Virgílio Lima: “Imparidades de hoje são fontes de valor no futuro”

A PwC avaliou o Banco Montepio pelo valor dos seus capitais próprios, ou seja, cerca de 1.500 milhões de euros, obrigando à constituindo imparidades. “Existem 1.049 milhões de euros em imparidades que são reversíveis, à medida que as empresas forem cumprindo os seus Planos de Negócio no futuro recuperando valor”, diz Virgílio Lima que apela de “fontes de valor no futuro”.

Cristina Bernardo

Há um potencial de reversão das imparidades que foram constituídas por imposição da auditora PwC para o valor do Banco Montepio no balanço da Associação Mutualista Montepio Geral “que importa destacar”, foi esta a mensagem principal de Virgílio Lima que sucedeu a Tomás Correia à frente da instituição.

Imparidades são correções ao valor quando a avaliação que é feita é inferior ao valor contabilístico.

“Existem 1.049 milhões de euros em imparidades que são reversíveis, à medida que as empresas forem cumprindo os seus Planos de Negócio no futuro recuperando valor”, diz Virgílio Lima que apela de “fontes de valor no futuro”.

“Com resiliência podemos esperar, num horizonte pós-pandemia, a realização de valor, em fontes diversas, que permitirá que continuemos a corresponder às expetativas dos associados, como sempre aconteceu ao longo dos 180 anos”, realçou Virgílio Lima.

O presidente da Mutualista explicou ainda que as necessidades de capital da Associação, por causa das suas vicissitudes, não dão lugar a uma operação de aumento de capital como acontece nas outras sociedades. As necessidades de capital são satisfeitas com um aumento das quotizações dos associados ou por via da redução dos benefícios dos associados.  Já que no caso do grupo Montepio, os clientes e os acionistas são as mesmas pessoas.

O principal ativo da Associação Mutualista foi alvo de imparidades de 377,5 milhões de euros nas contas de 2019, e essas foram responsáveis pela maior parte dos prejuízos da entidade da economia social. A Mutualista registou prejuízos de 408,8 milhões de euros.

“As palavras chave são reversão, desacordo e resiliência”, disse o presidente da associação.

Os resultados negativos da Mutualista foram ainda justificados por uma imparidade para a participação na Montepio Seguros, no valor de 14,8 milhões; pelo reforço das provisões matemáticas das modalidades atuariais, no valor de 34,7 milhões de euros; e ainda pelo reforço de dotação para o Fundo de Pensões dos trabalhadores cedidos pelo banco à sua acionista, relativo a pressupostos atuariais do período de 2017 a 2019 no valor de 4,5 milhões.

“Sem estes efeitos não recorrentes os resultados teriam sido positivos no valor de 13,5 milhões de euros.

Mas “estes impactos não recorrentes não são perdas definitivas”. Podem pois “ser revertidos nos próximos anos, à medida que o Banco e a Lusitânia (seguradora de ramos reais melhorem o seu desempenho. gerando valor em linha com os objetivos. Também as provisões matemáticas e as provisões para o fundo de pensões podem ser recuperadas, porque decorreram do nível extremamente baixo das taxas de juro, que não se manterão eternamente neste patamar e que, quando subirem, libertarão as correspondentes provisões”.

Virgílio Lima fez questão de referir que, apesar de discordar da avaliação da PwC, o Conselho de Administração “assumiu” este valor. Um valor que reflecte uma “prudência”.

“Podíamos ter mantido o valor do banco que consideramos justo, mas os auditores fariam uma reserva na Certificação Legal de Contas, e ficaria a dúvida sobre o valor, que na opinião dos auditores, o banco valeria”, disse na conferência de imprensa que se realizou em Lisboa depois de na véspera terem sido aprovadas as contas de 2019 individuais em Assembleia Geral.

A PwC avaliou o Banco Montepio pelo valor dos seus capitais próprios, ou seja, cerca de 1.500 milhões de euros.

O valor do banco, segundo a Mutualista, é definido entre o valor de mercado (ou justo valor) e o valor de uso, sendo aceite o maior dos dois. Mas a PwC não seguiu o chamado “valor de uso”.

O Conselho de Administração diz que o valor de uso do banco “é muito superior ao valor dos capitais próprios [diferença entre ativos e passivos]”porque é uma organização produtiva, capaz de gerar resultados no futuro, o que lhe acrescenta valor”. Esse negócio futuro é traduzido num Plano de Negócios, validado pelo Conselho de Administração e entregue às Autoridades. De acordo com este Plano, que serve de base à avaliação do acionista, e com as taxas de atualização que consideramos adequadas, o valor atual desse negócio futuro seria superior aos 1.878 milhões, que era o valor contabilístico”.

“Este é o Plano de Negócios que é entregue às entidades de supervisão. Tem essa consistência”, disse Virgílio Lima.

Mas os auditores, diz Virgílio Lima , “observando o desempenho do banco nos últimos anos, contestaram o Plano de Negócios, aceitando a taxa de atualização (taxa de desconto) que apresentávamos”. O presidente da Mutualista diz que convocou para uma reunião a Comissão Executiva do banco, a PwC, e o Conselho de Administração da instituição.

Depois dessa reunião, a PwC aumentou a taxa de desconto para aproximar o valor do banco ao valor da sua situação líquida, revela a administração da Mutualista.

O valor de mercado é o referencial adequado para empresas cotadas, lembrou o gestor. O valor de uso é o que está para lá desse valor imediato.

O banco é a rede de distribuição da Associação Mutualista e por isso o “valor de uso” é o adequado para avaliar o banco, diz o presidente da Associação Mutualista. “Quanto custa criar uma rede própria?”, deixa a questão o gestor que admite não ser um valor facilmente mensurável.

“Os clientes do banco também são associados da Mutualista, o que dá uma natureza diferente a este grupo porque há uma base mutualista. Os mutulistas são beneficiários finais dos resultados que ajudam a criar”, lembra o Virgílio Lima.

O capital do banco é constituído pela poupança dos associados, diz. O Banco Montepio só pode ser detido, maioritariamente, por uma entidade do terceiro setor, lembra o gestor para defender que o valor de uso seria a o referencial adequado. O Banco Montepio serve de canal de distribuição de todas as entidades do grupo Montepio Geral.

“O número de produtos detidos pelos clientes associados é muito superior ao número de produtos detidos pelos clientes não associados e a sua rendibilidade é superior”, diz o presidente da Associação.

No entanto, Virgílio Lima reconheceu a “necessária autonomia” do banco face à Associação Mutualista Montepio Geral.

“O valor de uso não foi suficiente valorado pelo auditor, que comparou o nosso banco a outras entidades cotadas em bolsa e com transações diárias”, concluiu o presidente da Mutualista.

“Respeitamos os auditores, a sua independência, a natureza do seu papel”, ressalvou.

A nova auditora do Grupo Montepio, PwC, obrigou a uma reavaliação em baixa do valor do Banco Montepio no balanço da Associação Mutualista Montepio Geral e isso fez com que o valor dos Resultados Líquidos, em 2019, fosse de -408,8 milhões de euros, o que compara com um lucro de 1,6 milhões de euros em 2018.

“O prejuízo de 2019 foi fortemente influenciado por impactos não recorrentes de grande materialidade, relacionados com a contabilização das provisões matemáticas e das imparidades para as duas maiores entidades do grupo, o Banco Montepio (377,5 milhões) e a Montepio Seguros (14,8 milhões)”, diz o Relatório e Contas a que o Jornal Económico teve acesso.

É de salientar que a imparidade acumulada do Banco Montepio soma assim 875 milhões de euros.

Os prejuízos, por sua vez, foram responsáveis por uma queda de 55% dos capitais próprios da associação, de cerca de 700 milhões para 337,4 milhões de euros. “Mas temos um grau de cobertura de 1,24 o que significa os nossos ativos superam em cerca de 25% o valor das nossas responsabilidades”, disse ainda o presidente da Mutualista que salientou também que há um conjunto de ativos que não estão relevados contabilisticamente, “e bem”.

A Mutualista disse hoje que “há um potencial de realização do valor associado a projectos imobiliários em curso, que se refletirão em ganhos futuros muito significativos, não relevados contabilisticamente”. São imóveis na Praça de Espanha, na Escola Académica do Porto, em Braga, em Coimbra, em Faro,  “são projetos imobiliários com potencial de realização de valor muito significativo, acima de 100 milhões”, disse.

Por outro lado têm ativos no grupo em que as regras obrigam à constituição de imparidades.

Virgílio Lima diz que as normas contabilísticas obrigam a imparidades quando o valor é inferior ao valor contabilístico, mas quando esse valor é superior não é relevado nas contas.

“A Associação detém empresas com valor bastante superior ao seu valor contabilístico, como é o caso da Lusitânia Vida e Residências Montepio”, explicou o presidente da Mutualista.

“A Lusitânia Vida que vale 110 milhões, está na contabilidade por 86 ou 87 milhões e as Residências Montepio para seiores está nas contas por 8,8 milhões e vale 40 milhões milhões”, explicou o gestor.

“Temos cerca de mil milhões de imparidades acumuladas ao longo do tempo no banco e na Lusitânia ramos reais, e há aqui uma capacidade de recuperação num horizonte mais lato. Porque o banco tem neste momento uma rentabilidade baixa (1,4%), que compara com a média de 8% do setor (incluindo o Novo Banco). Mas o nosso objetivo é convergir com a média do setor, e é por isso que os planos de negócio são importantes e realizáveis. Isto também liberta imparidades”, disse o presidente da Mutualista Montepio que lembrou que o banco e a seguradora deram resultados positivos em 2019. As residências também tiveram lucros, apesar do esforço de investimento”, explicou ainda.

“O reforço das provisões matemáticas decorrente do ambiente de baixas taxas de juro que estamos a viver são também reversíveis porque não vamos ter estas taxas de juro para sempre, a subida dos juros vai permitir a recuperação dessas provisões”, esta é mais uma fonte de valor para o presidente da Mutualista.

“Mesmo nos anos crise nunca precisamos de ajudas públicas, foram os associados que responderam e sempre distribuímos rendimento pelos nossos associados e pretendemos continuar a distribuir”, assegurou o presidente a associação.

A PwC e o Conselho Fiscal divergem no valor justo do Banco Montepio no balanço da Mutualista, isso mesmo revela o parecer do Conselho Fiscal.

As demonstrações financeiras da MGAM foram preparadas no pressuposto da continuidade das operações e tendo por base a avaliação efetuada pela Administração relativamente à capacidade para fazer face às exigências de liquidez, salienta a auditora.

“A continuidade das operações encontra-se dependente, nomeadamente, da concretização do plano de ação e orçamento anual aprovado pelos associados em 30 de dezembro de 2019, tendo presente o atual contexto desfavorável, associado aos eventuais impactos da pandemia”, adianta ainda.

A PwC aprovou as contas com uma reserva e duas ênfases.  No relatório e contas de 2019 lê-se que “(…) os referidos investimentos são mensurados ao custo de aquisição deduzido de perdas por imparidades, sendo estas apuradas tendo por base a diferença entre o valor recuperável dos investimentos e o seu valor contabilístico”, diz a PwC. Mas, tal como a Mutualista descreve no documento, “o valor recuperável determinado corresponde ao maior valor obtido, de entre o valor em uso e o justo valor, líquido de custos de venda”, é a isto a PwC salienta a ênfase.

A outra ênfase salienta que o balanço da MGAM inclui no ativo montantes de 1.721,6 milhões de euros e 2.083,9 milhões de euros em 31 de dezembro de 2019 e 31 de dezembro de 2018, respetivamente, relativos a investimentos em subsidiárias e associadas, dos quais 1.500,15 milhões e 1.877,6 milhões de euros respeitam à “mensuração da participação financeira de 99,99% na CEMG [Banco Montepio] nas respetivas datas”.

 

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