Há longos períodos em que parece que pouco acontece e todos aguardamos por aquele dia especial em que tudo pode mudar. A arquitetura vive nesse constrangimento prolongado: a tecnologia a acelerar, as evidencias de um novo paradigma climático a acontecerem, a demografia a deslocar e a burocracia quase imutável, mas as mudanças estruturais tardam.

Entretanto anunciam um novo paradigma, especificamente através da inteligência dita artificial que promete um impacto sem precedentes, não apenas desenhar mais rápido ou simular melhor, mas sim alterar métodos e transformar os meios humanos e técnicos. Em simultâneo, acautelam-se regras e reivindica-se a salvaguarda ética. Solicita-se que se integre no ensino e na prática, sem abdicar do que nos distingue: a autoria humana como indispensável e a ferramenta como prótese do pensamento.

O mercado do imobiliário e da construção continua a comprimir a atividade profissional do arquiteto, exige mais por menos, empurra riscos técnicos e jurídicos e requer que as criações se aproximem dos mecanismos pré-feitos de quem se habituou a adquirir “templates” e customizar parâmetros. Nos interstícios da mudança em curso, a precarização convive com a retórica da excelência. Muitos jovens arquitetos hesitam entre ficar, mudar de país ou mudar de profissão. Os menos jovens resignam-se ao facto de não existirem honorários de referência – porque passaram a ser estritamente proibidos – como se o conhecimento prévio e público de custos na prestação de um serviço essencial à população fosse um crime de lesa-pátria, ou melhor dito, de lesa europa.

Enredados entre uma legislação complexa e uma burocracia que não é neutral: custa tempo, dinheiro e qualidade – os números indicam que as condições materiais do trabalho do arquiteto pioraram nos últimos 20 anos, e em Portugal pioraram mais do que nos restantes países da União Europeia. Paradoxalmente, a profissão continua a ser atraente para os estudantes e a merecer o esforço de três dezenas de milhares de profissionais. E prossegue obtendo reconhecimento nacional e internacional.

É neste contexto que nos dias 13, 14 e 15 de novembro, em Évora, os arquitetos se propõem discutir em modo de congresso, a “inteligência essencial”. Assim, partindo da incontornável mecanização incremental, o debate procura indagar um dilema: Estarmos apenas diante de uma mudança de paradigma ou, mais do que isso, aproxima-se uma revolução?

Entre os arquitetos a discussão não é nova, em “Vers une Architeture” Le Corbusier, à cerca de um século atrás fazia uma reflexão que encontra similitudes quando lançou o repto de “Architecture ou Révolution”, sublinhando que em todos os campos da indústria os novos problemas emergem e, por causa deles, surgem novas ferramentas capazes de os resolver. Mas acrescenta que, se estas se apresentarem contra o passado, aí temos revolução. Outros pensadores, como Hannah Arendt, insistem na ideia de que a revolução, quando existe, é consequência da desintegração do poder ou dos poderes públicos. Será esse o caso do nosso tempo? Ou o desafio que julgamos pertinente debater é exatamente a capacidade de, através da arquitetura, conseguirmos distinguir o fundamental do superficial?

A proposta da Ordem dos Arquitectos é que é necessário um compromisso entre sociedade e arquitetura, colocando a bissetriz nos conceitos ou palavras que representam a génese do trabalho do arquiteto: o Natural, o Ambiental, o Social, o Global, o Legal, o Procedimental, o Institucional, o Emocional, o Corporal, o Sensorial, o Profissional, o Laboral, o Salarial, o Territorial, o Espacial, o Habitacional, o Cultural e o Atual. E embora o risco seja enunciar o banal, o desafio é que todos os intervenientes sociais saibam definir, para todos nós, o “Essencial”.