Um futuro para a saúde mental

Os problemas mentais não são apenas problemas individuais, são problemas da comunidade. Urge um novo diálogo entre a Psicologia e disciplinas das ciências sociais como a Economia e a Política.

A saúde é um bem pessoal mas também coletivo e transmissível. A doença é um problema ou um desafio com essas mesmas características. A dimensão mental da saúde é frequentemente subestimada e mal compreendida. Tanto a investigação, como o diagnóstico e o tratamento nesta área refletem a sociedade que somos, a economia em que vivemos e a ideologia dominante.

No tempo histórico que nos cabe viver podemos comprovar que o foco é colocado na componente individual, na procura das causas genéticas, químicas e comportamentais das patologias e na invenção, prescrição e venda de fármacos para o tratamento. Os Estados e sobretudo a indústria farmacêutica investem muito dinheiro nessa direção. As causas sociais e económicas dos problemas de saúde mental não têm a merecida atenção e não se elaboram nem se financiam devidamente estratégias de intervenção e tratamento que atuem nessa vertente.

No entanto, como muitos profissionais sabem e estudos comprovam, os fatores sociais e económicos contribuem decisivamente para as doenças mentais. Há uma relação significativa entre condições sociais e económicas e transtornos mentais. A desigualdade, a pobreza e a competição geram doenças mentais. A dificuldade em encontrar sentido e a falta de comunidade também. O mundo em que vivemos, o trabalho que realizamos, o emprego que não temos ou perdemos, as dívidas, os abusos e negligências, as opressões estruturais e culturais são muitas vezes as razões fundamentais para as patologias e disfunções psicológicas.

Os valores e a ideologia dominante também contribuem decisivamente para a doença mental. Há um corpo de investigação psicológica que apoia a ideia que o sistema de valores preocupado com possessões materiais destrói a felicidade e a paz mental. Vários estudos têm mostrado causalidade entre desejo de bens materiais, falta de empatia e envolvimento com os outros, e infelicidade. Podíamos também abordar o impacto que a obsessão com o desenvolvimento e o desempenho têm na saúde das pessoas.

Surgem alertas para a epidemia de doenças mentais que alastra em vários países ditos desenvolvidos. O que revela que o sistema social e económico está no seu centro em desacordo com o bem-estar e felicidade das pessoas. Os problemas mentais não são apenas problemas individuais, são problemas da comunidade. Precisamos, por isso, de um novo diálogo entre a Psicologia e disciplinas das ciências sociais como a Economia e a Política. Um novo modelo integrado de saúde mental e uma nova economia e política.

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