Vieira rima com impunidade

Berardo, Moniz da Maia, agora Vieira, entre tantos outros, são uma amostra clara da mediocridade, da falta de respeito e cultura, de uma elite financeira mal formada e que se está marimbando para a comunidade.

José Cid era um romântico quando cantava “na cabana junto à praia”. Já Luís Filipe Vieira toca com acento rústico com a “casa para palheiro” que entretanto vendeu. Estas cantigas ouvem-nas os portugueses, a primeira com gosto, a segunda com o som putrefacto de quem os goza na cara.

O Parlamento é para ser respeitado e uma Comissão Parlamentar de Inquérito ainda mais. O presidente do Benfica até faltou ao derby com o FC Porto, pois estava a preparar a sua intervenção perante os deputados, porém, não sei quem o preparou pois o efeito foi perverso… Porque foi mais um decisor relevante na sociedade portuguesa por mexer em centenas de milhões de euros, e ser um dos principais devedores do Novo Banco a exibir o seu melhor “traje de luzes” e apetências tauromáquicas, pois o que vemos são estes brincalhões a não esclarecerem nada, limitando-se  apenas a tourear os concidadãos em plena Assembleia da República.

Não é a primeira vez, nem será a última, que empresários não se lembram, não sabem, não têm a certeza, não conhecem, respondem por escrito para a semana, contudo, de peito feito para enganar incautos, lá vêm com o habitual soundbyte ensaiado: “eu não fujo”, que é hipócrita, porque há anos que estão em incumprimento e deixam os buracos dos seus investimentos ruinosos para português ver e depois pagar.

Eles são os agressores, nós somos as vítimas sem defesa. Eu não sei se eles têm a noção do humilhante papel a que se submetem à vista de todos, é uma vergonha mas provavelmente já perderam a vergonha há muito.

Berardo, Moniz da Maia, agora Vieira, entre tantos outros, são uma amostra clara da mediocridade, da falta de respeito e cultura, de uma elite financeira apodrecida, mal formada e que se está marimbando para a comunidade. Vestem a pele de imbecis no Parlamento enquanto os calotes perduram.

Vieira afirma: “tenho negócios, uma boa reforma, vivo bem”. No entanto, para um homem da sua idade dar a entender que era quase um testa-de-ferro de Ricardo Salgado e foi empurrado pelo BES para ficar com alguns negócios e até ser candidato a presidente do Benfica, é deveras aviltante e degradante, isto se ainda lhe sobra um pingo de consciência. Duvido.

Raskolnikov era a personagem principal de “Crime e Castigo” de Dostoievski. O escritor russo odiava o capitalismo e representou-o na figura da velha que oprimia o protagonista da obra. Em pleno século XXI, em Portugal, o opressor é o capitalista que nos engana e se borrifa para nós, o povo. Para estes empresários especialistas em dívida à banca ad aeternum, o título de Dostoievski teria de ser, porque continuam a andar por aí sem emenda ou penitência, “Crime sem castigo”.

São perfeitamente risíveis estes exercícios de amnésia selectiva. Já chega deste deboche com os portugueses. Tanto do lado da banca, a quem temos pago e tapado todos os buracos de incompetência com os nossos impostos, como a estes vultos da nata do entulho da elite empresarial.

Luís Filipe Vieira tem um enorme palmarés no que toca a casos judiciais e várias medalhas de latão com as dívidas do seu grupo. Tudo isto se resume a uma certeza: Vieira rima com impunidade. Que triste figura.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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