Nos tempos da guerra em África, eram frequentes os casamentos por procuração, em que os nubentes concordavam com o contrato que iam assinar. No caso do “acordo” de paz promovido pelo presidente norte-americano Donald Trump apenas Israel foi consultado. Os palestinianos não foram ouvidos. É um atrevimento chamar acordo de paz a algo em que uma das partes não foi envolvida. Ultimato seria, porventura, o termo mais adequado para classificar uma iniciativa de paz dirigida apenas para Gaza e que exclui a Cisjordânia e Jerusalém.

O “acordo” resultou de uma discussão alargada entre a Administração norte-americana e dirigentes árabes, que se demarcaram do texto tornado público, alterado após um posterior encontro entre Trump e Netanyahu, por não levar em consideração as suas opiniões.

O documento refere en passant no seu parágrafo 19, a causa primordial da resistência palestiniana – a autodeterminação e a criação de um Estado palestiniano – como algo a atingir remotamente, pendente da reforma da Autoridade Palestiniana, apesar de isso ser um objetivo consistente com o direito internacional e de se encontrar em consonância com a decisão de 2024 do Tribunal Internacional de Justiça, a Resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas e o reconhecimento da Palestina por 157 países.

Apesar das sucessivas violações do “acordo” por parte de Israel – impedimento de entrada da ajuda humanitária através do fecho dos pontos de passagem, ataques à população civil – Telavive procurou pretextos para poder continuar os combates, fossem eles as dificuldades na entrega dos corpos dos reféns mortos ou os combates entre o Hamas e as milícias patrocinadas por Israel, no interior de Gaza, argumentando cinicamente com a necessidade de proteger os civis. Era do interesse de Israel, por motivos mais do que óbvios, violar o acordo.

Israel quer continuar a operação militar em Gaza porque, após dois anos de guerra, não atingiu os seus objetivos estratégicos: destruir o Hamas e expulsá-lo de Gaza. Israel não conseguiu acabar com a resistência, como também não conseguiu deslocar a população de Gaza nem afastar a ONU. Como se isso não bastasse, o texto do “acordo” prevê que ninguém será forçado a deixar Gaza. A limpeza étnica está comprometida.

Mas, apesar dos testes severos a que foi submetido, o Hamas não se rendeu e manteve a sua integridade funcional. Não é previsível, como referiu o dirigente do Hamas Izzat al-Rishq, que “aquilo que Israel não conseguiu alcançar por meio de genocídio, vá conseguir através de negociações”. Para atingir os objetivos a que se propôs, Netanyahu necessita desesperadamente de continuar a guerra até à vitória final.

Os conflitos na região tendem a terminar de forma confusa, sem vitórias e rendições claras. O chamado impasse doloroso acaba normalmente por prevalecer, conseguindo as partes atingir apenas parcialmente os seus objetivos. Normalmente, esses conflitos têm terminado com a intervenção dos EUA impondo condições que permitem satisfazer apenas alguns dos objetivos de Israel, sem serem soluções maximalistas definitivas.

Isso repetiu-se agora. Trump deu a mão a Netanyahu conseguindo fazer aquilo que este não estava a conseguir, ou a não empenhar-se devidamente: a libertação dos reféns. Contrariado, Netanyahu fez o que Trump lhe mandou, ciente de que para sobreviver politicamente tinha de continuar com os combates.

Segundo o Axios, Telavive informou Washington do que ia fazer, que lhe recomendou contenção. Por isso, a ação militar israelita de 19 de outubro, em resposta a uma alegada violação de cessar-fogo do Hamas, foi intensa, mas breve, enquanto simultaneamente recuava no corte do fluxo da ajuda humanitária a Gaza.

Estes desenvolvimentos levam-nos a identificar a existência de um alinhamento de objetivos estratégicos entre os EUA e Israel, mas de divergências ao nível tático: Telavive quer/precisa de continuar a guerra até à derrota do Hamas e à limpeza étnica de Gaza; Washington quer atingir o mesmo objetivo, mas por meios mais suaves, recorrendo à diplomacia, entenda-se, através da implementação do “acordo” de paz. Mesmo com as violações –  contidas – do cessar-fogo e do pé no acelerador, Netanyahu não conseguirá sabotar o plano de Trump e vai ter de viver com ele.

O “acordo” de Trump é pouco detalhado e deixa muitas questões em aberto que podem levar ao seu colapso, não sendo, claramente, o prelúdio de uma solução política permanente. Destacamos duas principais: o desarmamento do Hamas e a governação da Faixa de Gaza através da imposição de um mandato internacional.

Sem garantias de reconhecimento do Estado palestiniano, é pouco provável que o Hamas venha a desarmar-se. Não se prevê como é que o objetivo plasmado no parágrafo 19 do “acordo” venha alguma vez a ser considerado. Por outro lado, Netanyahu fez saber que as forças israelitas permanecerão em Gaza até ao Hamas desarmar, um dos aspetos omissos no “acordo”.

O Hamas estará disponível para se desarmar caso sejam cumpridas algumas condições, nomeadamente o reconhecimento do Estado palestiniano, mas, como já foi referido, esse reconhecimento não passa de uma quimera. Esse desarmamento significaria que o grupo renunciava à resistência armada, como fez a Autoridade Palestiniana há umas décadas, com os resultados conhecidos.

O “acordo” prevê ainda que o governo de Gaza ficaria a cargo de um grupo de tecnocratas palestinianos, sob a égide de Tony Blair, de má memória para a região e para os palestinianos, fazendo recordar os tempos do desastroso Mandato Britânico.

Embora a irrelevante Autoridade Palestina já esteja com os pés nos tacos para assumir no pós-guerra um papel no governo de Gaza, contando para isso com apoio dos países árabes, o Hamas não está disposto a permitir que um organismo internacional assuma o controlo de Gaza. Eles ainda existem e continuam a ser os atores dominantes em Gaza.

O futuro de uma possível governança palestiniana, não só em Gaza, como na Palestina, terá de passar primeiro por resolver as divisões entre as diferentes organizações palestinianas, o que não se afigura uma tarefa fácil.

Apesar de Israel ter tentado sabotar as negociações preparatórias da segunda fase da retirada das forças de ocupação, parece incontornável que terá de viver com um cessar-fogo permanente, porque Trump assim o quer.

As fases seguintes de implementação do “acordo” afiguram-se difíceis. Trump pressionou Netanyahu a entrar no cessar-fogo sem garantir o desarmamento prévio do Hamas — um objetivo central de Israel—, o que está a causar tensão entre eles. Além disso, o acordo prevê que Israel não volte a ocupar ou anexar Gaza (§ 16). Numa formulação minimalista, o “acordo” de Trump poderá parar após a primeira fase, ficando o conflito suspenso sine die.

Para pressionar Telavive e garantir que as fases seguintes se vão concretizar, Trump enviou na segunda-feira (20 de outubro) a Israel o seu genro Jared Kushner e o seu enviado especial para o Médio Oriente Steve Witkoff, para assegurarem que o plano de paz, que não descarrilou ainda devido a Trump, não vai ser sabotado. A tudo isto, junta-se ainda o estabelecimento em Gaza de uma força internacional de segurança.

Como disse Mohammed al-Astal, especialista em Médio Oriente, “o Hamas quer descer da árvore, mas de forma digna… Precisa de uma saída honrosa” e resistirá ao seu desarmamento de forma humilhante. Segundo ele, se o Hamas tivesse a oportunidade de se afastar do poder discretamente e de manter algum papel em Gaza, poderia aceitar seguir esse caminho. Este seria, porventura, um aspeto a explorar.

Está por saber se Telavive conseguirá atingir os seus objetivos maximalistas e se estará em condições de aceitar o custo em vidas humanas, o isolamento internacional e a exaustão social que a sua consecução provocará em Israel, sem esquecer a probabilidade de ficar presa a uma reocupação permanente. Está igualmente por ver se Trump vai manter as opções táticas assumidas perante as dificuldades de implementação do plano que já começou a ter pela frente. Goste-se ou não, a paz tem de ter em conta o Hamas. Sem isso não haverá casamento.