Uma sentença na China, mas um setor com potencial

Se as grandes empresas, i.e. os empregadores mais exigentes, começam a dispensar os típicos cursos superiores e a favorecer cursos profissionais mais rápidos e práticos, porque não hão de outras empresas começar a fazer o mesmo?

Há poucos dias o governo Chinês emitiu uma sentença ao setor da educação privada, que ficou pouco distante de ser uma pena de morte económica. Depois de o ter criticado há alguns meses, pelos custos que impõe às famílias chinesas (a maior parte dos pais sente-se pressionado a pôr os seus filhos em explicações privadas, porque 75% dos alunos as frequentam), pelo stress que induz às crianças (que depois das aulas passam frequentemente várias horas nas explicações), pela competição excessiva e contraprodutiva que alimenta entre elas.

O governo chinês anunciou finalmente que vai ser proibido dar explicações privadas (private tutoring) com o objetivo de lucro. A atividade só poderá ser desenvolvida sem fins lucrativos.

A pena de morte é legal na China, sendo aplicada principalmente a assassinos e traficantes de droga, e ocasionalmente a políticos corruptos, mas a aplicação do seu equivalente económico a todo um setor de atividade foi uma surpresa petrificante para as empresas do setor, para os que por ela são empregues e para os que nela investiram (existiam várias empresas deste setor cotadas em bolsa, que perderam cerca de 90% do seu valor em poucos dias). Mesmo depois do governo já lhe ter feito duras críticas.

Para os ocidentais a legitimidade desta medida é discutível, mas ela é politicamente popular na China. Por um lado, o governo está a oprimir a liberdade económica de um setor perfeitamente legítimo, e dos consumidores que dele usufruem. O que seria impensável em países com liberdades constitucionalizadas.

Mas, por outro, o golpe ao setor justifica-se com o objetivo de acabar com o contraprodutivo e financeiramente exaustivo (para famílias menos abastadas) excesso de competição entre famílias e alunos para obter os melhores resultados escolares. Que no fundo é um objetivo de reduzir as desigualdades sociais que resultam desta competição. E que é bastante popular entre as famílias que têm dificuldade em proporcionar tal serviço aos seus filhos (a maior parte das famílias chinesas).

As medidas têm consequências existenciais na China para um setor que tem crescido tremendamente nos últimos anos, principalmente depois da pandemia. Mas não vão parar a verdadeira revolução que se está a dar no setor da educação a nível internacional.

Uma revolução no ensino

Com toda a inovação tecnológica a que se tem assistido nas últimas décadas, é surpreendente que a maior parte do ensino (principalmente o ensino superior) se continue a dar da mesma forma que se dava há séculos atrás. De quadro e giz, por um professor para umas dúzias de alunos.

Com cursos de quatro a cinco anos, independentemente da disciplina de estudo (como se todas as disciplinas requeressem exatamente quatro a cinco anos de estudo para serem dominadas). Por vezes até com cadeiras desnecessárias, só para encher esse período. Com pouca flexibilidade modular, praticamente sem reconhecimento por frequência se não houver canudo (um curso incompleto de pouco vale).

É por isso que o setor do ensino superior já está a sofrer uma revolução (lenta sim, mas ainda assim uma revolução). As plataformas de cursos online já existem há vários anos, sem muito sucesso, mas recentemente a iniciativa de várias empresas tecnológicas de alto calibre deu início à inevitável tendência de desmaterialização da atual forma dos cursos de ensino superior.

Empresas como a Google, a Microsoft, ou a IBM (dos empregadores mais apetecíveis do mundo) passaram a oferecer cursos profissionais em várias áreas, de menos de um ano, que custam poucas centenas de dólares, e que dispensam os típicos cursos superiores que previamente eram necessários para a contratação por estas empresas. Cursos superiores que custam várias dezenas de milhar de dólares aos alunos que frequentam universidades privadas, e montantes equivalentes aos Estados que oferecem ensino superior público, como o nosso.

Se estas empresas, que de um modo geral são dos empregadores mais exigentes, começam a dispensar os típicos cursos superiores, e a favorecer cursos profissionais mais rápidos e práticos, porque não hão de outras empresas também começar a fazê-lo?

Porque hão de mais gerações de estudantes despender os anos mais determinísticos da sua vida em cursos com formatos antiquados, que muitas vezes são pouco valorizados pelo mercado de trabalho? A informação e o conhecimento passaram de ser um monopólio das universidades, para serem bens quase gratuitos, com a chegada da internet.

É altura de mais empresas começarem a abrir os olhos para esta realidade, e começarem a poupar aos estudantes o esforço desnecessário, e às vezes até improdutivo, de completar cursos superiores com formatos do século passado.

Com esta revolução no setor da educação, nasce um novo ecossistema de empresas tecnológicas para o setor da educação (edtech) que prometem facilitar o acesso e melhorar o valor da educação em que os estudantes decidem investir. Algumas já são cotadas em bolsa, e as suas avaliações são especulativas. Mas dado o potencial da revolução que estas empresas estão a ajudar a fomentar, tal especulação pode ser justificada.

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