Os mais recentes dados do Banco Central Europeu mostram um paradoxo preocupante: o crédito às empresas na zona euro está a cair, enquanto o crédito às famílias continua a aumentar. À primeira vista, pode parecer um sinal de confiança dos consumidores: mais famílias a investir em habitação, automóveis ou consumo. Mas por detrás deste aparente otimismo esconde-se uma questão fundamental: quem vai garantir os rendimentos que sustentam esses empréstimos, se as empresas (que criam emprego e geram riqueza) estão a perder acesso ao financiamento?
O crédito às empresas abrandou para 2,9% em setembro, descendo face ao mês anterior. O movimento é tanto mais relevante quanto ocorre num contexto de taxas de juro ainda elevadas, custos de produção persistentes e margens pressionadas pela desaceleração económica. As pequenas e médias empresas, que representam mais de 90% do tecido empresarial português e europeu, são as mais penalizadas. O BCE confirma que foram precisamente as que sentiram um aumento nas taxas de juro, enquanto as grandes empresas até beneficiaram de algum alívio. Ou seja, são as empresas com menos poder negocial e menor capacidade de aceder a financiamento alternativo que estão hoje mais expostas.
Em contrapartida, os empréstimos às famílias cresceram 2,6%, atingindo o ritmo mais alto desde março de 2023. A leitura rápida é que há confiança: as famílias voltam a recorrer ao crédito, talvez animadas pela estabilização das taxas e pela perceção de que o ciclo de aperto monetário terminou. Mas essa confiança pode ser frágil se não estiver ancorada num tecido produtivo saudável.
A economia precisa de empresas financeiramente sólidas para pagar salários, investir e inovar. São elas que asseguram os postos de trabalho que permitem às famílias cumprir as suas obrigações financeiras. Se o financiamento empresarial seca, o risco de quebra no investimento e no emprego aumenta – e o que hoje parece dinamismo no crédito às famílias pode transformar-se amanhã em sobre-endividamento e incumprimento.
O equilíbrio entre o crédito ao consumo e o crédito à produção é, no fundo, o equilíbrio entre o presente e o futuro. Apoiar o consumo pode aliviar o curto prazo, mas é o investimento empresarial que sustenta o longo prazo. O desafio para o sistema financeiro e para os reguladores é garantir que a retoma do crédito às famílias não é feita à custa da capacidade das empresas de crescer e criar emprego. Porque sem empresas fortes, não há famílias solventes.


