Uma semana na “tugolândia”

Ainda há dúvidas de que o Novo Banco é um buraco sem fundo que nos sairá mais caro que a sua falência e que abriu um precedente perigoso?

Estes últimos dias foram tão diversificados que não me consigo concentrar num tema só… Desde os múltiplos regressos – de Centeno ao Banco de Portugal, de Jesus ao Benfica e de Cristina Ferreira à TVI – à morte dum actor, assassinado em plena via pública por um homem de 80 anos, passando pelo fim dos debates quinzenais e acabando – surpresa das surpresas – no atraso na entrega da auditoria ao Novo Banco, digam-me vocês, por onde começar? Possível fosse, discutiríamos isto tudo enquanto tomávamos um drink numa qualquer discoteca ao final da tarde.

Sobre Centeno nem vou dizer nada, porque a minha dúvida já nem é Centeno mas sim o Banco de Portugal (BdP). Não fosse Bruxelas obrigar a existir um banco central em cada Estado-membro e eu fechava era o tasco. Já não há política monetária. Supervisão, que era para mim o fundamental, nunca houve. Houve, sim, barraca atrás de barraca e aproxima-se outra. Aliás, fica a adivinha: qual é coisa qual é ela cujo nome começa por M, acaba em pio, mas não é pássaro?

Ah, mas aqui vão dizer que o BdP não é o responsável, mas sim a ASF (Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões), que por sua vez já veio dizer que a responsabilidade é do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social. Ou seja, a culpa morre sempre solteira… e quem paga? Querem ver que todos adivinharam? Pois é, somos nós!

Portanto, o BdP existe para quê mesmo, se não cumpre com a sua principal missão? Para além de proporcionar um ordenado médio de 5.000 euros aos seus mais de 1.600 colaboradores – imagino que estão embrenhados em estudos de elevado valor acrescentado porque nem tempo têm para atenderem o telefone – só o oiço pronunciar-se sobre crédito à habitação. Parece-me um quadro demasiado valioso para tão parco objectivo.

Sobre Jesus não tenho nada a dizer. Não sou eu que pago, é-me indiferente onde ele trabalha. Quanto muito, prefiro-o em Portugal porque além de me fazer rir, paga impostos por cá.

Já Cristina Ferreira fez-me pensar no apoio de 15 milhões que o Governo deu aos media. Percebe-se como é, de facto, um sector afectado pela pandemia e com urgência no apoio. A manipulação a que os media se têm permitido é assustadora, sintomática e só tende a piorar.

Depois, temos a infeliz morte dum actor, pai de três filhos menores, numa rua de Moscavide, assassinado por um homem de 80 anos que já o ameaçava há alguns dias. Segundo percebi, o tema era um cão. O homem não gostava do cão e toca de ofender o Candé, acabando mesmo por o matar. Obviamente o homem é desequilibrado, maluco. Ofendeu o Candé porque era preto como ofenderia o Candé se fosse branco, amarelo ou vermelho. Ou se fosse gordo, coxo ou feio. A única coisa que mudaria era a forma de o ofender. As pessoas fracas ofendem. É a única “arma” que têm. Este homem, infelizmente, tinha também uma arma de fogo e pôs fim à vida dum homem de 39 anos, com três filhos menores.

Como neste caso o rapaz era preto, vem logo o aproveitamento dos que se intitulam anti-racistas dizer que a morte teve motivações racistas. Começa-me a parecer que não há mais racistas que os anti-racistas. Quando a vítima é branca e o maluco é preto ninguém os ouve. Já não é racismo? Quando a vítima é branca, homem e heterossexual, as motivações são sempre identificadas pelo que motivou a acção e não pela cor, género ou sexo.

Vamos lá ver se nos entendemos em algo tão simples – o que há são malucos e vítimas. Há racismo, sim, e há, mais do que racismo, preconceito. Mas, para se acabar com o racismo ou qualquer outra forma de discriminação, o primeiro passo é mesmo deixar de rotular as pessoas. A minha esperança é a geração dos meus filhos e seguintes, que em nada se assemelha às anteriores nestas questões.

Esperança zero tenho eu em Rio que promove a extinção dos debates quinzenais. Na realidade, ninguém assiste àquilo, mas ser o suposto líder da oposição a promover a redução do escrutínio ao Governo é hilariante. Não consigo mesmo perceber o que vai naquela cabeça.

Isto associado a alterações previstas na UTAO (Unidade Técnica de Apoio Orçamental), cujo objectivo é essencialmente acompanhar a execução orçamental das várias administrações públicas e analisar e alertar para os impactos orçamentais de iniciativas legislativas admitidas no Parlamento, viu aprovada a redução da sua intervenção, limitando-se também por esta via, o escrutínio ao Governo. E quem sugeriu? O PS propôs e Rio “reformulou” mas na realidade, entre os dois, só mudam as moscas.

Por fim, o Novo Banco. Depois de mais um escândalo com a venda de activos – mas atenção que é só mais um, em nada ou em pouco se distingue dos outros – eis que a auditoria não é entregue na data esperada. Mas, pergunto eu, acham mesmo que a auditoria vai ditar o fim desta palhaçada? Escrevi isto em 2018, e nada mudou!

Aliás, nem percebo exactamente porque ainda existem auditoras. Desde o caso Enron, em 2001, empresa que era auditada pela Arthur Andersen (actual Deloitte) que as “big five” perderam toda a credibilidade. O BES não era auditado? O BPN não era auditado? O BPP não era auditado? A PT não era auditada? Ainda há dúvidas de que o Novo Banco é um buraco sem fundo que nos sairá mais caro que a sua falência e que abriu um precedente perigoso?

Ora vamos lá marcar mas é um encontro para pensarmos em conjunto estes temas. Que tal no Urban, às 17h da próxima terça-feira? Os galões pago eu!

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

Recomendadas

O desafio da transformação digital das empresas portuguesas

De acordo com World Economic Forum, em 2022, o mundo digital irá contribuir para 60% do PIB mundial. A verdade é que a transformação digital já se fez notar em todas as indústrias e continuará a impactar a forma como as empresas conduzem os seus negócios. Se pensarmos na velocidade com que hoje emergem novas […]

A insustentável leveza dos salários

O desenvolvimento recente e acentuado do turismo é um dos expoentes deste paradigma e, e em abono da verdade, foi, até à crise da Covid-19, um vetor importante da recuperação económica, atenuando os efeitos da crise financeira e sobretudo das posteriores medidas recessivas.

A grande subida livre dos mercados financeiros

Qual o motivo para tamanha discrepância entre o desempenho dos mercados financeiros e o estado da economia subjacente? Na verdade, as razões são diversas.
Comentários