Uma dúvida e um desafio

Na reta final de 2020, vale a pena passar em revista os últimos meses e antever os próximos que surgem no horizonte com inúmeras nuvens de incerteza. Algo parece, contudo, não oferecer dúvidas: a de que este clima pandémico e o seu impacto na saúde pública e na saúde da nossa economia irá traduzir-se num […]

Na reta final de 2020, vale a pena passar em revista os últimos meses e antever os próximos que surgem no horizonte com inúmeras nuvens de incerteza. Algo parece, contudo, não oferecer dúvidas: a de que este clima pandémico e o seu impacto na saúde pública e na saúde da nossa economia irá traduzir-se num aumento da crispação e agitação social em 2021, talvez como nunca vista nas últimas décadas.

A certeza é que haverá para pagar, e apesar da bazuca europeia, mais uma fatura gigante, que sacrificará as novas e vindouras gerações. Inevitavelmente, os três últimos trimestres ficarão associados ao surgimento da Covid-19 em Portugal e no mundo, que nos fez mergulhar numa crise pandémica, com vários estados de calamidade e de emergência nacional, confinamento social e um número assustador de paralisações sectoriais em várias áreas da economia, dos serviços ao turismo, da administração pública à cultura, e por aí fora.

Já em 2018 e 2019, com um país a assistir ao namoro de partidos que resultou na designada geringonça, havia sido evidente a paralisia de vários sectores da economia, mas essencialmente do Estado, numa crise e crispação social e laboral na época, ao nível dos enfermeiros, trabalhadores de hospitais, estivadores, guardas prisionais, funcionários judiciais, bombeiros, funcionários de registos e notariado, inspetores de investigação, fiscalização e fronteiras, trabalhadores da CP e do Metro do Porto, etc, com meses inteiros em que não houve um único dia sem uma greve.

A este cenário não será alheio o trágico aumento da precaridade laboral e do desemprego, acentuado e muito em 2020, deixando demasiados portugueses numa situação de ansiedade, insegurança e exposição à evolução negativa da economia, que apesar de tudo resiste, com poucos apoios do Estado e entregues à sorte com resiliência.

Politicamente, 2021 ficará marcado pelas eleições para a Presidência da República, logo em janeiro, e para as autarquias locais, em setembro. Se para Marcelo Rebelo de Sousa perspetiva-se um passeio até à eleição, para as câmaras municipais e juntas de freguesias são várias as alterações que se advinham nas equipas e novas lideranças. A questão é saber se a coexistência destas eleições permitirá criar as melhores condições para debater o país, cada região e cada município que queremos. Haverá espaço para tomar medidas estruturantes mesmo que pouco populares? Avançarão obras decisivas para o nosso desenvolvimento socioeconómico, ou serão só as dos festins eleitorais?

O ano de 2021 que se inicia é uma grande dúvida e um enorme desafio. Os portugueses ainda não esqueceram os difíceis momentos da crise e da intervenção externa de há poucos anos, e vemo-nos agora mergulhados num outro momento muito crítico, com reflexos económicos e sociais ímpares.

Com o início da vacinação e a bazuca generosa para gastar que já chegou a Portugal, é pouco provável que se voltem a perdoar anos de má governação e de má liderança. Por isso, António Costa, que governou quatro anos sem mandato do povo, está também mais do que nunca à prova.

E 2020 vai ficar marcado na nossa memória por muito tempo como um ano em que todos se superaram, em que readequámos os nossos modos de vida, das rotinas e hábitos sociais, em que se massificaram os contatos digitais, numa transformação jamais vista na área tecnológica, em que nos protegemos a nós e aos outros, de extrema exigência num combate a um “inimigo invisível” de seu nome SARS-CoV-2.

O Estado precisa de criar soluções para os novos desafios neste pós-pandemia, iniciar a retoma económica e recuperação de postos de trabalho, bem como vencer os desafios demográficos decorrentes da baixa natalidade e do envelhecimento ativo, para evitar o agravamento das desigualdades sociais e globalização desregulada, da pobreza e da exclusão social.

Não faltam, pois, desafios para o ano que se inicia, que terá de adotar um novo modelo de desenvolvimento económico e social, para voltar a criar riqueza e aumentar a competitividade. Caberá ao Estado, nesta reconstrução patriótica, encontrar as melhores condições para uma sociedade civil criativa, empreendedora e inovadora, com um Estado forte e eficiente.

O verdadeiro crescimento económico e social é o que todos merecemos em 2021. Bom ano!

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