Venha a violência, não posso é perder eleições

Os partidos que no passado, e no presente, estão a favor do cartão do adepto, porque sabem que esta medida é decisiva para reduzir a violência no desporto, estão dispostos a vender a sua ideologia pelo receio da perda de popularidade.

Em 2019, Governo e Assembleia da República decidiram fazer o que os clubes não quiseram (ou tiveram coragem) de fazer. O cartão do adepto foi aprovado com o intuito de eliminar o papel das claques enquanto intermediários na venda de bilhetes, e acabar com o financiamento dos clubes a todo um conjunto de práticas ilegais.

O esquema era simples: alguns clubes forneciam bilhetes para os líderes das suas claques venderem ao preço (e da forma) que mais lhes conviesse, sem que essa fatura muitas vezes fosse sequer cobrada. Em troca as claques faziam o trabalho sujo das direções. Por exemplo, são públicos casos como a invasão de Alcochete ou a dívida da Juventude Leonina de mais de 1 milhão de euros à Sporting SAD relativa a bilhetes. Verdadeiramente, a violência no desporto é residual, contrariamente à violência no futebol dos cinco clubes com mais adeptos em Portugal.

A contestação de (alguns) adeptos começou assim que os clubes implementaram a venda eletrónica dos ingressos, e os líderes de claques se viram desprovidos da sua habitual receita. Não colam os argumentos despropositados de que, por exemplo, 1) as famílias não podem ir fora ver os jogos das suas equipas, dado que existe em todos os estádios uma bancada sem exigência de cartão para adeptos visitantes, ou 2) os clubes estão a perder dinheiro por esses setores se encontrarem vazios, dado que em Portugal a procura por bilhetes para o futebol é inferior à oferta dos nossos estádios.

Nesta fase, até muitos já se esqueceram que esta proposta veio à Assembleia da República (AR) a primeira vez por iniciativa da Federação Portuguesa de Futebol e que, após dois anos de consulta a entidades desportivas do nossos país, o decreto-lei foi aprovado por unanimidade no nosso parlamento.

Contudo, hoje o problema deixou de ser de natureza desportiva e passou a ser da esfera da “politiquice”. É que com a dissolução da AR e a convocação de eleições legislativas antecipadas, a Iniciativa Liberal (IL) decidiu usar este tema como bandeira política, com desprezo para o Desporto e com a conivência dos restantes partidos.

Concretamente, a IL interpôs um agendamento de urgência para que o decreto-lei da Violência no Desporto fosse revogado ainda antes da dissolução da AR prevista para finais de Novembro (como se estivessem pessoas a morrer no entretanto). Não estará seguramente o único deputado da IL preocupado com os quatro minutos que os adeptos das claques perdem para fazer online o seu cartão para ir à bola, mas sim em marcar um golo na agenda mediática numa fase sensível da vida (legislativa) do país. Se por um lado foi o único partido que não votou a favor da lei no passado, é também um partido que não tem um único projeto vencedor na AR. E esta vitória vem mesmo a calhar antes das eleições…

E os partidos que no passado (e no presente) estão a favor do cartão do adepto, porque sabem que esta medida é decisiva para reduzir a violência no desporto, estão dispostos a vender a sua ideologia pelo receio da perda de popularidade. É que o futebol é, e será sempre, um tema mediático carregado de desinformação.

PS e PSD abstiveram-se na generalidade, permitindo que o assunto descesse à especialidade, com receio de perder votos para o jogo que realmente importa: as eleições de janeiro. Não importa o Desporto, nem a violência no Desporto, nem a possível repetição de casos como, entre outros, o do very-light. Importa é não dar o flanco que permita à oposição cavalgar uma onda mediática em tempo de campanha eleitoral. Assim são governados os ideais do nosso país…

Entretanto, a comissão em sede de especialidade enviou um pedido de pronúncia com uma série de perguntas discretas, direcionadas e fechadas a diversos stakeholders do Desporto na quarta-feira passada, e deu-lhes 72h de pronúncia. Isto sem qualquer garantia de inclusão da sua visão na nova proposta de decreto-lei. Lembre-se que estes parceiros, na anterior lei, foram auscultados durante dois anos e ao longo de várias versões do projeto-lei.

Pois bem, e depois de umas boas diretas no fim de semana dos especialistas em cultura, ciência e educação do nosso país a redigir uma nova lei para o Desporto, a AR prepara-se para aprovar o documento esta terça-feira.

Será mesmo possível que os nossos deputados vendam os ideais do nosso país ao populismo? Não poderá este tema ser adiado para depois das eleições e permitir uma consulta conveniente, como sugerem os pareceres dos stakeholders?

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