Na semana passada, homenageei na minha crónica Luís Oliveira, o recém-falecido editor da Antígona, e citei um dos livros que publicou, talvez um dos mais extraordinários que tive a oportunidade de ler nos últimos anos. “Uma Solidão Demasiado Ruidosa” de Bohumil Hrabal, um dos mais influentes autores checos do século XX, que descreve um protagonista prensador de papel, preso num regime que destrói livros, enquanto tenta salvá-los.
Vem esta evocação a propósito de uma notícia que revela que a censura de livros entre as escolas e bibliotecas dos EUA continua a fazer o seu caminho. São já milhares de livros que foram alvo desta tentativa orquestrada de silenciar e condicionar a aprendizagem dos jovens. De acordo com a PEN America, mais de 10.000 livros foram removidos das escolas no ano letivo de 2023/24, em grande parte na sequência de leis aprovadas por republicanos em vários estados. Livros que discutem questões de identidade, género e orientação sexual são especialmente visados nesta grande vaga repressiva que pretende lançar os EUA numa idade das trevas.
Falamos de obras icónicas como “Crónica de uma Serva” de Margaret Atwood, a descrição de uma distopia patriarcal que subjuga as mulheres a um papel procriador, ou “Maus” de Art Spiegelman, o relato de um judeu polaco, sobrevivente do Holocausto.
Isto faz parte de uma manobra em larga escala, em curso há vários anos, de impor uma nova ideologia nos EUA, com uma visão muito restrita da cultura e história americana, à semelhança das ações de um estado autoritário. Muitos dos grupos que recorrem a tribunais para conseguir cumprir esta censura pretendem disrupção em larga escala e normalizar a diabolização de determinados livros e temáticas. Chegaram demasiado longe, sendo cada vez mais difícil reverter o curso.
Assistimos assim a algo impensável, que levará não dias, nem semanas, mas anos para desfazer o mal já feito. Pior. Parece que somos incapazes de resistir a este movimento reacionário em larga escala. Termino com uma citação de Hrabal, que nos lembra o poder redentor dos livros. Importa lutar pela preservação da memória e resistir a quaisquer tentativas de revisionismo e aniquilação.
“É em vão que todos os inquisidores do mundo queimam livros, pois, quando um deles contém algo de válido, o seu riso silencioso persiste mesmo no meio das chamas, porque o significado de um livro verdadeiro vai sempre para além dele.”