Um ‘crash’ nas bolsas?

Noventa anos depois do ‘crash’ de 1929 e com os principais índices bolsitas norte-americanos em máximos históricos, é normal que a pergunta surja: estamos na iminência de um novo ‘crash’? Provavelmente não.

Exatamente 90 anos após o crash de 1929, os principais índices bolsitas norte-americanos cotam em máximos históricos e muitas praças europeias a apenas escassos pontos percentuais de lhes seguirem os passos. Estamos na iminência de um novo crash? Provavelmente não.

Não há sinais objetivos de que estejamos perto de um crash. A euforia em torno das ações é quase inexistente e, segundo as métricas disponíveis, os níveis de alavancagem estão longe de níveis já observados. É verdade que os índices cotam em máximos, mas muitas das ações que os compõem não estão. Pelo contrário, sente-se o medo do que poderá resultar de uma desaceleração económica global. Claro que poderemos ter uma queda das ações, mas não um crash na perspetiva de que temos uma bolha e que está prestes a esvaziar. Não há, objetivamente, nada de factual que nos leve a essa conclusão.

No contexto atual, causam mais preocupação alguns aspetos do funcionamento do mercado que pouco têm a ver com os preços.

1. Há montantes significativos sob gestão passiva e de transação por algoritmos que podem ficar fora de controlo. E como os controlos regulatórios retiraram ao mercado muito do chamado trading proprietário, há menos liquidez efetiva e menos capacidade de tomar risco em muitos mercados, o que prejudica a correta formação do preço, sobretudo em ambientes de maior volatilidade;

2. A política monetária atingiu patamares de não convencionalidade que, a prazo, poderão criar dúvidas nos agentes económicos acerca da viabilidade dos sistemas monetários e da capacidade de a moeda em curso ser uma boa reserva de valor. Um eventual pico de ceticismo quanto à moeda poderá provocar crises;

3. Uma das tendências dos últimos anos é a emergência do shadow banking, atividade em que entidades que não são bancos concedem créditos volumosos a empresas que são, em média, de pior risco. Não só essa atividade é arriscada por si só – embora se não for alavancada, “só” impacta os investidores em causa – como tem havido a colateralização sob a forma de collateralized loan obligations (CLOs), que fazem lembrar os CDOs de 2008.

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