Vice-presidente da Ongoing: “Acordo da combinação de negócios entre a PT e a Oi foi mal feito”

“O acordo da combinação de negócios entre a PT e a Oi foi mal feito”, disse esta quarta-feira Rafael Mora que adiantou que a operação tinha como base fortes interesses cruzados, dos acionistas brasileiros, do Grupo Espírito Santo, de Ricardo Salgado e de Zeinal Bava, ex-presidente da PT e da Oi.

Rafael Mora era o vice-presidente do Grupo Ongoing Strategy e foi COO – Chief Operating Officer e exerceu funções no Conselho de Administração da Portugal Telecom até 2017. Tendo também, e desde outubro de 2014, exercido funções no Conselho de Administração do Grupo Oi no Brasil, em representação da PT e Pharol.

O número dois da Ongoing foi esta quarta-feira ouvido na Comissão Eventual de Inquérito Parlamentar às perdas registadas pelo Novo Banco e imputadas ao Fundo de Resolução.

Rafael Mora, antigo administrador da PT, demonstrou estranheza pelo modelo escolhido para a fusão entre a operadora portuguesa e a brasileira Oi.

No dia 2 de outubro de 2013, a PT e a Oi anunciaram uma aliança dos seus negócios, apresentada como uma progressão natural da aliança industrial estabelecida no final de 2010, e com várias condições precedentes para o encerramento de tal aliança: a aprovação pelos acionistas e Conselhos da PT e Oi e a aprovação pelos reguladores.

“O acordo da combinação de negócios entre a PT e a Oi foi mal feito”, disse esta quarta-feira Rafael Mora que adiantou que a operação tinha como base fortes interesses cruzados, dos acionistas brasileiros, do Grupo Espírito Santo, de Ricardo Salgado e de Zeinal Bava, ex-presidente da PT e da Oi.

Recorde-se que a PT subscreveu em fevereiro e abril de 2014, através das então sociedades do Grupo PT, a PT International Finance BV e a PT SGPS, um total de 897 milhões de euros em papel comercial da Rioforte, com uma remuneração média anual de 3,6%.

Em 2014 o BES detinha, através da Avistar, 10,04 % do capital social da PT. Recorde-se que o BES foi resolvido em agosto de 2014.

Em julho de 2014 dá-se a notícia do BES e o incumprimento da Rioforte e os brasileiros renegociaram “o aborto da fusão entre a PT e a Oi”, referiu Rafael Mora.

Perante o incumprimento da Rioforte, a Portugal Telecom SGPS (hoje Pharol) emitiu um comunicado oficial, em 28 de Julho de 2014, a anunciar que juntamente com a Oi anunciavam que chegaram a acordo sobre os termos definitivos dos principais contratos a celebrar na sequência do Memorando de Entendimento (MoU) anunciado em 16 de Julho de 2014. A documentação estabelece que a PT SGPS iria permutar (…) com a Oi as aplicações de tesouraria na Rio Forte Investments (…) no montante de 897 milhões de euros, “em contrapartida de 474.348.720 ações ON [ações ordinárias] mais 948.697.444 acções PN [ações preferenciais] da Oi (…)”.

Mora disse ainda que o tema do financiamento da PT à Rioforte nunca passou pelo Conselho de Administração e que foi pedida uma auditoria independente (da PwC) – auditoria que é abordada na decisão instrutória da Operação Marquês. A decisão do juiz Ivo Rosa demonstra que a comissão de auditoria da PT e alguns administradores uniram esforços para conseguirem provar que estavam ilibados de responsabilidades na aplicação ruinosa em títulos de dívida da Rioforte, e, segundo sugere Ivo Rosa, com a cumplicidade da PwC, auditora escolhida para fazer uma auditoria à responsabilidade dos investimentos.

Rafael Mora confirmou hoje que “havia muito jogo por trás da auditoria”.

“A PT, embora tivesse estatutos blindados, era opável e por isso interessava ao BES ter um conjunto de acionistas alinhados”, explicou o ex-administrador da Portugal Telecom na CPI. O interesse do GES radicava em preservar o tal financiamento do grupo com a tesouraria da PT, revelou.

Na operação de fusão os ativos da PT seriam contribuídos para a Oi como parte de um aumento de capital, sendo que tais ativos deveriam ser avaliados entre 1,9 mil milhões de euros e 2,1 mil milhões de euros e a realização do aumento de capital da Oi entre um mínimo, de 7 mil milhões de reais brasileiros (equivalente, à data dos factos, a 2,3 mil milhões de euros) e um máximo de 8 mil milhões de reais brasileiros (equivalente, à data dos factos, a 2,7 mil milhões).

A liquidação financeira do aumento de capital foi a 5 de maio de 2014. Rafael Mora atirou também a Zeinal Bava, dizendo que o ex-CEO da operadora “ganhou por aquele aumento de capital 40 milhões”.

“Havia muito jogo por trás da operação de fusão” entre a Portugal Telecom e a brasileira Oi, disse Rafael Mora, ouvido esta quarta-feira na Comissão Parlamentar de Inquérito ao Novo Banco. “Zeinal Bava não foi despedido por causa do papel comercial da Rioforte, é despedido porque quis forçar uma fusão sem que os brasileiros soubessem”, revelou Rafael Mora.

Recorde-se que em 7 de outubro de 2014, Zeinal Bava renunciou ao cargo de CEO da Oi, empurrado pelos brasileiros que já tinham conseguido o que queriam, que era que a reversão da fusão PT/Oi fosse aprovada em AG da PT SGPS, bem como os novos termos que punham a PT SGPS com “menos” ações da Oi, com o papel comercial da Rioforte e sem as operadoras (MEO) que ficaram para a Oi, tendo depois sido vendidas pela operadora brasileira à Altice em dezembro de 2014.

Rafael Mora relatara antes que os membros do grupo brasileiro brindaram com o negócio com a PT. “A gente brindou na Travessa [Restaurante] na noite em que o Conselho de Administração da PT aprovou a combinação de negócios. Porque ninguém entrega os ativos antes de se casar”, relatou.

“Abrimos uma garrafa de champanhe. Porque se você estivesse na sala não entregaria os ativos [da PT à Oi antes da fusão estar concluída]”, contou Rafael Mora, citando os representantes dos acionistas brasileiros, liderados por Octávio Azevedo.

“Quem entregaria os ativos antes do casamento?” perguntou dizendo que a PT entregou todos os ativos do grupo Portugal Telecom à Oi, antes da fusão estar concluída, que aliás acabou por nunca acontecer. Os brasileiros eram detentores dos ativos e tinham a faca e o queijo na mão, confessou Mora.

Depois, “conseguiu-se um acordo que não sendo bom era melhor do que esperado porque estávamos a negociar com os donos dos ativos”, pois “já não tínhamos ativos nenhuns, tínhamos 25% de uma sociedade resultante da fusão e um acordo parassocial que dava controle ao grupo brasileiro e que obrigava a votar com eles”, referiu. Mas depois “conseguimos que a Oi tivesse um acordo de governação diferente sem acordo parassocial”, disse Mora

O antigo número dois da Ongoing fez questão de dizer que quando entrou na Oi, em outubro de 2014, a operadora brasileira estava falida.

Disse ainda que ligou a Octávio Azevedo a dizer que como vivia no Brasil seria ele o administrador da Oi em nome da PT. Octávio Azevedo respondeu-lhe: “oi cara, isso é impossível porque você não é administrador executivo e de acordo com o parassocial só pode entrar no Conselho de Administração da Oi um diretor ou um administrador executivo do grupo PT”.

Aí Rafael Mora ligou para João Mello Franco, que era presidente da PT na altura, reuniram o Conselho de Administração da Portugal Telecom de urgência e revogaram a comissão executiva e pela lei portuguesa, isso significa que todos os administradores passam a ser executivos.

A 18 de setembro de 2014, a PT SGPS nomeou João Manuel de Mello Franco para presidir ao Conselho de Administração e simplificou a governação ao destituir a Comissão Executiva e concentrar toda a tomada de decisões de gestão no Conselho de Administração.

A partir daí Mora assumiu a administração da Oi e viu que aquilo que estava falido. “Tinha uma dívida de 65 mil milhões de reais”, salienta. “Tivemos de declarar a proteção de credores em recuperação judicial, mas é preciso que se diga que não houve em Portugal manifestações dos lesados da PT, porque antecipamos o pagamento dos pequenos credores da PT e da Oi abaixo de 50 mil reais (os que compraram dívida da PT nos balcões dos bancos)”.

Rafael Mora sabia que havia investimentos da PT e do BES na Ongoing. Já da Eurofin, que segundo a deputada do Bloco de Esquerda decidia o investimento de unidades de participação dos fundos da Espírito Santo Rendimento, disse que nunca tinha ouvido falar até à Operação Marquês.

Operações de poder da Ongoing revisitadas

Na ronda das perguntas da deputada Mariana Mortágua, do BE, Rafael Mora foi questionado sobre a Global Investment que geria fundos de private equity com ativos de 280 milhões e onde estavam a Insight Strategic Investments e outras empresas da Ongoing. Um desses fundos tinha ações da Real Time que Rafael Mora liderava.

“Não sabia que quem estava a comprar as unidades de participações desses fundos, que por sua vez investiam nas empresas da Ongoing, eram fundos da Espírito Santo Rendimento e da BES Vida?”, questionou a deputada do Bloco.

“Eu disse ao presidente da Portugal Telecom que gostaria de ter um representante da PT na Real Time”, revelou dizendo desconhecer que esses fundos eram financiados pelo BES.

Mariana Mortágua questiona Mora sobre o fundo de saúde da PT que investiu dezenas de milhões (75 milhões) em produtos Ongoing sem conhecimento do comité de investimentos do Fundo, o que aliás levou à demissão de um dos administradores da PT (representante da CGD), tendo, depois disso, o próprio responsável por esses fundos se demitido da Portugal Telecom e ido trabalhar para a Ongoing. “Não havia comité de investimento no fundo de saúde da PT, disse Mora. “A decisão de investimento do fundo da PT na dívida da Ongoing foi tomada por Zeinal Bava que deu instruções a Luís Pacheco de Melo, e Ricardo Salgado falou com ele”, disse lembrando que “o comité de investimento foi criado à posteriori”.

Fernando Soares Carneiro tinha responsabilidades no fundo de saúde da PT que financiou a Ongoing, mas limitou-se a executar uma ordem que veio de cima, disse o ex-responsável da Ongoing.

Este administrador da Portugal Telecom (PT), não se demitiu, “foi empurrado para fora da PT”, revelou.

“Zeinal Bava e Henrique Granadeiro aproveitaram com grande habilidade as relações privilegiadas com Ricardo Salgado para fazer um golpe palaciano”, relatou lembrando que aproveitaram as buscas na PT (da Polícia Judiciária), por causa do filho de Paulo Penedos que trabalhava com Rui Pedro Soares que era administrador da PT, para forçarem a demissão de Soares Carneiro que tinha entrado no Conselho de Administração da PT por influência do ministro Mário Lino.

Ricardo Salgado terá telefonado para Nuno Vasconcellos a dizer-lhe que tinha de convencer Soares Carneiro a demitir-se e terá dito “contrata-o para que trabalhe contigo”, disse Mora que afirmou que estava contra essa decisão. Soares Carneiro acabaria por sair da PT e ser contratado pela Ongoing e mandado para o Brasil. Mora reconheceu que assinou o contrato de contratação.

Rafael Mora já antes tinha dito não saber nada do papel comercial que a Ongoing vendeu ao BES, ESAF e BES Vida. Esta operação traduziu-se num aumento de exposição do grupo Ongoing ao BES e Novo Banco num valor muito significativo, referiu o deputado do PSD, Hugo Carneiro.

Funções de Mora no Grupo

Ainda na sequência das perguntas da deputada do Bloco de Esquerda, Mariana Mortágua, Rafael Mora admitiu que foi vice-presidente da Ongoing Strategy Investment e administrador da RS Holding (que detinha o Grupo Ongoing e a parte industrial), depois de antes ter dito que tinha sido COO – Chief Operating Officer do Grupo Ongoing, e que nunca teve responsabilidades no orçamento financeiro do grupo. “Nunca exerci funções com responsabilidade do pelouro financeiro em qualquer das empresas do Grupo Ongoing, ou Grupo Rocha dos Santos” que, segundo disse, “foram centralizadas em Nuno Vasconcellos”.

Rafael Mora disse ainda que “por razões estritamente operacionais” deteve desde o lançamento, uma participação simbólica na HIS Tecnologia e Sistemas de Informação, no Brasil, e o outro sócio era a HIS Portugal.

Deteve uma participação minoritária na Webspectator sediada nos Estados Unidos. Durante quase sete anos, até ao início de janeiro de 2015, foi Chief Operating Officer do Grupo Ongoing, dos quais diz que passou cinco anos a viver no Brasil, onde, depois de sair da Ongoing, permaneceu até julho de 2017, altura em que regressou a Portugal.

Foi sócio na Heidrick and Struggles de Nuno Vasconcellos, essa empresa foi integrada em 2008 no grupo Ongoing. Hoje Mora, que foi o braço direito de Nuno Vasconcellos no grupo Ongoing, diz que desde dezembro de 2014 não tem nenhuma ligação com o ex-dono do grupo Ongoing. Nesse ano houve a resolução do BES. Mas recusou que tivesse sido a queda do grupo que tenha motivado os desentendimentos entre os dois. Diz agora que houve “várias discordâncias ao longo dos tempos”, mas diz que foi com o divórcio de Nuno Vasconcellos que a discórdia mais se acentuou. Pois esse divórcio ocorreu um ano depois de o Grupo Ongoing ter comprado jornais no Brasil com empréstimo de 80 milhões do BES. A ex-mulher de Nuno Vasconcellos tinha 70% e o grupo Ongoing tinha 30% e Rafael Mora temia que o divórcio pusesse em causa o grupo no Brasil.

Os jornais no Brasil ainda sobrevivem, ao contrário do Diário Económico que entrou em insolvência em 2016.

A primeira demissão de Rafael Mora do grupo, segundo relatou, foi em junho de 2012, e foi motivada com a contratação do ex-expião Jorge Silva Carvalho para CEO da Ongoing Portugal. Mora alegadamente opôs-se e Nuno Vasconcellos entendeu essa oposição como uma espécie de “ciúmes”.  “Estás com medo que venha gente para o grupo que te faça sombra”, terá dito Nuno Vasconcellos a Rafael Mora, segundo este.

A mãe de Nuno Vasconcellos também insistiu na contração de um CEO da Ongoing para Portugal, e Rafael Mora impôs como condição que Silva Carvalho ficasse com a parte financeira e ele com a parte operacional (estratégia). Sendo que aqui havia duas áreas, media e tecnologia. “Ele escolheu media e eu fiquei com a tecnologia em 2012”.

Na altura o grupo criou uma unidade de serviços partilhados, Ongoing Shared Services – OSS, “absolutamente chocante”, disse. “OSS é o primeiro nome da CIA”, disse o ex-vice-presidente do grupo Ongoing.

O ex-director do SIED, Jorge Silva Carvalho assumiu a área das operações financeiras, a área de suporte, esclareceu.

Rafael Mora ficou a liderar a Real Time Corporation do grupo Ongoing que “tinha muito potencial” na altura e hoje não vale nada. Tinha quatro áreas: publicidade digital; e-commerce; e-health (telemedicina); e Internt of Things. Rafael Mora queria aproveitar a rede de distribuição da PT, da Vivo ou da Oi no Brasil. A empresa foi financiada pelo BES e a dívida desta empresa era de 100 milhões de euros.

“Eu quando saí do grupo (em janeiro de 2015) a Real Time tinha em caixa 10 milhões de euros para fazer face a um ano inteiro de responsabilidades sem problema nenhum”, revelou. “Esse valor, tanto quanto me informaram, foi utilizado para pagar a reestruturação fiscal dos jornais no Brasil e na empresa em Portugal deixaram de pagar impostos e a segurança social”, disse ainda.

O ex-sócio de Nuno Vasconcellos relatou ainda que em agosto de 2015, o diretor geral da HIS Portugal e Brasil fez uma proposta ao Novo Banco de MBO da HIS Brasil, onde assumia a dívida depois de reestruturada e propunha um upside no plano de venda, mas Vítor Fernandes, então administrador do Novo Banco, disse que “o banco estava tranquilo com a gestão do acionista”. Passado um ano a empresa estava falida.

Em dezembro de 2014, segundo diz Mora, Nuno Vasconcellos num almoço diz que “a sua nova mulher” não percebia porque é que ele era presidente de todas as empresas do grupo exceto da área tecnológico. Aí demitiu-se do grupo.

“Havia muitos maçons havia… A brincar, entre nós, chamávamos os amigos de infância”, disse. Eram pessoas que Rafael Mora não conhecia, o que era estranho porque, segundo diz, conhecia Nuno Vasconcellos desde os 21 anos e bem assim todos os seus amigos e aqueles nunca tinha ouvido falar deles.

Rafael Mora aponta ainda o almoço de Nuno Vasconcellos com Francisco Pinto Balsemão (a Ongoing chegou a ter 23% da Impresa) – em que o seu ex-sócio propõe um aumento de capital na Impresa em troca de Nuno Vasconcellos ser CEO do grupo – o inicio do fim do projecto. “Foi avisado por mim” e “três pessoas próximas dele e que tinham alguma influência intelectual no comportamento dele” (incluindo o próprio Mora) tentaram demovê-lo desse almoço, disse Mora que defende que essa decisão terá sido influenciada por Ricardo Salgado.

Portanto para Rafael Mora, bastava olhar para as notícias do Expresso do ano anterior, que “tinha como alvo de estimação o BES”, para perceber qual era a estratégia de Ricardo Salgado.

Até porque, relata, a partir desse almoço o inimigo de estimação da Impresa deixou de ser o BES e passou a ser a Ongoing. “O BES desapareceu do radar [do Expresso] e um ou dois anos depois houve um almoço no Ritz, intermediado por André Gonçalves Pereira, onde foi assinada a paz entre Salgado e Balsemão, e subsequentemente o BES reestruturou a dívida da Impresa”, relatou. Para Mora o erro da Ongoing em querer crescer na Impresa foi subestimar que “Balsemão era um inimigo implacável” e tinha a estrutura “toda blindada”.

Mais tarde Mora também revelou que era estratégia do grupo integrar o Diário Económico no grupo Impresa, operação que na sua opinião tinha um racional.

A Ongoing vendeu 23,13% da Impresa por 50 milhões de euros em 2014.

O deputado do PSD confrontou ainda Rafael Mora com operações em que poderá ter havido garantias de Estado. Tem a ver com duas operações do programa PME Invest, uma de 500 mil euros e outra de 375 mil euros, no total de 875 mil euros ambas garantidas pela sociedade de garantia mútua, relativas à HS e à ST & SF (dona do Económico).

“Eu não estava no dia-a-dia financeiro”, disse Mora que reconheceu a HS “era nitidamente dentro da minha esfera”. Nada disse sobre a ST & SF que era a empresa dona do Diário Económico e que também estava dentro da sua esfera.

“Não conheço a Ongoing Energy”… “Olhe o contrato foi assinado por si, diz deputado do PSD

Ainda na sequência das perguntas Hugo Carneiro, foi confrontado com a informação de no dia 24 de junho de 2013 ter sido celebrado um contrato entre a Ongoing Strategy Investments (OSI) e a Ongoing Energy em que esta compra 39,3 milhões de ações da Impresa. O deputado do PSD diz que isto “foi celebrado com a ajuda do escritório de advogados VdA”.

Foi vendida pela OSI à Ongoing Energy e foi pago com a transferência da dívida da Ongoing Strategy (de que Mora era vice-presidente) para a Energy. O preço acordado na transação é de 71 cêntimos por ação, apesar de na mesma data as ações valerem 62 cêntimos, revela o deputado que conclui que a OSI se financiou em quatro milhões de euros com esta operação (com a diferença de 10 cêntimos por ação). Tudo com a autorização do BES, que à época autorizou esta transferência da dívida entre as duas empresas. “Eram negócios simulados”, diz o deputado. Rafael Mora disse que não sabia que havia uma “Ongoing Energy”, e apontou a Vasconcellos e ao BES.

Mas eis que o deputado do PSD confronta Mora com o contrato que foi assinado em 2013, e que tem a assinatura de Rafael Mora. “É perfeitamente possível”, disse o ex-sócio que tinha acabado de dizer que não sabia o que era a Ongoing Energy.

A Ongoing Energy assumiu uma dívida da Ongoing Strategy ao BES e do lado da Ongoing Energy assinaram Nuno Vasconcellos e James Edward Gill e do lado da Ongoing Strategy assinaram Rafael Mora e Gonçalo Faria de Carvalho (CFO da empresa que controlava o Diário Económico).

O deputado do PSD confrontou ainda o inquirido com o crédit default swap (CDS) do Crédit Suisse, que abrange os 2% da PT (com financiamento do BES de 200 milhões), e os prejuízos que isso gerou para o Novo Banco. “Era um instrumento de crédito onde se pagavam juros, mas em que a pertença das ações (o risco) estava no BES a 100%, ou seja, estava garantido pelo banco”, disse.

Mariana Mortágua por sua vez confrontou o gestor com documentos internos do Novo Banco, de 2016, que dizem que existia o risco das empresas HIS Portugal e HIS Brasil, IBT Portugal e IBT Brasil e Mobit Portugal e Brasil estarem a ser esvaziadas de contratos e recursos humanos.

Rafael Mora revelou que mandou dois whatsapp em setembro de 2018, um a António Ramalho e outro a Jorge Cardoso (ambos do Novo Banco), em que falava do processo de falência da IBT Portugal solicitada pelo banco em 2016. “Constituiu-se como credor a EDP comercial, que tinha uma dívida de 1.736 euros, e até ontem à noite a EDP comercial era representada pelo advogado de Nuno Vasconcellos, que solicitou a subordinação da dívida do Novo Banco no processo de insolvência”, revelou Mora sem nomear o advogado.

“Apareceram, um ano depois do fim do prazo, duas sociedades brasileiras como credoras de 20 milhões de euros, duas sociedades que nunca tiveram relação com IBT Portugal”, desvendou, insinuando que se tratou de créditos fictícios. Isto é, Mora diz que o advogado de Vasconcellos usou a EDP Comercial para reclamar créditos fictícios. A EDP Comercial também pediu a expulsão da administradora judicial, disse ainda.

João Paulo Correia, deputado do PS, traz à baila a tentativa de compra da TVI pela PT (e com apoio da Ongoing) e a frase famosa do então deputado do PSD, Agostinho Branquinho: O que é a Ongoing? Oito meses mais tarde, o deputado foi contratado pelo Grupo para a Ongoing Brasil. Quem o contratou? Rafael Mora diz que foi Nuno Vasconcellos que pediu que contratasse Agostinho Branquinho e apesar da contratação ter sido concretizada por si, diz que o fez apenas para cumprir o pedido do dono da Ongoing. Diz ainda que o contratou com a condição de que o deputado teria de se demitir antes e só depois receberia o convite de trabalho da Ongoing e assim foi, Agostinho Branquinho foi gestor dos jornais no Brasil. Mora disse que não se manifestou contra porque não queria voltar a ser acusado de estar contra quem lhe fizessem sombra.

Rafael Mora foi relatando um rol de contratações milionárias “esotéricas” que a Ongoing ia fazendo (como o ex-presidente da Telecom Itália, Silva Carvalho, Agostinho Branquinho) e que, apesar “de estar contra” cumpria e contratava. “Cumpria ordens sem contestar”, disse o deputado do PS sobre a resposta de Mora.

Tecnicamente não sou devedor

“Considera-se co-responsável por uma dívida de quase 600 milhões que a Ongoing deixou ao Novo Banco?”, perguntou o deputado do PS. Rafael Mora disse que “tecnicamente não sou devedor”. Admitiu que “as empresas que geri contraíram dívidas com o BES, quando eu saí as dívidas não estavam ainda em incumprimento e eu não fui acionista da Ongoing”, respondeu.

Acrescentou que “tive responsabilidade na contratação do crédito? Claro que tinha, não sou cínico. Mas as condições que levaram a que aqueles créditos passassem a ser incobráveis não sei, porque já não estava no grupo”. Mora voltou a apontar a Nuno Vasconcellos porque era quem tinha a responsabilidade financeira e a relação com o BES.

“As relações com o BES eram da responsabilidade pessoal de Nuno Vasconcellos”, reforçou Rafael Mora acrescentando que “eu pouco participava”.

“Eu posso ter assinado créditos, mas eu trabalhava num grupo que tinha dono e o dono me dizia ‘vamos fazer um crédito com o BES’, eu sempre dizia ‘temos dívida alta, mas tudo bem’. Eu assinei a transferência da dívida da Ongoing (holding) ao BES para as empresas operacionais a que as dívidas diziam respeito, o que me pareceu justo. Pareceu-me normal assinar esse tipo de operações. Mas eu não negociava contratos com o BES, a minha função era operacional. Eu fui ao BES duas ou três vezes, explicar as os planos de negócios da empresa tecnológica no âmbito do ETRICC”, disse Rafael Mora.

“Eu também fui lá quando o BES me disse que tinha que ter um CFO nomeado por eles para a Real Time do Brasil e eu aceitei, mas impus como condições que fosse uma pessoa competente e que morasse no Brasil e assim foi”, relatou.

“Pode concluir é que eu, no que diz respeito à área financeira, cumpria ordens do dono do grupo [Vasconcellos] porque era ele quem geria”, frisou.

Rafael Mora explicou ainda que desde julho de 2014 até dezembro, 90% do tempo foi dedicado à PT e Oi, “mas também tive reuniões com Nuno Vasconcellos e a sua mãe alertando para a necessidade de desenhar uma estratégia de deleveraging (de venda de ativos) de forma a poder reestruturar e negociar um plano de pagamento da dívida, uma vez que na resolução do BES era importante fazer esse tipo de acordo, mas Nuno Vasconcellos não aceitou dizendo que tinha um fundo private equity inglês que ia comprar os créditos da Ongoing no Novo Banco, eu não acreditei que houvesse qualquer fundo”, disse. “Depois fui-me embora”, repetiu.

Recorde-se que Nuno Vasconcellos foi alvo de um processo de insolvência a título pessoal por uma dívida de 12 milhões de euros por parte do Novo Banco.

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