Um passe para lado nenhum

Situações como as que se vivem nos transportes fluviais com a margem sul anulam todos os esforços de redução dos preços dos passes sociais.

A facilitação de transportes que consigam combinar qualidade e rapidez de acesso aos grandes centros é uma variável essencial para o desenvolvimento das grandes cidades nos dias de hoje. Lisboa não é exceção e, no atual contexto, em que muitas famílias procuram novas localizações financeiramente mais comportáveis na sequência da escalada de preços no centro da cidade, urge construir uma rede de acessibilidades que seja funcional, acessível a todos, e que seja fiável.

Esta é a realidade por toda a Europa, e que vai muito mais além da preocupação ambiental relacionada com o excesso de carros a circular dentro da cidade. Todos os dias, cerca de 500 mil pessoas deslocam-se para Lisboa para trabalhar, quase que duplicando a população residente do concelho da capital e, para estes trabalhadores, as disrupções nos transportes públicos trazem transtornos que depois se transferem para as empresas e, consequentemente, para a economia. Sobretudo quando os transtornos ameaçam transformar-se no novo normal de circulação.

Situações como as que se vivem nos transportes fluviais com a margem sul deixam cidades sitiadas, e atiram para o caixote do lixo todos os esforços de redução dos preços dos passes sociais.

A expansão natural de Lisboa depende da integração da área metropolitana, sobretudo a sul

Nos últimos anos, os preços das zonas residenciais em Lisboa têm vindo a subir a um ritmo assustador, sendo que terão quase duplicado em média desde 2010. De acordo com o INE, em 2018 os preços terão subido quase 20% para valores médios em torno dos 3.010 euros por m2, embora nas zonas mais centrais atinjam rapidamente valores médios acima dos 4.500 euros por m2. Valores estes que começam a deixar muito pouco espaço de manobra para as famílias de classe média aí poderem viver, uma vez que os salários médios em Portugal se mantêm praticamente inalterados: pouco mais que 1.100 euros por trabalhador.

Isto significa que o poder de compra de uma família com filhos e dois ordenados acabará por procurar casa em áreas da periferia de Lisboa, onde os preços se encontrem ainda acessíveis e disponham de comutabilidade fiável. Esta tendência também aponta claramente para um potencial migratório para alguns concelhos ribeirinhos da margem sul, onde estão os preços mais atrativos da área metropolitana, e o comboio e transportes fluviais podem garantir uma deslocação de até 30 minutos ao centro da cidade.

Investir em equipamentos e soluções complementares para reduzir o tempo de comutabilidade

Existem muitos estudos que comprovam que reduzir o tempo de ligação entre cidades dentro de áreas metropolitanas tem impacte e ajuda a criar valor económico. A forma de debelar a dependência de veículos no centro da cidade de Lisboa passa, efectivamente, por apostar em novas soluções de interatividade entre fornecedores de serviços de transporte públicos e os privados (as UBER, LIME, ou similares), mas sem perder de vista o aumento da eficiência dos tradicionais meios de transporte: autocarro, comboio, metropolitano e ligações fluviais.

Equipamentos e enquadramento que permitam reduzir ainda mais os tempos de conexão e garantir capacidade de resposta ao esperado aumento de utilizadores, mas que também representem um atrativo para que as famílias possam avaliar a sua real mobilidade entre o local de residência e o emprego.

Promover a concorrência e a iniciativa, legislar a favor dos utilizadores

As situações que se têm vivido nos últimos anos em casos como o da Soflusa, com greves e falhas ao nível da disponibilidade dos equipamentos de transporte, crescem em impacto negativo à medida que se tornam recorrentes. O novo normal é ter maus transportes públicos mas baratos, muitas vezes deixando as cidades sitiadas. Torna-se necessário incluir maior legislação que proteja os utentes dos abusos em que se parecem ter transformado algumas destas greves, e isso passa também por promover mais concorrência e iniciativa privada em segmentos muito protegidos, como as ligações ferroviárias e fluviais.

A médio prazo serão estas soluções de liberalização que podem oferecer alternativa e fiabilidade aos transportes, a par de uma legislação que proteja seriamente os direitos dos utilizadores de interesses corporativos.

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