Umas eleições Seinfeld

Os criadores de “Seinfeld” disseram que a sua série era “sobre nada”. O mesmo se pode dizer das nossas eleições de 6 de Outubro.

No terceiro episódio da quarta temporada de “Seinfeld”, Jerry e o seu amigo George preparam-se para propôr à NBC uma ideia para uma série de televisão, que mais não era do que uma versão daquilo que Jerry Seinfeld e o seu amigo (e verdadeiro génio por trás da série) Larry David haviam criado em “Seinfeld”. George diz-lhe que a série devia consistir apenas do tipo de conversas que eles têm um com o outro, ao que Jerry lhe pergunta: “mas a série seria sobre o quê?”. George responde-lhe: “é sobre nada”.

A piada tinha piada precisamente porque não era exactamente verdade (“Seinfeld” era sobre muita coisa), mas a descrição ficou, ao ponto de hoje ser quase impossível falar da série sem que alguém a cite sem perceber que ela não deve ser tomada por literal. E em 1998, um tal de Curtis Gans aplicou-a à política americana, com muito maior precisão. Gans estava a estudar a participação eleitoral nas “intercalares” desse ano, e chegou à conclusão de que elas tinham sido umas “eleições Seinfeld”: “ele disse que a série dele não era sobre nada, e estas eleições também não foram”.

À medida que nos aproximamos das eleições legislativas de 6 de Outubro, torna-se cada vez mais claro que elas também se tratarão de umas “eleições Seinfeld”.

Quem ande a acompanhar a campanha eleitoral “nos twitters e facebooks” (para citar o meu filósofo preferido, o dr. Paulo Futre) daquilo a que por ignorância e facilidade chamamos de “direita”, até poderia pensar que nestas eleições está em causa uma escolha entre Portugal vir a ser a Irlanda ou a Venezuela. E quem acompanhe a coisa “nos twitters e facebooks” daquilo a que por ignorância e facilidade chamamos de “esquerda”, talvez se tenha convencido de que em causa está uma escolha entre ser o Canadá ou o Alabama.

Quem viva neste planeta, no entanto, tem a noção (mais ou menos consciente) de que a margem de manobra de qualquer governo de qualquer partido em Portugal é bastante reduzida, e que por muito que PS, PSD, CDS, BE, PCP, PAN ou qualquer um dos muitos outros que ambicionam juntar-se-lhes em São Bento prometam baixar este ou aquele imposto, aumentar esta ou aquela despesa, ou cortar aqui ou ali, a carga fiscal em Portugal acabará por ser mais ou menos a mesma, o rendimento disponível para cada português acabará por ser mais ou menos o mesmo, e que as minúsculas diferenças dependem mais da conjuntura internacional do que da identidade do primeiro-ministro ou da obtenção ou ausência de uma maioria absoluta no Parlamento.

Na realidade, toda a gente na plenitude das faculdades mentais sabe que mais tarde ou menos cedo (talvez mais cedo do que tarde) a conjuntura internacional vai piorar, as principais economias europeias e mundiais vão abrandar, e a bonança que permitiu esconder os problemas da economia e da sociedade portuguesa que sucessivos governos não quiseram ou não conseguiram enfrentar vai ser substituída por uma tempestade que os trará de novo à superfície.

Por isso, nas eleições de Outubro, ninguém vai votar por considerar que algo de importante está em questão. Todos sabem que o futuro do país será mais ou menos o mesmo quer o primeiro-ministro seja o dr. António Costa ou o dr. Rui Rio (como seria mais ou menos o mesmo se a escolha fosse entre Costa e Passos Coelho). E perante a falta de confiança generalizada em qualquer um dos partidos, a maioria dos eleitores optará provavelmente por votar naquele que já está no poder, até que as coisas piorem e o descontentamento os leve a votar de outra forma.

Costa talvez se extasie com a possibilidade (cada vez menos remota) de obter uma maioria absoluta ou de precisar apenas da ingenuidade do PAN para governar a seu belo prazer, mas não tem razão para isso. Por muito quantitativamente vasto que o apoio eleitoral que venha a ter possa vir a ser, esse apoio não deixará de ser sempre qualitativamente fraco.

Costa e o PS agradam a um grande número de portugueses, não por estes acreditarem realmente na conversa de que a acção do Governo trouxe a prosperidade ao país, mas porque a sua retórica lhes deu uma “voz pública” à sua crescente insatisfação com os vários “apertos de cinto” que têm sofrido nas últimas décadas e com as exigências da “Europa”, e uma ilusão de maior controlo sobre o seu futuro económico e financeiro, mesmo que sem o controlo propriamente dito.

Numa sondagem recente, que media o grau de confiança dos eleitores nos líderes partidários, o melhor resultado (41% de rejeição de voto) é obtido por duas pessoas: o Carlos Guimarães Pinto (meu amigo e presidente do Iniciativa Liberal) que só o consegue porque ninguém sabe quem ele é (perda da multidão), e António Costa.

No entanto, os 59% que não rejeitam Costa, em vez de efectivamente o apoiarem e seguirem, limitam-se a tolerá-lo: só um terço deles diz ter confiança na personagem, enquanto os restantes dizem ter “alguma confiança”, ou seja, alguma desconfiança. Costa não comanda apoio político; depende de apoio político. Como todos os seus antecessores desde pelo menos 1834, depende da boa vontade da horda de funcionários públicos e de outros beneficiários do Orçamento de Estado, que depende da capacidade de o usar para satisfazer as pretensões desses candidatos a comensais do banquete orçamental, capacidade essa que depende dos mais variados factores fora do controlo dos Primeiros-Ministros (não é por acaso que aqueles que sobreviveram mais tempo no poder foram aqueles que tiveram a sorte de governar em tempos de bonança conjuntural – Fontes, Cavaco – ou tinham à sua disposição um aparelho repressivo suficientemente dissuasor da manifestação do descontentamento popular – Salazar).

Dessa fraqueza resulta que Costa e o PS (ou Rio e o PSD) não terão força política nem vontade de efectivamente defrontar os problemas estruturais do país. Dessa falta de força e de vontade, por sua vez, resultará a perpetuação desses problemas estruturais, da qual resultará a sua continuada degradação, da qual resultará, mais tarde ou mais cedo, com maior ou menor gravidade, uma correspondente degradação das condições de vida dos portugueses. Dessa degradação talvez resulte que a próxima eleição venha a ser sobre alguma coisa. Mas não será coisa boa de certeza.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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