Um Irão irado não é bom para ninguém

Cabe à UE, em conjunto com China e Índia, salvar o acordo nuclear, de forma a não encurralar ainda mais o gigante persa. A última coisa de que o Médio Oriente precisa é de mais uma guerra.

O ataque da passada quinta-feira a dois petroleiros no Golfo de Omã é mais um incidente a escalar as tensões do Médio Oriente, uma região onde a paz parece ser difícil de encontrar. É o segundo incidente deste tipo no último mês e colocou as várias potências com interesses na região numa discussão sobre a autoria e responsabilidade das explosões, sendo que o Irão e os EUA são os principais actores, atirando culpas um ao outro.

A estratégia diplomática (se é que se poderá apelidar de “estratégia”) da administração Trump, que passa muito pela intimidação e abandonos unilaterais de acordos estabelecidos antes do seu mandato, tem sido eficaz em encurralar o Irão, particularmente pela reposição de sanções económicas, que afundaram a economia persa numa recessão profunda, aliada a valores escandalosos de inflação.

Este regresso à política de sanções terá sido visto com grande agrado por israelitas e sauditas, que desde o início se opuseram ao acordo nuclear iraniano – especialmente os sauditas, que competem no mercado do petróleo com o Irão, estando inclusivamente numa clara guerra de preços. Mas a intimidação americana não se restringe à asfixia económica: numa acção sem precedente histórico, Washington declarou a Guarda Revolucionária Iraniana como uma organização terrorista, uma designação nunca antes aplicada a uma força armada de um país. Curiosamente, ao mesmo tempo que acusam o Irão de financiar e promover o terrorismo, os norte-americanos vão vendendo armas aos sauditas, um país onde a liberdade impera e os radicalismos religiosos estão, claramente, longe de ser um problema. Coerente.

Se este “bullying” me parece exagerado e contraproducente na maioria dos casos, tal torna-se ainda mais verdade quando o consenso internacional era de que o Irão não estaria a violar o acordo nuclear que o impedia de enriquecer urânio aquando da saída dos EUA; tal já não será tão claro actualmente, dado que o próprio país já disse que os limites às reservas de urânio e água pesada impostos pelo pacto serão ultrapassados no final do mês.

A atitude norte-americana, e particularmente do Sr. Trump, aparenta portanto ser um reflexo, por um lado, dos desejos e interesses dos seus aliados mais próximos (sim, porque, durante a administração Trump, Israel e Arábia Saudita têm sido e continuarão certamente a ser parceiros prioritários, em detrimento, por exemplo, da UE) e, por outro, da quase obsessão em apagar todo e qualquer legado do seu antecessor, algo que a base que apoia o actual Presidente valoriza e aprecia – e que melhor legado para destruir do que a maior proeza diplomática de Obama?

Apesar das afirmações do Presidente americano de que “acabou com a ameaça nuclear da Coreia do Norte”, os factos demonstram que Kim estará tão determinado a transformar o país numa potência nuclear como o pai e o avô. E, por muita pompa que gere um encontro televisionado entre os dois líderes, os avanços para uma efectiva desnuclearização da península foram escassos ou quase nenhuns.

Na realidade, os norte-coreanos até terão tirado os maiores dividendos, visto que a presença militar norte-americana no vizinho do sul diminuiu substancialmente a troco de pouco ou quase nada (apesar de não testar mísseis de longo alcance desde o final de 2017, ainda no mês passado foram testados mísseis de curto alcance e os exercícios militares continuam a ser uma rotina para a DPRK). Mas o caso norte-coreano parece ser visto como um exemplo a seguir por Trump, para quem a estratégia de intimidação é sempre a primeira abordagem a seguir.

Entretanto, o preço do petróleo ressentir-se-á, especialmente se os incidentes no Golfo de Omã continuarem, o que obrigaria a uma alteração na rota de exportação petrolífera a seguir. Cabe agora à UE, juntamente com China e Índia (dois dos parceiros mais importantes do governo de Teerão), tentarem salvar o acordo, de forma a não encurralar ainda mais o gigante persa.

Há quem veja neste impasse demasiadas semelhanças com as tensões durante a administração Bush que levaram à invasão do Iraque (incluindo a presença de John Bolton, o actual Conselheiro de Segurança de Trump e um dos arquitectos da guerra que mais baixas causou na história americana). Esperemos para ver o desfecho – e esperemos também que seja pacífico, pois (mais) uma guerra é a última coisa de que o Médio Oriente precisa.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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