europa. E sem a população europeia vacinada o nosso turismo não tem possibilidade de recuperar para níveis sustentáveis, e as nossas exportações que servem o consumo europeu de bens perecíveis ou de equipamento é negativamente afetado.

A Europa está, aliás, a fechar-se novamente, agravando ainda mais o seu consumo, agravando os negativos efeitos já enunciados.

O primeiro trimestre espera-se, pois, bem mais negativo do que eu esperaria podendo provocar uma quebra adicional de 2% a 4% na taxa de crescimento do PIB face às minhas expectativas iniciais. Assim, e acreditando que o resto do ano se manterá no percurso que anteriormente eu previra face ao ano anterior, a queda do primeiro trimestre poderá fazer regredir a minha expectativa de crescimento do PIB, em 2021, entre os 0,5% e os 1%.

Apesar de tudo, como a minha expectativa era moderadamente otimista, esta alteração não transformará o “meu ano de 2021” em mais um annus horribilis em comparação com o de 2020. A recuperação será mais retardada e demorada…

Quanto ao Plano de Recuperação e Resiliência, mantenho o que pensava: 2021 servirá para que António Costa e Governo continuem a fazer promessas que não vão cumprir este ano, e veremos se para os anos futuros o vão conseguir. Basta recordar as enormes obras públicas prometidas, da ferrovia ao aeroporto de Lisboa, que desde a entrada em funções Costa promete, mas não cumpre.

Por isso, mantenho, ainda, o que afirmei há três meses atrás: o ano de 2021 será um ano a duas velocidades e duas caras. Um primeiro semestre a sofrer desta descoordenada estabilização e reativação da vida económica na Europa, mas que eu espero que vá tendo resultados visíveis, e um segundo semestre com mais vitalidade. Primeiro porque em termos pandémicos o verão se mostrou benigno para a economia e para a sociedade, depois porque o plano de vacinação já deverá dar os seus frutos. Por último porque já sabemos muito mais sobre a doença e como nos defendermos dela.

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