Uma data de ferro

O 25 de Abril, como monumento à Democracia e à Liberdade, devia ser essencialmente futuro

1. Incomoda-me ver Ferro Rodrigues como defensor oficial do 25 de Abril. O homem tresanda a bafio. Parece um personagem fabricado de propósito para fazer as pessoas descrerem da Liberdade e da Democracia, valores que (pelo cargo) é suposto defender. Cada vez que fala, diz coisas ignorantes, como agora mesmo a propósito das máscaras de proteção devidas aos cuidados de saúde se utilizadas no Parlamento ou sobre a forma como as pessoas se pronunciam nas redes sociais, que para ele são “a internet”, o que prova o seu absoluto desconhecimento entre o veículo e a rede. É como não saber distinguir entre a EDP e a REN. Mas ele não sabe, de facto.

Acredito mesmo que não se tenha dado conta da desmaterialização da relação do Estado com os cidadãos pela via do digital, nem da revolução no trabalho e na forma de fazer política. É também paradigmático perceber que se refira à “democracia representativa” como algo que deve ser atirado à cara das pessoas que dele simplesmente divergem.

Como presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues é um desastre. Não une, divide. E ele intui isso, tanto que nestes últimos dias deu-lhe para se colar ao Presidente da República e ao primeiro-ministro, com quem acha que forma uma espécie de trio maravilha.

Não dou excessivo valor à polémica que para aí vai sobre as comemorações e muito menos à guerra que o cavaleiro Ferro trava com os seus moinhos fascistas. Isso já faz parte do personagem. Surpreende-me apenas que o homem não tenha amigos, ou alguém já lhe teria explicado que são figuras como ele, sempre disponíveis para reduzir divergências de opinião a conflitos de sabatina ideológica, que convocam o populismo e muitas das outras vergonhas que o atormentam.

2. Sobre o que se discute: sim, as cerimónias do 25 de Abril poderiam, e deveriam, ter sido tocadas pela realidade presente.

Numa conjuntura em que as pessoas não têm acesso a despedir-se de familiares mortos, por força das recomendações das autoridades de saúde e da lei subjacente ao estado de emergência, que apoio sem reservas, a comemoração do Dia da Liberdade poderia ser ainda mais minimalista com vantagem para o seu significado intrínseco.

O problema está na forma como o regime se habituou a ver a data: uma coisa do passado. É isso que retira valor ao momento. É isso e a forma rasteira de fazer política. Nunca nos esqueçamos que já houve, por divergências protocolares, um 25 de Abril sem capitães e sem Manuel Alegre. Foi em 2012 e foi um momento aproveitado por Otelo Saraiva de Carvalho para umas bravatas de feira, daquelas que nos relembram a importância de também ter havido em 1975 um 25 de novembro, contra aqueles que ainda hoje têm o descaramento de celebrar o nascimento de Lenine. E não foi por isso que os cravos murcharam. Os cravos só murcham com a corrupção, a desigualdade e outros falhanços do exercício do Poder.

3. O 25 de Abril, como monumento à Democracia e à Liberdade, devia ser essencialmente futuro. E, na evocação do passado, constituir um momento para ensinar a quem não viveu a época (e já são a esmagadora maioria dos portugueses) que nem sempre foi normal termos a Liberdade que hoje damos como adquirida. Que mantivemos colónias para além do prazo civilizacional de validade. Que a sociedade nacional não respeitava a mulher. Que Portugal era, mais do que uma ditadura, um exemplo apontado ao mundo de um país atrasado e retardado, um latifúndio no qual não se reconheciam alguns direitos humanos. Que os cuidados de saúde não eram para todos e o índice de mortalidade infantil espelhava a tragédia de uma sociedade que fora das cidades lembrava o feudalismo. Que não havia, com o século XX já no ano 74, uma autoestrada a ligar Lisboa e Porto e que “na província”, assim se dizia, sobravam lama, véus e lágrimas e faltava a água e a energia elétrica. Que o fado, Fátima e o futebol eram utilizados para manter a letargia.

A liturgia oficial do regime sobre o 25 de Abril é cansativa. Sobretudo celebra o golpe de Estado militar em si mesmo e quase despreza o essencial. É por isso que há muitos anos só admito receber resumos. Este ano não será exceção.

 

 

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