Votar? Votar, pois então!

Prefiro ver alguns dos aspectos positivos que este acto eleitoral veio mostrar. Primeiro, que o voto antecipado e por correspondência está em crescendo.

Muito se falou nestas eleições legislativas na participação eleitoral. Sendo mais preciso, muito se falou nos valores registados pela abstenção. Abordagens que, em geral, se focaram na tragédia da abstenção e incidiram nos alegados males do nosso sistema político. Sem querer diminuir muitos dos argumentos válidos desta linha de raciocínio, permitam-me uma abordagem complementar.

Prefiro ver alguns dos aspectos positivos que este acto eleitoral veio mostrar. Primeiro, que o voto antecipado e por correspondência está em crescendo, com isso mostrando que o sistema tem capacidade de se adaptar aos ritmos modernos da sociedade, marcados por menos previsibilidade ou maior mobilidade. Falta ampliar, comunicar e educar para estas possibilidades, que não são novidade, mas até aqui quase restritas a militares, emigrantes e pouco mais.

Segundo, destaque-se também pela positiva o alargamento do debate a novos partidos, quer na disputa eleitoral quer na capacidade de conseguir eleger parlamentares. Novas ideias, novos discursos e novos protagonistas, uma combinação com potencial para enriquecer o debate público.

Terceiro, a consciência de que há um caminho a fazer para melhorar a proporcionalidade, em especial nos círculos mais pequenos.

Quarto, a educação para a cidadania e para o voto deve começar em tenra idade.

Igualmente importante, em quinto lugar, os cadernos eleitorais terão que ser expurgados de eleitores falecidos para que então a análise da abstenção seja mais relevante.

Finalmente, da leitura dos resultados e dos desenvolvimentos partidários dos últimos dias, teremos um governo minoritário. Temas como a economia, a sustentabilidade e as relações de trabalho ganharão nova preponderância, pelas forças combinadas de um possível abrandamento económico internacional, consciência ambiental em crescendo e sindicatos mais recentrados na sua matriz laboral.

A este último propósito, os sindicatos bancários desenvolveram um crescendo de actividade neste ano que agora caminha para o final, com empenhamento e participação dos seus associados em várias acções, inclusive em actos eleitorais. Compete-me, em especial, saudar os sócios do Sindicato Nacional dos Quadros e Técnicos Bancários, que mantêm uma matriz de independência há 36 anos, que registaram uma participação histórica nas eleições para os seus órgãos centrais relativas ao quadriénio 2019/2023.

Na prática, a sua votação expressiva é o corolário do seu empenhamento cívico e sindical, bem visível ao longo deste último quadriénio. Sinal redobrado de empenhamento da sociedade civil na construção de uma sociedade mais equilibrada, como que a contrariar os deterministas que se esquecem que a vontade humana é decisiva na construção histórica.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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