Uma nova diplomacia?

Creio não ser muito clara, para muita gente, a importância da Assembleia Geral (AG) anual da Organização das Nações Unidas (ONU) que, por esta altura do ano, tradicionalmente se iniciava em Nova Iorque

Creio não ser muito clara, para muita gente, a importância da Assembleia Geral (AG) anual da Organização das Nações Unidas (ONU) que, por esta altura do ano, tradicionalmente se iniciava em Nova Iorque. Em 2020, o evento inaugural, preenchido com as declarações nacionais, terá lugar apenas por via telemática.

Além da própria ONU já suscitar muitas dúvidas quanto à sua real eficácia, sempre imaginei que aquele imenso fluxo de chefes de Estado e de governo, acompanhados de ministros e de séquitos infindáveis, num ambiente prenhe de retórica, conferia alguma imagem de inutilidade ao exercício ritual. Alguma razão podia existir nesse juízo comum, mas o evento não era, necessariamente, uma mera perda de tempo. Esse período em comum em Nova Iorque era regularmente aproveitado para uma imensidão de encontros bilaterais, que poupavam muitas viagens, e gasto de tempo, no resto do ano.

O período ministerial da AG da ONU é, em especial para muitos pequenos e médios Estados, que não dispõem de uma rede relevante de relações externas, um tempo importante para objetivarem os seus interesses face a outros parceiros, na ausência de uma máquina capaz de assegurar uma presença contínua e eficaz pelo mundo, no resto do ano.

Mas é uma evidência que os dias da vida internacional estão muito diferentes. Permanecerão assim? Por quanto tempo uma AG da ONU, em forma “física”, estará condicionada? Não sabemos, ainda hoje, em que medida a prática telemática passará a ser a regra e a deslocação a exceção. A diplomacia vai assim mudar os seus métodos? Mesmo que o não faça de forma radical, quantos dos seus modelos tradicionais de operação vão ser afetados?

A pandemia que marca o mundo é uma incomensurável tragédia, mas todos aprendemos que é quase sempre nos momentos de dificuldade extrema, em que a gravidade das situações convoca a agudeza das atenções, que acabam por ser descobertas as soluções mais inventivas para os problemas.

Quem sabe se um aperfeiçoamento radical dos mecanismos de comunicação à distância, que a crise atual seguramente incentivará, não nos poderá vir a trazer, sem perda de eficácia, um salto qualitativo nos instrumentos de representação e de operação diplomática?

Se isso acontecer, vai seguramente acabar, ou atenuar-se muito, algum glamour que estava associado ao mundo tradicional da representação externa. Isso, aliás, já vinha a acontecer aceleradamente nas últimas décadas. Se puder vir a ser feito sem perda relevante de eficácia, com poupanças interessantes para o erário público, a vida diplomática poderá ganhar novos contornos.

É que, ao contrário do que alguns possam ainda pensar, é a defesa dos interesses nacionais, públicos e privados, que, em derradeira instância, justifica a existência da máquina de relações externas de um país. E em tempos de uma saudável exigência de transparência, cada vez mais a representação externa vai ter de se sujeitar a constantes juízos valorativos de custo-benefício. Uma nova diplomacia pode, assim, estar a caminho.

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