Uma trégua na guerra comercial

O acordo comercial não constitui um incentivo ao comércio internacional. Acima de tudo, é uma forma de estancar o efeito de contágio do protecionismo a uma escala global.

As tensões comerciais entre Estados Unidos e China têm vindo a assumir-se como principal agente do sentimento dos mercados financeiros, que além de condicionar o comportamento dos principais mercados financeiros também tem vindo a acentuar o ritmo de abrandamento económico internacional. Os recentes desenvolvimentos relativamente às negociações entre os dois gigantes económicos criaram expetativas de que poderemos ter chegado a um ponto de inversão neste tema.

Adicionalmente, e no que diz respeito ao Brexit, que tem sido uma importante fonte de incerteza para os negócios no Reino Unido e na Europa, as recentes evoluções evidenciam que o risco de uma saída desordenada da União Europeia diminuiu bastante. Obviamente, caso se confirmem estas expetativas, poderemos observar uma rápida aceleração do sentimento e consumo das famílias e das empresas, o que num ambiente de taxas de juro controladas criará, sem dúvida, condições que favorecem as classes de maior risco dos mercados financeiros.

De facto, é tentador ceder à argumentação de que a incerteza atingiu o pico, numa altura em que negociadores norte-americanos e chineses chegaram a um acordo provisório que poderá levar à assinatura de um acordo comercial antes do final do ano. No entanto, e passando por cima das leituras positivas e mais imediatas sobre este “elefante na sala”, há argumentos que capazes de arrefecer o entusiasmo inicial.

Antes de mais, o acordo comercial é apenas uma pausa na implementação de tarifas – as que foram colocadas não deverão ser alteradas – e não constitui um incentivo ao comércio internacional. Acima de tudo, é uma forma de estancar o efeito de contágio do protecionismo a uma escala global. Adicionalmente, nada impede os Estados Unidos de avançarem para outras frentes, como é o caso do setor automóvel europeu. Ou seja, há uma probabilidade elevada de estarmos mais a falar de uma trégua e menos do fim da “guerra comercial”.

Olhando também para outro fator de incerteza geopolítica, o processo de saída do Reino Unido da União Europeia também não se afigura totalmente isento de obstáculos. A possibilidade de novas eleições e os cenários que daí podem advir fizeram com que a incerteza aumentasse novamente. E mesmo numa situação de saída ordenada, poderemos registar um processo de migração de incertezas assim que as negociações sobre o futuro relacionamento e suas repercussões económicas ganharem visibilidade mediática.

Há ainda que ter presente que os fatores geopolíticos devem ser vistos de forma isolada dos chamados fatores fundamentais associados ao crescimento, apesar de poderem ter influência – por vezes disruptiva – na evolução das economias, na medida em que, muitas vezes, condicionam as decisões dos agentes, sobretudo dos investidores, que esperam por melhores momentos para investir ou aumentar a despesa. Mas a melhoria das condições também está associada às perspetivas futuras dos fundamentos da economia e neste momento isso não acontece.

Aliás, os principais observadores apontam para um cenário de crescimento mais frágil da economia global, com os indicadores avançados a projetarem envergonhados níveis de expansão, que dificilmente colocarão argumentos suficientes em cima da mesa para justificar um rápido aumento da despesa de forma que seja economicamente visível.

Resumindo, apesar da aparente redução da incerteza, na realidade poderemos estar a falar mais de transferência da incerteza do que numa redução imediata, e esta alteração sobre a perceção pode criar um lastro temporal com menor impacto sobre a retoma da atividade e dos mercados do que o que estará a ser percecionado no imediato.

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