Velho pode ser bom? A crónica do 5º país

Temos discutido timidamente o envelhecimento. O que não discutimos é a estratégia concertada de médio e longo prazo para transfigurar o país de acordo com esta nova realidade, explorando as suas oportunidades.

Os jornais disseram-nos há umas semanas que somos o quinto na lista dos países mais envelhecidos do mundo. Curiosamente, parecemos receber esta notícia primeiro com surpresa (a sério?!), depois com alguma incredulidade e ainda com a estranha resignação lusa de mais uma inevitabilidade a carregar aos ombros – é  fado…

Ao contrário do que eu julgaria óbvio, parece que esta notícia em nada altera o facto de não existir ainda uma estratégia séria e concertada para que Portugal, e a Europa, lide da melhor forma com esta sua nova realidade. Porque, se, por um lado, estes dados trazem uma notícia muito positiva – a longevidade também aumentou, sinal de melhores condições de vida – a verdade é que esta quinta posição não é a do país com maior longevidade.

A referência a populações mais envelhecidas no estudo da Euromonitor International é elaborada com base no rácio de dependência, que traça uma relação direta entre o número de pessoas com mais de 65 anos e a população trabalhadora. Ou seja, além de uma maior esperança de vida, este ranking vem dizer que a nossa natalidade é extraordinariamente baixa e que temos cada vez menos pessoas em idade laboral – em parte devido à emigração nos últimos anos. De tal forma que as Nações Unidas preveem que em 2030 Portugal suba para o terceiro lugar enquanto país mais envelhecido do mundo, com uma idade média de 50,2 anos, quando, em 2015, era de 44 anos.

Todos sabemos e falamos das implicações destes factos para o nosso sistema de pensões e segurança social. Observamos diariamente a pressão no Serviço Nacional de Saúde, que já está em colapso. E sentimos a falta de vagas para serviços de apoio social, com as IPSS esmagadas pelo enorme aumento de utentes em situações de elevadíssima dependência.

Discutimos, menos vezes, mas ainda assim discutimos, as implicações destas alterações demográficas nas estruturas laborais; o efeito nas dinâmicas familiares ao tornar típico o casal “sandwich” – que ainda cuida dos filhos pequenos e já tem de cuidar dos pais idosos. Mas como é possível ter tempo e qualidade de vida para estas dinâmicas e ainda sermos trabalhadores competitivos?

O que não discutimos é a nossa estratégia concertada, de curto, mas especialmente, de médio e longo prazo, não para atalhar o “problema” do envelhecimento, mas para transfigurar o país de acordo com esta realidade. Com as suas dificuldades e desafios, claro, mas essencialmente explorando as suas oportunidades. Precisamos de uma estratégia de políticas públicas que garanta a sustentabilidade do setor social e da saúde, permitindo e até incentivando a adoção de novos modelos, que assegure melhores cuidados aos cidadãos, mais apoio à família e cuidadores, com eficiência e utilização adequada dos recursos do Estado Social.

Precisamos de políticas integradas – saúde, social, comunitário, tecnológico, infraestruturas –, serviços personalizados e adequados às necessidades de cada pessoa (cimentados em ‘percursos de cuidados’ ao invés de estruturas de saúde), que potenciem a prevenção em detrimento do tratamento e da medicalização, com um financiamento flexível e centrado nos resultados (value-based care).

É absolutamente vital evitar o isolamento, quer nas comunidades, quer na governação. Os diversos atores sociais em Portugal até parecem conscientes destas necessidades e recetivos à sua efetivação, pois sentem diariamente na pele as dificuldades e limitações do estado atual.

O que falta então para a implementação?

A digitalização contínua da sociedade pode ajudar a promover uma vida mais independente, favorecendo a saúde e o bem-estar. Muito se tem apostado nesta vertente, quer como solução social, quer como alavanca para a economia. No entanto, as soluções digitais não são a única panaceia para todos os males.

Os cidadãos necessitam maiores rendimentos e mais tempo com a família, necessitam melhorar as suas competências digitais, a literacia em saúde, aumentar a sua consciência de cidadania e a participação democrática.

Os espaços enfrentam diversos desafios: remodelação e adaptação do parque habitacional, infraestruturas digitais, espaços públicos inclusivos, mais e melhor mobilidade e transportes, bem como soluções neutras em termos climáticos.

Finalmente, a saúde e o apoio social necessitam dados confiáveis, soluções integradas e centradas na pessoa (new care pathways), bem como modelos de negócio sólidos.

Vamos fazer uma proposta conjunta, a dez anos, que tome medidas sérias nestas várias áreas em simultâneo e assim poderemos criar condições para que as pessoas sejam felizes, bem cuidadas e possam criar valor nas suas comunidades, mesmo num país envelhecido.

Estes temas, e muitos outros complementares ao contexto da Economia Social, vão estar em debate no “Fórum Empreendedorismo e Inovação Social”, integrado na edição de 2019 do Portugal Economia Social, que se realiza entre 10 e 11 de dezembro, no Centro de Congressos de Lisboa.

Recomendadas

As lições de oito anos de “Abenomics”

O “Abenomics” oferece-nos algumas preciosas lições para o futuro, que passam pela superação da deflação e que nos ensinam a não temer a dívida e a confiar na eficácia da política monetária.

A quem interessa uma sociedade mais desigual?

Se o capitalismo liberal quiser sobreviver, não poderá ignorar o problema das desigualdades sociais, sob pena de fornecer ainda mais argumentos aos que o querem destruir.

A inevitável queda de Trump?

Os debates presidenciais costumam ser momentos decisivos e, em 2016, o candidato republicano mostrou ser capaz de os rentabilizar a seu favor. Acresce que os Democratas defendem uma maior carga fiscal em favor de uma agenda verde, o que pode afastar o eleitorado.
Comentários