Uma epidemia de inteligência

Será pelo impacto no seu bolso, e não no seu cérebro, que as pessoas tratarão de pôr limites à aprendizagem das máquinas.

Qualquer dispositivo que hoje em dia não se apresente como “inteligente”, não merece a atenção pública. Desde carros e telemóveis até frigoríficos ou máquinas de lavar roupa, cada vez são mais as máquinas que parecem estar dotadas de um atributo que, até há pouco tempo, parecia ser exclusivamente humano. De um dia para o outro, a inteligência das coisas passou a ser mais uma obsessão asfixiante.

Historicamente, a evolução no mercado das sucessivas gerações destes aparelhos tem passado pela incorporação progressiva de novas funcionalidades. Perante a evidência estatística da baixa utilização dessas funções acessórias que se iam acumulando nos manuais de instruções, os fabricantes têm optado cada vez mais por automatizar o seu funcionamento, o que reforça a aparência de inteligência dos objetos. Embora a ergonomia ou a sustentabilidade comecem a ser atributos valorizados por uma parte crescente da sociedade, o foco continua a estar claramente na funcionalidade do que produzimos.

Mas, de tanta inteligência que pressupomos às coisas, acabamos por deixar de cultivar a nossa. Assim, numa perspetiva social, resulta chocante contrastar a leviandade da interação entre as pessoas através das redes sociais, por exemplo, com essa suposta inteligência que, de forma igualmente ligeira, atribuímos a cada vez mais objetos. Trata-se, provavelmente, de um excesso linguístico decorrente da má tradução do conceito anglo-saxónico de “intelligence”, que habitualmente se refere à capacidade informacional dos aparelhos, tipicamente através da sua conetividade à Internet. Mas nem por isso deixa de surpreender essa aparente migração de capacidades das pessoas para as coisas, que será ainda mais chocante quando proliferarem as máquinas androides, com aspeto humano, que já começam a estar disponíveis não só em ambientes fabris, mas também no atendimento público e no apoio doméstico.

Embora as primeiras implementações de assistentes pessoais e de robôs humanoides sejam necessariamente pouco sofisticadas, é fácil prever uma rápida evolução. Às vezes penso que essa evolução não está a ser mais rápida para evitar a rejeição social destes assistentes, como usurpadores de uns postos de trabalho que são cada vez mais escassos.

Será pelo impacto no seu bolso, e não no seu cérebro, que as pessoas tratarão de pôr limites à aprendizagem das máquinas. Até agora, parecíamos disponíveis para aceitar alegremente um inverno social humanista em troca de um verão digital escaldante. Mas parece que, felizmente, algumas pessoas começam já a ficar escaldadas.

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