Um Padre nosso

Parece-me claro que Melícias, num tom pouco católico, lançou um desafio ao Governo, e em defesa do amigo Tomás Correia, que até soa a chantagem.

Gostava de ler o “desabafo” do presidente da assembleia geral da Associação Mutualista Montepio Geral, o popular Padre Melícias (“não vai ser um ‘secretariozeco’ de Estado ou um ministro qualquer que agora vai correr com uma administração legitimamente eleita”), como um assomo de independência. Num outro país, sê-lo-ia com certeza. Tipo: o Governo que desempenhe a sua missão, faça leis e defina políticas, mas deixe a sociedade funcionar porque o associativismo é livre e quem manda nele são as pessoas. É numa sociedade destas que acredito. Ao contrário, abomino regimes com governos que gostam de se meter em tudo, desde fazer negócios a nomear ‘boys‘ para as administrações – mesmo das empresas privadas, que assim, recebendo pessoal do partido do turno, acreditam poder estar em condições de viver melhor.

Mas não. O Padre Milícias é um ‘independente’ do PS há tempo demasiado para termos fé num desabafo isento de pecado. E, se a tivéssemos, bastaria olhar para o cuidado que Tomás Correia, também presidente da assembleia geral da Câmara socialista de Pedrógão Grande, teve em rodear-se da gente certa para logo de seguida darmos essa fé como perdida. Repare-se: na direção da associação do Montepio brilha Idália Serrão, vinda expressamente de deputada do grupo parlamentar do PS, no qual era vice-presidente. No chamado conselho geral, e recrutados a partir da lista própria, estão Luís Patrão, ex-chefe de gabinete de José Sócrates, e Maria de Belém, antiga presidente do partido no consulado de António José Seguro. Na comissão de honra da recandidatura de Tomás Correia estiveram outros socialistas destacados (como Carlos Zorrinho), mas parece-me justo destacar Diogo Lacerda Machado, o amigo operacional do primeiro-ministro que voou para a TAP. Ou seja, o pleno de todas as ‘sensibilidades’ cor da rosa!

É por isso que, correndo o risco de pecar, não acredito na espontaneidade do ‘desabafo’ de Melícias, grande amigo de Guterres (e do Presidente Marcelo, já agora), um franciscano a quem Deus, e não apenas pela reforma de 7.500 euros, não tem permitido viver de acordo com os votos de pobreza devida à Ordem. Antes pelo contrário, parece-me claro que Melícias, num tom pouco católico, lançou um desafio ao Governo, e em defesa do amigo Tomás Correia, que até soa a chantagem.

Bem sei que em Portugal a memória é curta mas ainda toda a gente se lembra que Vieira da Silva, o tal ministro do tal ‘secretariozeco’, tentou colocar 200 milhões de euros da Santa Casa da Misericórdia a subscrever 10% do Banco Montepio e obstar a tudo aquilo que se sabe. Mesmo que a operação tenha acabado mais discretamente, com a Santa Casa a unir-se a outras 51 entidades sociais (que também devem obediência ao Estado) para ficar com 2% do capital, investindo no seu caso uns míseros 75 mil euros, vale a pena lembrar essa intenção inicial. E nem esmiucemos sequer, para não cansar, a alteração do regime fiscal que permitiu ao Montepio receber 800 milhões em créditos fiscais. Levemos isso à conta de podermos evitar outro descalabro bancário como os que já vimos no BPN, Banif, CGD ou BES, se tal for possível.

O que registo, para além das palavras pouco próprias de um sacerdote cristão, é o tal desafio ao Governo, que fugiu de averiguar da idoneidade bancária de Tomás Correia, depois da multa do Banco de Portugal (remetendo essa apreciação para a Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões), como dizem que o diabo fugiria da cruz. Na ‘Democracia’ portuguesa, já só é cego quem fizer questão de o ser.

Recomendadas

Comendadores sem capital

Um país sem capital torna-se dependente dos governos e subserviente perante os estrangeiros. É este o nosso drama, do qual só conseguiremos sair com mais trabalho, menos ‘esquemas’ e uma visão estratégica de longo prazo.

O peão

Dívidas e peões são a consequência da ditadura democrática silenciosa, onde o poder político procura perpetuar-se com o dinheiro dos contribuintes. Resta saber até quando.

A caixa de Pandora

Não existe nota que a CGD tenha  sequer tentado reagir contra os que, pelo seu punho, autorizaram os ditos empréstimos em moldes que nunca seriam aceites a um comum mortal.
Comentários