Uma campanha triste

À exceção de Marcelo Rebelo de Sousa, a política portuguesa confirma-se completamente refém dos partidos e dos seus líderes.

1. Marcelo Rebelo de Sousa está virtualmente reeleito desde 13 de maio do ano passado. Nesse dia, numa visita à Autoeuropa, apanhando de surpresa o país, que não com certeza o futuro candidato, António Costa garantiu-lhe a rendição ideológica. Estávamos em pleno primeiro confinamento, plateia máxima.

Desde aí, Marcelo passou a poder sujeitar-se a testes sucessivos à saúde sem se preocupar com a segunda volta; e Costa esconjurou o perigo de poder perder umas eleições para a ‘direita’, mesmo que ‘social’. Não esquecer, ainda, que, em Portugal, o candidato em funções ganha sempre.

O negócio foi bom para ambas as partes, como manda a definição – mas, sobretudo, para o PS, que evitou bater-se com a popularidade do Presidente. Ponto final. O parágrafo será domingo.

2. Tivemos a campanha presidencial mais pobre desde 1974. A política confirma-se completamente refém dos partidos e dos seus líderes. São eles que põem e dispõem mesmo nas eleições presidenciais, nas quais seria suposto prevalecer o percurso de vida e a capacidade para o cargo. Só o Presidente escapa, pela sua dimensão pessoal e intelectual, a esta lei – e isso viu-se nos debates.

Para além de Marcelo Rebelo de Sousa, o avanço de Ana Gomes também é um produto da vontade pessoal – ótimo para o PS, que trava a entronização do Presidente dentro de limites suportáveis pelo partido e evita o reforço dos candidatos à sua esquerda. O apoio da Juventude Socialista a Ana Gomes prova isso.

Em Vitorino Silva encontramos o folclore a respeitar, embora sem a graça de há quatro anos.

Tudo o resto, os outros candidatos, são necessidades partidárias. De Marisa Matias a André Ventura, passando por João Ferreira e Tiago Mayan, os quatro estiveram apenas a delimitar território, a fazer campanha mesmo quando ela, face à pandemia, pareceu uma bestialidade sem sentido e imprópria de um tempo já digital.

3. Os debates televisivos mostraram muitos excessos. André Ventura fez o papel de provocador-mor, mas os piores erros vieram de Ana Gomes e Marisa Matias.

Não é normal que uma diplomata contrastada (Ana Gomes) tenha sugerido a comparação de Ventura com Hitler, um dos grandes criminosos da História.

E é esclarecedor que Marisa Matias consiga afirmar que não daria posse a alguns governos se a vontade popular não coincidisse com a sua. É caso para dizer: obrigado pela franqueza.

Ventura e Mayan, cada qual à sua escala, devem cumprir ou exceder os objetivos. Os outros não, de todo.

4. A defesa da atual Constituição, como se ela já não tivesse sido revista sete vezes(!), esbarrou nos últimos dias contra o eventual adiamento das eleições.

É pouco inteligente, hoje e sempre, olhar para qualquer texto como se ele fosse uma vaca sagrada. Isso espera-se da boca de personagens datadas, como as que ainda ocupam alguns dos principais postos do Estado, é verdade, mas é uma dialética que a sociedade portuguesa deve deixar para trás.

A Constituição é para cumprir; e sempre para adaptar. O resto é cegueira ideológica.

5. Num tempo atípico pelo terror na Saúde, o voto antecipado em mobilidade atraiu quase 250 mil eleitores. Desse ponto de vista foi fantástico. De todos os outros foi catastrófico. Aquelas filas, desvalorizadas pelo ministro Eduardo Cabrita, são reveladoras da incapacidade da máquina política e administrativa. E o paradigma é o senhor Baptista, cujo rosto encabeça os boletins de voto sem que tenha havido uma demissão.

Estamos em vésperas de uma abstenção histórica e quem olha estas movimentações à distância percebe o muito que a Europa faz por nós. Venha segunda-feira.

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