Ventos de mudança na banca

Neste contexto desafiante não haverá mercado para tantos bancos na Europa, deixando antever a necessidade de movimentos de consolidação que deverão chegar também a Portugal. Nos próximos anos veremos como os principais bancos a operar em Portugal se posicionam neste xadrez.

Longe vão os tempos em que trabalhar na banca era sinónimo de um emprego seguro, vida desafogada e reforma tranquila. Hoje, o sector é cada vez mais notícia devido às constantes reestruturações e planos de rescisão, com milhares de pessoas a perderem os seus empregos.

Infelizmente, com maiores ou menores custos humanos e sociais, será muito difícil inverter esta maré. Os bancos estão debaixo de uma fortíssima pressão para voltarem a ser rentáveis e, sobretudo, para se adaptarem aos desafios que se perspetivam no horizonte nos próximos anos. E o que aí vem promete ser tudo menos fácil: mais concorrência por parte das fintech e das Big Tech, novas moedas digitais que serão emitidas pelos próprios bancos centrais (terá a banca comercial de competir com o próprio BCE na captação de depósitos no futuro euro digital?) e uma opinião pública cada vez menos disposta a perdoar as falhas e pecadilhos dos banqueiros.

Para enfrentar este contexto cada vez mais desafiante, a banca irá precisar de capital. Mas apenas o conseguirá obter se a rentabilidade do sector – que em Portugal está na casa dos 3% a 5% – aumentar. Daí a necessidade de cortes de custos.

Porém, essas reduções de custos não serão suficientes, a menos que o objetivo seja ir de corte em corte até à derrota final. Para ser rentável e ter futuro, a banca terá de conseguir manter-se útil e necessária, algo que, face à evolução tecnológica em curso e ao surgimento de novos players digitais, não deve ser dado por adquirido.

Pela primeira vez em 300 anos, o cidadão comum está na iminência de poder viver sem necessidade de bancos, ou mais concretamente de bancos tradicionais. Até a contratação do crédito à habitação – que é a operação bancária mais relevante que a esmagadora maioria das pessoas faz ao longo da vida –, já pode ser feita quase 100% online, tornando desnecessária muita da estrutura física que os grandes bancos ainda têm, apesar dos cortes dos últimos anos.

Por outro lado, porquê recorrer a um banco se há quem preste os mesmos serviços de forma mais simples e conveniente? Com as devidas diferenças, o desafio da banca é semelhante ao que o jornalismo tem vindo a enfrentar nas últimas décadas. As mesmas empresas tecnológicas que viraram o negócio dos media de pernas para o ar poderão também tornar obsoletos muitos dos serviços financeiros tradicionalmente prestados pelos bancos. Já o estão a fazer, aliás, beneficiando de uma desigualdade de condições do ponto de vista regulatório que os bancos têm criticado com razão.

A digitalização atingiu em força o negócio dos media a partir do início do século, obrigando a um duríssimo processo de reconversão e aprendizagem que ainda decorre. A banca está agora a passar pelo mesmo. E tanto no caso da banca como do jornalismo, só sobreviverão os players que conseguirem ser úteis ao seu público e tiverem a sua confiança. No fim de contas, tanto a banca como os media vivem do crédito que os seus clientes lhes concedem.

Por outro lado, já se percebeu que nestas circunstâncias desafiantes não haverá mercado para tantos bancos na Europa, deixando antever a necessidade de movimentos de consolidação que deverão chegar também a Portugal. Quem irá devorar e quem será devorado? Nos próximos anos veremos como os principais bancos a operar em Portugal se posicionam neste xadrez.

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