Um salto no escuro

O problema das eleições antecipadas é que não há garantias de delas poder sair uma solução de governo estável, qualquer que seja o partido mais votado.

A forma como decorrem as negociações entre o Governo e o PCP para a viabilização do Orçamento do Estado para 2022 aponta para uma cada vez maior probabilidade de eleições antecipadas. A próxima semana dirá se o país vai ou não a votos no início de 2022, mas parece claro que António Costa e o PS podem considerar mais vantajoso ir já a jogo do que aguentar mais dois anos com o Executivo cada vez mais fragilizado, acossado e dividido.

O problema desta estratégia reside no facto de não existirem garantias de que dessas eleições antecipadas possa sair uma solução de governação estável. O PS poderá vencer as eleições antecipadas mas muito provavelmente ficará abaixo do limiar necessário para a maioria absoluta, o que significa que precisará novamente do apoio do PCP, do Bloco e do PAN para conseguir formar Governo. E como conseguirá fazer isso se, entretanto, para justificar a necessidade de eleições antecipadas, deixar cair todas as pontes com esses partidos?

António Costa encontra-se num dilema estratégico em que, por um lado, precisa de deitar culpas à esquerda e de lhe roubar votos para conseguir uma (difícil) maioria absoluta, sabendo ao mesmo tempo que muito provavelmente voltará a precisar dela para formar um novo Executivo. Até porque no PSD – onde os barões, sentindo o cheiro a poder, saíram do recolhimento – dificilmente haverá abertura para um entendimento com o PS, quer com Rio, quer com Rangel. O mesmo poderá acontecer, em termos de ausência de uma solução governativa estável, se o PSD vencer essas eleições.

Olhando para a economia,  a  imprevisibilidade que costuma acompanhar as crises políticas não costuma ser positiva para o investimento. Isto é particularmente verdade num ano em que Portugal deverá continuar a recuperar da crise e começará a aplicar as generosas verbas do Plano de Recuperação e Resiliência, tal como o Presidente da República notou. Outros países, como a Alemanha ou a Bélgica, costumam ficar meses com governos de gestão e sobrevivem sem danos de maior, mas não dependem tanto como Portugal dos fundos europeus para a recuperação da sua economia. Por outro lado, não é líquido que um Governo de gestão não possa aplicar os fundos do PRR.

Em todo o caso, a chave estará no nível de previsibilidade que possa existir. Quaisquer que sejam os desenvolvimentos a nível da situação política, para mitigar o impacto na economia é necessário que os agentes económicos saibam o quanto antes quais os diferentes cenários com que poderão contar.

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