As vítimas têm sempre razão. Uma campanha, um livro, uma série

Pensámos demasiado o ser-se vítima da maneira como um homem branco seria vítima. Mas há formas de ser vítima que as maiores vítimas sofreram, tendo, no entanto, sido espoliadas da possibilidade de se conceberem dessa maneira.

Uma campanha de equívocos

Uma campanha antitabágica deve incentivar, encorajar e apoiar pessoas a libertarem-se de um vício que as coloca numa posição de fraqueza e de incapacidade de reagir. E se é uma campanha dirigida a mulheres, por ser entre as mulheres que mais tem aumentado o consumo de tabaco, então é nesses termos que deve ser feita. O filme da campanha que se tem discutido nos últimos dias – “Uma princesa não fuma!” – é francamente criticável, pois, além de culpabilizar, menoriza a mulher, reiterando os piores estereótipos da diferença de géneros. Por que razão se coloca uma mulher que desejaríamos que deixasse de fumar a afundar-se em sentimentos de culpa? Por que razão, em contraste, é apresentado um marido como a encarnação da razoabilidade, assim legitimado a chamar a atenção, a conduzir e a fazer valer toda a autoridade da razão? Não é assim que se vence uma posição de fraqueza e a incapacidade de reagir.

Mas o pior é que esta culpabilização é, para além de tudo, uma culpabilização da mulher enquanto mãe. És mãe, logo és culpada por dar o exemplo errado à menina de quem se espera que venha, também ela, a ser mãe. “Princesa”, que pode dizer tantas outras coisas, e até ser palavra das mais bonitas canções, é neste contexto um vexame, pois implica esperar de uma criança um futuro predeterminado, também ela destinada ao papel da maternidade, para isso educada, nos seus valores, nos seus gestos, nos seus hábitos, na sua vida. A culpa daquela mãe nem está tanto em fumar, mas em não cumprir o seu papel de transmissora do mesmo papel à filha. Nesta mensagem, a que o filme chama “opte por amar mais”, ouvimos um eco da chantagem emocional dos sectores da sociedade que têm feito da exigência do “amor” a porta de entrada para a culpabilização, para o constrangimento das liberdades e, fosse-lhe dada porta franca, para o policiamento. Neste quadro, o apoio institucional por organismos públicos ligados à Saúde a esta campanha antitabágica é inaceitável. Aliás, nem se percebe que estratégia de comunicação leva o Serviço Nacional de Saúde a apoiar uma curta-metragem de 16 minutos e meio que não terá, obviamente, qualquer outro espaço de difusão além do que lhe proporciona a polémica em que se envolveu. O amadorismo do filme não justifica um minuto sequer de atenção, mas a displicência pouco responsável com que lhe foi conferida chancela pública tem de ser escrutinada.

Finalmente, vir o realizador da curta-metragem queixar-se, no seu mural de Facebook, de quem o criticou, logo disparando com a classificação de que se trata de um grupo pseudofeminista, é revelador do tipo de agenda que por ali vai. E pode ir, que não nos passa pela cabeça corrigir quem quer que seja. Mas os organismos do Estado é que não podem.

Nada disto tem que ver com alegadas ditaduras do politicamente correcto nem com alegados pseudofeminismos. Trata-se apenas de exigir aos organismos públicos seriedade na forma como encaram os objectivos com que se comprometem. Esta campanha baseia-se numa estratégia de comunicação ineficaz e civicamente errada.

Apesar de tudo isto, não devem de maneira nenhuma seguir-se duas implicações que se lêem numa crónica bem intencionada que Miguel Esteves Cardoso dedica ao tema (“Abaixo os ‘princeses’”, “Público” de 3 de julho). Primeiro, que chamarmos “princesas às meninas é uma maneira de consolidar a desigualdade e de garantir que morremos estúpidos”. Morreríamos estúpidos se não fôssemos donos dos usos que fazemos da linguagem e das palavras. Bania-se a ideia de princesa, deixávamos de dar a ler a Rapunzel e a Branca de Neve às crianças com os seus 3 ou 4 anos. Como se não fosse sobretudo a subversão dos papéis, a começar pelo de princesa, o que há que propor às meninas, valendo o mesmo para o papel de príncipe, forte, estável, como aquele tipo insuportável do filme, para os meninos. Em segundo lugar, que a CIG existe “para nos emendar a mão”, por causa de “uma educação que não tivemos”. A CIG existe para emendar a mão ao Estado e aos seus organismos, não às pessoas. Quisesse a mão da CIG tapar a boca das pessoas e ainda lha mordiam bem mordida.

Um livro de equívocos

O filósofo brasileiro Francisco Bosco editou há não muitos meses, em Portugal, um livro com um dos títulos mais equívocos que já se viu:  “A vítima tem sempre razão?” (Tinta-da-china, 2017). Lê-se ainda no subtítulo “Lutas identitárias e o novo espaço público brasileiro”, o que ajuda a contextualizar a questão, mas não a decifrá-la. O próprio autor afirma a dado passo, na sua introdução, que a vítima ter sempre razão não é uma premissa, é uma tautologia. Mas se o reconhece por que duvida? Duvidar de uma tautologia é um absurdo. Será que se pretende fazer notar que ocasionalmente uma vítima pode não ter razão naquela que seria a razão relevante para se reconhecer como vítima? Se sim, isso não justificaria o título de um livro. Ou será que se pretende surpreender, apontar e expor a existência de uma vitimização sistemática, não apenas ocasional, uma espécie de indústria de legitimação e poder a partir de um lugar fabricado de vítima? Isso sim justificaria um título, na verdade um título tremendo: que desqualifica a vítima de forma sistemática. Mas será realmente algo tão tremendo o que está em causa no novo espaço público? Este novo espaço público digitalizado é mais agressivo, menos mediado, pode até desintegrar a própria ideia e espaço público. Tudo certo. Simplesmente, não é claro que esse diagnóstico que todos vamos fazendo, no Brasil, nos EUA, na Europa, tenha mais que ver com as lutas identitárias do que com todos os outos debates no espaço público. E menos ainda que possa justificar a questão tremenda do título, que convida para dentro do debate todos os equívocos.

As referências teóricas mais destacadas do livro surpreendem por ficarem aquém do esperado. Falando-se de lutas identitárias, esperaríamos referências que trabalhassem a fundamentação do multiculturalismo. Contudo, é Kant, o magnífico filósofo do século XVIII que nunca saiu da sua Konisgberg, que é chamado à colação. Como poderia Bosco achar que o imperativo categórico seria resposta capaz quando Kant, que nem sequer é dado a contradições, não viu nele nenhum impedimento à consideração da existência de raças inferiores? E nem uma linha sobre a antropologia kantiana aparece. A verdade é que Kant, como a maioria dos filósofos do seu tempo, exprimiu opiniões racistas e ofereceu um conceito de “raça” útil a quem construiu depois o racismo (Robert Bernasconi tem um estudo sobre o tema em “Race”, Blackwell, 2001). O que não significa que Kant tenha produzido uma filosofia racista, nem que não nos tenha proporcionado algumas boas ferramentas para desligitimar o racismo. Mas, a sério, é com Kant que vamos enquadrar o debate das lutas identitárias?

Mesmo a referência a John Rawls, outro gigante da filosofia, faz pouco sentido se em seguida se ignora toda a crítica comunitarista ao seu princípio da liberdade, apontado como uma concepção atomista de indivíduo, desencarnado da comunidade, uma concepção ligada a uma ideia de bem social mínima. Enfim, precisamente a que melhor veste o fato do homem das sociedades demoliberais. Onde se ouvem neste livro Michael Walzer, Charles Taylor ou Michael Sandel, já que se faz o panegírico do princípio da liberdade de Rawls num contexto em que se debatem, como vem no subtítulo, as lutas identitárias, as lutas pelo direito à diferença? Tanto mais se estranha quando é feita uma obsessiva atribuição de influência à “radfem” norte-americana Andrea Dworkin no alegado radicalismo identitarista que pontua no novo espaço público brasileiro, isto apesar de Dworkin ter morrido quando ainda mal existia Facebook, e muito menos Twitter, WhatsApp e afins online. Mais grave é que a supostamente influente atribuição a Dworkin de que toda a relação heterossexual é abusiva (p.17), uma espécie de proto-violação, foi desmentida pela própria autora, sem que a isso o autor faça alguma menção. Raia o escândalo intelectual quando esse disparate é a chave que, logo na introdução do livro, explica o seu título — “Se a mulher não tem autonomia, qualquer relação heterossexual é abusiva. E assim a vítima tem sempre razão” (p. 18).

As referências de Bosco, não é injusto dizê-lo, foram tão somente as das democracias liberais ocidentais, aliás Rawls é a esse respeito muito honesto e diz explicitamente ser esse o quadro para os seus princípios de justiça. E não há nada de mal em Bosco lê-las e evocá-las nos seus textos, simplesmente estão longe de ser as adequadas para discutir o enquadramento das lutas identitárias. A não ser que se queira dar uma visão filosoficamente conservadora, leia-se, universalmente eurocêntrica, branca e masculina, que faz muito pouca justiça ao vivo e bem reflectido debate filosófico existente sobre o tema.

Uma série televisiva, antídoto para uma série de equívocos

“Handmaid’s tale” é uma distopia feminista escrita e publicada na década de 80 do século passado. Para um público mais generalizado, de que faço parte, só a adaptação a série televisiva deu a conhecer o romance de Margaret Atwood. E logo uma distopia absolutamente fora de série, que nos faz tremer diante da visão de até onde se pode ir num caminho onde basta que vingue uma determinada racionalidade intrínseca. Como em todas as boas distopias, Atwood faz a meticulosa descrição de um mundo, mas neste caso é a mulher subjugada à sua condição reprodutora o centro desse mundo. Dificilmente a imaginaríamos pensada e escrita por um homem, talvez apenas porque dificilmente um homem seria capaz de imaginar os seus termos concretos. Nisto, o lugar de fala, não devendo ser nunca uma condição de exclusão, é uma exortação a acompanhar os lados inimagináveis de terror que um género deixou ao outro. Temos muito a consciência da desumanidade, e bem, mas temos pouco outra consciência de desumanidade que não a experimentada por um homem. Também porque os grandes autores de distopias foram, até Margaret Atwood, homens. Até na condição de vítima, as vítimas não puderam sempre ser vítimas no sentido exacto em que o eram. Pensámos demasiado o ser-se vítima da maneira como um homem branco seria vítima e em seguida universalizámos essa experiência. Mas há formas de ser vítima que as maiores vítimas sofreram tendo no entanto sido espoliadas da possibilidade de se conceberem dessa maneira. É essa devolução que Atwood faz. E nem sequer o inimaginável em “Handmaid’s tale” arranca de um especial prodígio de fantasia, mas de medos subterrâneos muito reais, como se bastasse escavá-los e mostrá-los. Assim se responde à pergunta o que é ser vítima sendo mulher. Por exemplo, ao se pretender, como quis uma campanha apoiada por organismos públicos de Saúde, constranger as mulheres à sua condição de reprodutoras, ainda que se disfarce o constrangimento com uma retórica do amar mais, na verdade do amar de menos de que se é culpada. Porque sim, identificados os modos de ser vítima, a vítima tem razão, sempre, por princípio.